Dentro deste espírito, e para quem achou exagerado o "americanismo" dos programas televisionados na quarta-feira, a componente nacional foi um consolo. Algures ao serão, por exemplo, surgiu a dra. Clara Pinto Correia, a confessar o seu entusiasmo aquando do ataque ao World Trade Center. Segundo a eminente bióloga, que lecciona em Teerão, "o Bush estava mesmo a pedi-las."
Nem todos foram tão sinceros no deleite. Regra geral, a atitude de comentadores e afins consistiu em fazer cara grave, condenar os atentados, respirar fundo, e em seguida acrescentar um grande "mas...". Nesse "mas...", escusado dizer, cabiam as maiores extravagâncias, desde a cantilena da "injustiça social" às sugestões para atingirmos o caos.
Mário Soares garantiu que o terrorismo se combate com "inteligência". Sampaio preferiu a "paciência" (?). Outros, como o prof. Freitas, agarraram-se à "importância" da ONU (e ninguém explica aos pobres que a ONU sempre foi um pechisbeque grotesco). E chegou a haver malucos que exigiram "diálogo" - presume-se que com o respeitável Saddam, na falta de Bin Laden ou do venerando Omar (que, de acordo com testemunhos em Kandahar, terá "fugido de mota", o que aliás é típico dos abençoados).
No momento em que, pelas dez da noite, a RTP apresentou um debate entre membros da Associação dos Amigos do Iraque, dissiparam-se as últimas dúvidas: sobre a "guerra ao terror", o discurso dominante nestas bandas é idêntico àquele que se ouve no Paquistão ou na Palestina. Não fora um bocadinho de higiene e uma boa percentagem das luminárias, indígenas e europeias, seriam confundidas com taliban de longo curso. Alguém falou em masoquismo?
Felizmente, a estupidez ladra mas ainda não manda. Quinta-feira, na sede da importantíssima ONU (o exacto local onde, há 27 anos, o canibal Idi Amin defendeu a extinção de Israel e foi aplaudido de pé), Bush, vulgo o cowboy insolente, atirou o luto para trás e afirmou com fastio o óbvio. Ou seja, que Washington não deixará os destinos do mundo nas mãos de assassinos nem de cafres "diplomáticos", atolados em burocracia, sedativos e cinismo.
Parafraseando a dra. Clara, e excepção feita à Inglaterra, a Europa estava mesmo a pedi-las. A ironia é que a vergonha da Europa é a sorte da Europa. Até ver: um dia, a ingratidão paga-se.
2.Convém não confundir as coisas. Na questão dos medicamentos ditos "genéricos", o herói não é o ministro da Saúde, que se limitou a cumprir uma promessa de muitos anos e muitos governos. O mérito pertence inteiro à Ordem dos Médicos, por ter enfim exposto o conluio entre a classe que representa e os laboratórios farmacêuticos.
Se, em consequência das "recomendações" da Ordem, os cidadãos saem prejudicados, isso é de somenos, que a franqueza é bem mais importante que o dinheiro. Como Egas Moniz, esta fidalga instituição apresentou-se em público de corda ao pescoço. Agora apenas falta quem a puxe.
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