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Há miríades de variações sobre moda e decoração. A SIC Mulher (numa associação que devia deixar as feministas de cabelos em pé) está infestada deles. Desde o ‘Project Runway’, em que candidatos a estilistas têm de criar um trapinho triunfal, a ‘Fashion Adviser’, passando por "Sentir-se Bem na Própria Pele", cujo título samaritano diz tudo.

Mas a tendência suprema dos reality shows é o voyeurismo sádico, que submete os participantes a uma saraivada de humilhações. Voluntariamente, claro. A fama meteórica (e efémera) parece compensar os suplícios físicos e psicológicos (no ‘Survivor’, os concorrentes passavam a vida a devorar vermes e insectos). ‘What not to Wear’ combina as duas receitas. Alguém considera alguém piroso (detalhe sórdido: o primeiro alguém é um familiar ou amigo do segundo). Durante duas semanas, filmarão o suposto/a pindérico para converter tal facto num axioma – incluindo situações que explicitam a parolice do desgraçado, com níveis de constrangimento estratosféricos.

Aliás, dir-lhe-ão na cara que não passa de uma aberração da natureza – e a primeira coisa que deve fazer na vida é deitar o seu roupeiro no caixote de lixo mais próximo. A vítima já está a soluçar ou a espumar de ódio. Então, voilà: a promessa de um cheque apinhado de zeros à direita e de que, quando tudo acabar, a cobaia terá a elegância de uma Audrey Hepburn, mesmo que seja a Odete Santos escarrada e cuspida. Eis um dos maiores sucessos televisivos da BBC dos últimos tempos. Proliferam os sucedâneos nacionais, que mimetizam os maneirismos e a truculência verbal do original.

Sejamos francos: muito do humor – do melhor humor – implica uma dose de ferocidade (é politicamente incorrecto por definição). Exemplo cru: alguém estampar-se à nossa frente depois de escorregar numa casca de banana. Mas aqui há problemas: a humilhação deliberada de um ser humano é risível? O facto de o opróbrio ser voluntário não o torna ainda mais degradante? E nada mais difícil do que a arte do sarcasmo – a ironia cáustica. Num caso assim, o que prevalece é apenas a maledicência mesquinha.

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