Na mesma semana em que a Cáritas divulgou o seu relatório que dá conta de que a pobreza infantil está dez pontos acima da média europeia, começámos a saber notícias sobre crianças de tenra idade que passam dias sozinhas, abandonadas à sua sorte, sem amparo dos pais ou de alguém que os substitua. O caso mais inquietante aconteceu com dois irmãos, com três e cinco anos de idade. A partir desta situação dramática foram sendo conhecidos mais casos de abandono de outros infantes submetidos à ordem amarga de autodeterminarem os seus gestos e ações sem amparo de familiares. Cada vez que me encontro com notícias deste tipo, regressa à memória a dedicatória de Soeiro Pereira Gomes, no seu livro ‘Esteiros’, para os filhos dos homens que nunca foram meninos.
O livro tem mais de meio século de existência e os seus heróis eram crianças com futuros interditos, sem igualdade de acesso aos desafios que a vida proporcionava aos filhos dos homens que eram meninos. Era uma denúncia do caráter injusto do Estado Novo, da sua indiferença para com os pobres do campo e com os pobres em geral. O que se torna verdadeiramente extraordinário é que a ditadura acabou há quase quarenta anos, a democracia irrompeu como a utopia que realizaria este, e outros sonhos de justiça social, e quando se olha para o caminho andado percebe-se que este combate continua sem ser vencido.
Quem acompanha de perto a história da violência dos jovens e sobre os jovens sabe que este tipo de exclusão fundada na indiferença tem acompanhado a história da nossa vida democrática. E é muito mais reveladora da condição dos protagonistas da vida democrática do que da vida das muitas crianças que não chegaram a ser meninos. Da ausência de uma cultura cívica, ausência de um olhar humanista sobre aqueles que mais precisam. São, sobretudo, as instituições de solidariedade social, com a Igreja à cabeça, que têm substituído o Estado naquilo que deveria ser o seu maior compromisso.
A um mês de se celebrar a revolução que assumiu que o povo unido jamais seria vencido, não sei como é possível cantar vitórias ou denunciar derrotas sem que cada um dos cidadãos que bradam direitos continue indiferente aos filhos de tantos homens que continuam a não ser meninos.
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Por Carlos Rodrigues
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