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Rui Pereira

Rui Pereira

Professor universitário

Parábola da divisão

22 de agosto de 2013 às 01:00

Quando seria de esperar que o prémio de quinze milhões de euros proporcionasse uma partilha que mitigasse as dores do fim de um namoro juvenil, iniciou-se um processo judicial que percorreu todas as instâncias. Cristina foi a autora da chave vitoriosa, mas Luís pagou duas das três apostas e entregou o boletim. Cristina garantiu que o boletim foi só "barriga de aluguer" do seu palpite certeiro, mas Luís assegurou que havia uma sociedade.

Chamado a pronunciar-se sobre o imbróglio, o Supremo Tribunal de Justiça decidiu, razoavelmente, dividir o prémio por dois. Calcula-se, entretanto, que as custas sejam fixadas em mais de um milhão de euros (se prevalecesse a pedagogia, deveriam ascender a sete ou oito milhões). Gastos seis anos a ruminar ódios, os jovens podem desfrutar agora da excentricidade. Desta parábola devem retirar um ensinamento: ao contrário do que a aritmética prediz, o resultado da divisão de um número positivo por dois até pode ser superior a esse número.

Esta parábola também é adequada para refletir na reforma do Estado. Portugal é o nosso Euromilhões. A extinção de postos de trabalho e a introdução de despedimentos sem justa causa, a diminuição de pensões e remunerações, o aumento do horário de trabalho e a supressão de prestações públicas na saúde,na educação,na cultura, na justiça e na segurança são, em substância, um modo insidioso de recusar a divisão dos bens que constituem o nosso património coletivo.Ora,a injustiça dessa recusa de partilha pode ameaçar o futuro da Nação Portuguesa.

Saber dividir é ainda mais importante em tempos de crise do que em época de abastança. As custas das repartições injustas de sacrifícios ou dos atrasos na partilha serão arrasadoras. Quem as fixa é a "opinião pública",que segue com crescente desconfiança os negócios recentes das nacionalizações e a costumeira distribuição de benesses no setor empresarial do Estado. Estamos a chegar agora à última instância. Depois disso, como dirá qualquer processualista, segue-se a fase executiva, que, na vida social, significa contestação e revolta popular.

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