SUPERLIGA À VISTA - ANÁLISE AOS GRANDES ( PORTO)
Chegou de muletas ao Porto e sem muitas credenciais. A única referência que Del Neri trazia era o facto de ser associado a uma aposta muito forte de Pinto da Costa, o dirigente do futebol português conhecido por se enganar bastante menos do que os outros.
Escrevi, nestas mesmas colunas, que o FC Porto, do ponto de vista da reconstrução do plantel, actuou rápido e bem. Vendeu dois dos jogadores mais influentes do ‘FC Porto de Mourinho’ (Deco e Ricardo Carvalho), vendeu ainda Paulo Ferreira (que negócio!!!) e, com dinheiro na mão, pôde recrutar o ‘mais-que-promissor’ Diego e ainda Seitaridis e Quaresma, já depois de ter assegurado, na fase em que percebeu que não iria conseguir travar a ida do seu técnico para o Chelsea, jogadores de bom nível, a custo modesto, como são os casos de Rossato, Raul Meireles e mesmo Pepe.
O (segundo) desvio de Paulo Assunção para outro clube faz parte dos ‘fait divers’ de Pinto a Costa: o FC Porto não queria vê-lo no Sporting e ponto final. Com esta agravante: os ex-treinadores do FC Porto que passam por Alvalade não se livram da fama de serem simples mandatários do presidente dos ‘azuis e brancos’. Paulo Assunção poderia ter ido para o Galatasaray; por acaso foi para o AEK de Fernando Santos. De facto, é quase a mesma coisa.
Não passou a ideia do desmoronamento do plantel do FC Porto, com a saída de Mourinho. Aliás, nunca acreditei que o actual treinador do Chelsea quisesse levar muitos dos seus jogadores para Inglaterra, porque outros técnicos, em circunstâncias similares, incorreram nesse erro, com consequências gravosas para os respectivos clubes (exemplo: ‘Benfica de Souness’).
Nas minhas análises e comentários, deixei sempre um ponto de interrogação sobre a contratação de Del Neri, técnico sem experiência internacional e com currículo curto, apesar do bom desempenho no Chievo. Talvez Pinto da Costa tivesse pensado em fazer a transição (sem Mourinho mas com o fantasma do dito cujo) com um treinador que soubesse concretizá-la sem sobressaltos, em estreita consonância com a SAD portista e sem muitas ondas, aproveitando, sobretudo, o trabalho estupendo realizado pelo vencedor da Taça UEFA e da Liga dos Campeões em dois anos consecutivos.
Costuma-se dizer, no futebol, que em equipa que se ganha não se mexe. O FC Porto perdeu a sua referência principal (o treinador) e na venda de jogadores revelou-se suficientemente cauteloso mas seria demasiado arriscado perder, também, as rotinas, os hábitos, os comportamentos que fizeram dele a melhor equipa da Europa.
Pinto da Costa, surpreendentemente, não terá estudado bem o perfil do italiano ou, então, confiou demasiado nos seus conselheiros. Há que dizer, sem mágoas, nem euforias, nem subterfúgios que Pinto da Costa deu um tiro no pé (ver caricatura do talentoso Carlos Laranjeira), porque não há memória – na história da bola indígena – de um arrependimento tão grande e tão rápido.
Cinco jogos de carácter particular (uma derrota), cerca de um mês de trabalho e a ‘chicotada psicológica’ no dia da apresentação do plantel aos sócios, a 13 dias do primeiro jogo oficial (Supertaça Cândido de Oliveira). Houve uma situação parecida com Di Stefano no Sporting, creio que há cerca de três decénios, uma outra com Ivic no Benfica e ainda aquela que envolveu, mais recentemente, Materazzi em Alvalade, estas duas últimas, contudo, com os respectivos campeonatos já a decorrer. Mas se, no caso dos clubes de Lisboa, uma situação destas quase já não constituiria qualquer escândalo (como a ‘frase assassina’ de Simão, publicada ontem, segundo a qual “queremos morder os calcanhares ao FC Porto”, outro tiro no pé), uma rescisão tão prematura, a acontecer na casa do Dragão, é algo surpreendente e perturbante.
A ‘máquina’, também se engasga – e, neste caso Pinto da Costa já fez, sem o proclamar, o autoreconhecimento de que se enganou. Um erro que não abona a sua decantada perspicácia. Dir-se-á: feito o diagnóstico, Pinto da Costa reagiu quando outros esperariam para ver. Também Scolari emendou a mão após o primeiro jogo no Europeu.
Reconhecer os erros não faz mal algum, mas a escolha de um treinador tem de pressupor algo de mais profundo, porque o mercado é vasto, o FC Porto tinha disponibilidade financeira para contratar e, portanto, não é pacífico que erros destes sejam achados como nomais, até porque, se não for provado o contrário, a rescisão do contrato custa dinheiro aos cofres portistas.
A questão do atraso na viagem não colhe. É a versão oficial para tentar tapar o evidente: Del Neri não abdicou até aos fim das suas ideias e convicções e, portanto, pretendia levar até ao fim as opções sobre dispensas, sistema de jogo, etc., o que terá provocado alguma surpresa, ao que parece, nos dirigentes do campeão europeu. Porque se o FC Porto e Pinto da Costa estivessem satisfeitos com Del Neri não seria um atraso no avião que iria provocar este desenlace. Só faltaria tentar despedir o italiano com justa causa...
Este tiro no pé de Pinto da Costa não é nada comparado com o que se passa no País. A ‘silly season’ também atingiu o auge: segundo o novo regulamento, as namoradas dos deputados passam a ter viagens pagas. E a Pimpinha ainda não estoirou com mais nenhum carro!
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Por Carlos Rodrigues
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
É caso para temer que seja mais do mesmo.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
Os filhos levam tempo até perceber que os pais também são humanos.