Antes do mais, era algo 'contra'. As gerações mais velhas, os pais, os chefes, por aí fora. Fiquei embatucado quando um chefe, de quem me tornei amigo, me disse, com ar desinteressado que, "por acaso", era mais novo que Frank Zappa… Hoje, penso no que posso ter perdido com esse radicalismo pequeno-burguês de fachada adolescente. Talvez por isso, procuro os sábios, os que viveram e teimam em viver, os que ensinam com conversas e com actos, os que me ajudam a saber mais e a ter mais prazer(es).
Este longo intróito tem uma razão de ser, muito próxima e mais do que recomendável: o novo disco do francês Henri Salvador, 'Ma Chère Et Tendre' (ed. EMI-VC), fresquinhos que nem alfaces, homem e obra, tendo o primeiro completado 86 anos em Julho passado. Repito, por extenso, que não é gralha: oitenta e seis. E, no entanto, quando se dá a volta ao panorama da música francesa, tombados os grandes 'paroliers', perdida a influência de outras eras, é este respeitável ancião quem colecciona e mostra as pistas da eterna modernidade. Descobri-o há três anos ('mea culpa', que a carreira dele tem 70!) com um sumptuoso 'Chambre Avec Vue', tornei-me fanático coleccionador, parti à descoberta de uma história que, veja-se só, ainda lhe permitiu trabalhar com o lendário Django Reinhardt. E, até agora, ainda não descobri um episódio menor.
Isso deve-se, em grande parte, ao facto de Henri Salvador navegar em terrenos que me são particularmente claros: do 'swing' ao 'jazz', da 'chanson' à Bossa Nova, o artista é um cadinho de referências, tratadas com a sua voz fina, com arranjos que desafiam as datas, com canções que parecem ter sido mergulhadas no elixir da eterna juventude. O que muda é, apenas, a transparência crescente das condições de gravação. O que varia são os companheiros que vai escolhendo para o ajudarem a construir o seu edifício de canções, sempre com vista para o mar e altamente recomendáveis para as paixões dos dias claros. Em 'Ma Chère Et Tendre', além de uma subida considerável do número das suas próprias autorias, é nas mais diversas fontes que Salvador vai beber a suavidade e a sageza de um álbum que, dispondo 14 canções, mais parece infinito: de um homem da resistência como Guy Béart aos novos 'luxos' como Keren-Ann Zeidel e Benjamin Biolay (de resto, dois dos grandes obreiros para o esplendor de 'Chambre Avec Vue'), passando por Michel Modo, mais conhecido como actor e argumentista, e Robert Nyel, que chegou a ter temas seus cantados por Piaf.
Depois, é só deixar correr o marfim de uma voz que não treme nem tem razões para isso, que a 'souplesse' (que, sem coincidências, é uma palavra francesa…) o protege de deslizes, ainda por cima escudado pela ligeireza romântica das cordas ou apoiado pelo deslizar maroto dos metais. Henri Salvador está, algures no 'paraíso' das canções, entre Compay Segundo e João Gilberto. No estilo como na idade. Moram naquela área protegida em que já não passam as carreiras de qualquer hipótese de decadência, naquele terreno feliz em que já se percebeu que os velhos sábios não têm pressa. Não têm vagar para isso…
Faz toda a diferença raciocinar como os PEARL JAM, que nunca se eximem a prestar contas públicas aos seus fãs, através dos discos originais como dos (múltiplos!) álbuns 'live'. Faltava só uma compilação como 'Lost Dogs' (ed. Sony), CD duplo que reúne três dezenas de 'lados B' dos singles, 'takes' não aproveitados anteriormente e raridades. Com o selo da voz de Eddie Vedder e as guitarras de Stone Grossard e Mike McReady, está longe de baixar o nível da conversa. Uma das colectâneas do ano.
n Morto há dois anos e meio, o homem continua a dar cartas: 'Face To Face' (ed. Edel) é o álbum que JOHN LEE HOOKER não teve tempo de terminar, como explica a filha, Zakiya, que deitou mãos à tarefa de o editar. E ainda bem: blues em estado puro, com a voz inconfundível de 'Hook', canções de primeira, arranjos simples como convém, um vibrante dueto com Van Morrison e as guitarras de Johnny Winter e George Thorogood à solta. Mais um para juntar aos clássicos que, em verdade, nunca desaparecem.
TOCA E FOGE
RONAN KEATING parecia capaz de recuperar dos anos 'perdidos' nos Boyzone, mais uma das 'boys bands' para adolescentes – a canção 'When You Say Nothing At All', do filme 'Notting Hill' assemelhava-se a um passo de gigante. Volvidos quatro anos e uns quantos discos, essa perspectiva dissipa-se de vez em 'Turn It On' (ed. Universal), álbum de banalidades, tão formatado que, no fim, nada se retém. Nem sequer o par de canções escritas por Ricky Ross, dos saudosos Deacon Blue. Mastiga e deita fora. n Ora aí está o exemplo de como, através de um só disquinho, se pode 'borrar a pintura' de uma forma que vai deixar sequelas. Se 'Hear Me Cry' tinha valido como apresentação, 'Born To Be Free' mostra como a obsessão do 'crossover' pode deitar tudo a perder. Ao contrário do que lhe conhecíamos, SONIQUE está descaracterizada, nem R & B, nem pop, nem dance. Os dois singles daqui retirados – 'Can't Make Up My Mind' e 'Alive' são despersonalizados a um ponto que só pode desaguar na indiferença.
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