Em 2011 publiquei um livro defendendo que a TV, embora mantenha alguns aspectos estruturais, deve ser hoje pensada em primeiro lugar como conteúdos. Essa mesma perspectiva encontra-se noutros livros recentes reunindo artigos de um grande número dos mais importantes especialistas dos estudos de TV em língua inglesa. Devido às mudanças enormes na indústria, produção, tecnologia, mercados, audiências e nos próprios conteúdos, os estudiosos chamam à TV que já aí está, ou que aí vem, nomes como "TV pós-generalista", "pós--radiodifusão", "no contexto digital" ou apenas "TV digital", isto é, como media digital. Eu chamo-lhe a "TV de conteúdos", por me parecer que o que se vê nos ecrãs transcende em importância a tecnologia ou o tipo de meio de acesso, os canais, etc.
Qualquer que seja o nome, as mudanças na TV actual implicariam uma refundação do serviço público — aqui, sim, uma refundação do Estado no que à TV diz respeito. O serviço público deveria ser pensado ao contrário de como tem sido: em vez de se partir de uma estrutura, duma empresa, duns canais para, só no fim, se tratar dos programas que se põem no ar, o serviço público deveria construir-se a partir dos conteúdos de qualidade que se querem fazer chegar ao maior número de pessoas, adequando-se depois os meios técnicos de difusão e de estrutura ou empresa ao melhor e mais eficaz processo de criação e produção.
Sendo adquirido que o Estado tem de proporcionar um serviço público de TV e de rádio, o falso debate que se vê por aí está de pernas para o ar. Fala-se de tudo menos de conteúdos, que é a expressão última, máxima, do que um serviço público é. Fala-se de privatizações, de concessões, fala-se de RTP Porto e RTP Lisboa, fala-se de meios técnicos, fala-se da RTP como se ela fosse o próprio serviço público (não é, ela é apenas uma empresa), confunde-se uma empresa com a essência de serviço público: os conteúdos disponibilizados aos portugueses.
Sem uma refundação do serviço público, perderemos mais dez anos. Financiaremos uma empresa que faz conteúdos do século XX para espectadores do século XXI, que não produz conteúdos que se consigam vender para outros países, que captem para o futuro a produção cultural nacional. Financiaremos um operador que, em vez de ir à frente, vai atrás dos canais comerciais. Inútil.
A VER VAMOS
BONECOS ANIMADOS PARA FINGIR QUE SE MOSTRA O TRÂNSITO
Uma das promessas do jornalismo televisivo quando chegou às manhãs foi o de mostrar o estado do trânsito. Melhor ou pior, assim foi. A TVI mostrava as entradas de Lisboa a partir de um helicóptero, enquanto a SIC e a RTP mostravam imagens captadas por câmaras penduradas no alto de postes. A crise acabou com o helicóptero e acabou até com as imagens singelas, que as TV compravam, das câmaras nos postes. Hoje, as informações de trânsito na SIC e TVI são paradoxais: em vez dos directos das câmaras, em vez de mostrar carros e engarrafamentos à chuva, sol ou nevoeiro, SIC e TVI têm uns mapas com uns risquinhos verdes, amarelos ou vermelhos, tipo bonecos animados primitivos. A TV, que serve para mostrar, não mostra.
JÁ AGORA
POR TRÁS DA CORTINA
‘Nos Bastidores dos Telejornais’, de Adelino Gomes (Tinta da China, 2012), é uma viagem única a processos de trabalho e de escolha do que será notícia e aos constrangimentos políticos e comerciais nas redacções da RTP 1, SIC e TVI. O autor observou a partir de estadas prolongadas nos canais e foi bastante o que lhe disseram, muito o que viu e imenso o que analisou.
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