É inopinada tamanha obsessão com o sexo, depois de tantos milénios de uso. Claro que as coisas mudaram um bocado, sobretudo nos últimos vinte anos. Fala-se até em Educação Sexual obrigatória (nesta nova disciplina, os exames orais serão eliminatórios).
É como resmunga uma amiga minha: “Hoje uma mulher vai para a cama com um homem e, imagina, no dia seguinte ele já nos quer levar para jantar!” Há vinte anos a exibição de ‘O Império dos Sentidos’, no Canal 2, provocou um chilique na sociedade portuguesa. Apesar (ou por causa) das cenas de sexo explícito, o filme de Oshima é uma obra-prima sobre o nexo metafísico entre a sensualidade e a morte, Eros e Tanatos. Precisamente como alguém disse sobre o escabroso ‘O Trópico de Câncer’, de Henry Miller: “Enfim um livro impublicável que é legível.” Em compensação, o meu avô chorou baba e ranho quando assistiu à ‘Garganta Funda’: “É o filme mais deprimente que já vi – tristíssimo quando se tem 83 anos.”
Desde então, o panorama mudou. Floresceram os canais 18, o XXL e os porno por assinatura. O sexo na TV, que estava a entrar e a sair fogosamente dos nossos lares sem parar, a entrar e a sair, virou-se para o lado e acendeu um cigarro. Sempre achei os filmes porno uma seca repetitiva. Um amigo concorda: “Nos primeiros minutos quero voar para a cama e coisar desalmadamente; no resto do filme, nunca mais quero coisar na minha vida (e para localizar o meu pirilau é preciso um GPS).” OK, mas repugna-me o puritanismo: os nossos críticos ainda acham difícil escrever: “Adorei este filme porque me provocou uma erecção.” Bem, a triste verdade é que o melhor afrodisíaco continua a ser a carência prolongada.
Eis a minha posição (ops!): as opções sexuais, desde que voluntárias e entre adultos, são pessoais. Aliás, se todos conhecessem a intimidade um dos outros, ninguém se cumprimentava na rua. Pornografia de madrugada ou por assinatura? Acho muito mais obsceno, por exemplo, um energúmeno do ‘Big Brother’ participar, às quatro da tarde e em canal aberto, que vai “bater uma”. Ou a monomania da ‘Tertúlia Cor-de-Rosa’ (isto é que é sair do armário!), da SIC, com pilinhas e adjacências, ainda antes do meio-dia. Chegaram a fazer um círculo, com um marcador vermelho, em redor do membro nu e erecto do namorado de uma colunável (daquelas que são célebres por serem famosas). E projectaram a foto, com os comentários epigramáticos que calculam. Degradante, boçal e rasca. Mas, leitor, não se rale tanto com o sexo. Afinal, ele é hereditário – se os seus pais nunca o fizeram, você tão-pouco o fará.
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Por Carlos Rodrigues
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
É caso para temer que seja mais do mesmo.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
Os filhos levam tempo até perceber que os pais também são humanos.