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1. Enquanto as labaredas ardem, podemos repetir à exaustão as palavras "inferno", "horror", "solidariedade". Sinceras, ou berradas pelo dr. Louçã, não servem de nada. No fundo, sabemos disso. Donde, cansados os lugares-comuns, partimos para a habitual distribuição de culpas, o que consola. Mas, de igual modo, não resolve.

Podemos, sem mentir, culpar o calor e o vento. Podemos culpar os eventuais incendiários, invariavelmente a soldo de sinistros interesses, exigir detenções, castigos cruéis, legislação de urgência - e quantos milhares de hectares não ardem às mãos de dementes, ou por incúria, ou por acaso? Podemos culpar, com legitimidade, o declínio dos cultivos, o abandono das matas, a desertificação do interior, mas trata-se de uma reacção vã aos movimentos estruturais que definem as nossas décadas recentes.

Podemos culpar o Governo (qual?) e o atraso técnico e humano do país, cujo caos, antes e durante as calamidades, parece ser a norma, e que necessita de recorrer a ajuda estrangeira, Marrocos incluído. Mas países melhor organizados que o nosso, com sistemas de prevenção mais eficazes que os nossos, também ardem. Imenso. Sejam quais forem as suas causas, os incêndios florestais são democráticos. Democráticos e prósperos: repetem-se e aumentam a cada ano, apesar das medidas e das campanhas.

Podemos até culpar responsáveis de última hora, como o sr. dr. Guilherme Silva, que fala muito mais depressa do que pensa. Se quisermos, e em desespero de causa, podemos culpar as televisões, que exibem tudo, as chamas, os gritos, o medo, aparentemente sem contexto nem critério. Gente autorizada tem lamentado o excesso de "ruído" que acompanha este Verão quente, sobretudo nas reportagens televisivas. Difícil discordar, mas em nenhum canto do mundo livre um programador rejeitaria a transmissão de imagens assim, em nome do "interesse público" ou das audiências, tanto faz. E os jornalistas, ou "jornalistas", não atearam o fogo.

Ao largo das chamas, nem o exotismo falta: houve um ministro que culpou os ex-combatentes do Ultramar, e, nessa linha, aguarda-se a acusação formal dos participantes na Volta a Portugal de 1938.

Peço desculpa, mas em tudo isto só encontro uma verdade: as calamidades, mais ou menos naturais, com ou sem direito a decreto governamental, existirão sempre. Destruir é fácil, para o homem e para a natureza. Está-lhes na essência desde o princípio. Complicado é voltar a erguer aquilo que se perdeu. Complicado é possuir esse nervo que afasta as civilizações da barbárie. O fogo, horror à parte, é a propósito um bom teste. Portugal passará? Não ponho lá as mãos.

2. Por tolas que sejam, as juventudes partidárias limitavam-se, até há pouco, a um papel de integração. Se um casal adivinhava no rebento tendência para a vadiagem e absoluta falta de préstimo, restava-lhe incentivar a adesão do fedelho a uma "jota". O moço permanecia um inútil, mas isso nas "jotas" passa por virtude. Depois, com sorte, nenhum carácter e o mínimo de talento na colagem de propaganda, talvez o pobre um dia garantisse uma espécie de carreira política. Do mal, o menos.

Para nosso azar, agora as "jotas" decidiram pregar o evangelho fora do rebanho. Recentemente, uma vaga de cartazes da JSD atingiu as cidades portuguesas, com mensagens "giras" condenando o álcool, a droga e a velocidade nas estradas. O chefe do bando considera a campanha "agressiva", e lá que agride a nossa sanidade emocional, é um facto.

O trágico é que a campanha chega a ser perigosa. Perante o grotesco moralismo da JSD, qualquer jovem sensato sente-se impelido a exagerar no vodka, a arriscar um "ecstasy", a carregar no pedal. Ninguém o poderá condenar, mas quem se vai responsabilizar pelos prováveis danos?

albertog@netcabo.pt

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