Antiga eurodeputada do PS espera ainda que Seguro se demarque do Governo e condene agressão ao Irão.
A antiga candidata presidencial Ana Gomes prevê que António José Seguro vai ser um Presidente da República "parco na utilização da palavra", correto e exigente na relação com o Governo, com "alertas públicos" na medida necessária.
Em declarações no âmbito do 'podcast' Lusa Extra, Ana Gomes manifestou-se certa de que António José Seguro vetará alterações à legislação laboral "tal como estão" e sem que haja um acordo de concertação social, como "disse na campanha eleitoral".
A diplomata e antiga eurodeputada do PS apontou, porém, como uma questão mais relevante do que essa "a privatização da Segurança Social e disponibilização em bolsa dos capitais da Segurança Social", algo que no seu entender "está nas intenções deste Governo" PSD/CDS-PP.
"Isto, a meu ver, tem de ser absolutamente impedido pelo Presidente da República e por outros órgãos e forças do país", defendeu.
Por outro lado, Ana Gomes congratulou-se por António José Seguro ter elegido a saúde como prioridade e qualificou como "escandaloso" o modo como tem sido gerida, criticando o uso de recursos públicos "para pagar aos privados" e as verbas pagas a médicos tarefeiros: "Isto é inaceitável, é uma ignomínia e não pode continuar".
"Isto é má gestão feita para defraudar o Estado. E é exatamente aí que nós precisamos de reforma. E eu conto que o Presidente António José Seguro não seja enganável ou não seja parco na sua intervenção, no sentido de moralizar aquilo que efetivamente tem dado muita razão de queixa aos portugueses", acrescentou.
Segundo a antiga embaixadora em Jacarta, o novo Presidente vai ser "bastante mais parco na utilização da palavra, para que ela seja, naturalmente, mais relevante do que era com o professor Marcelo Rebelo de Sousa", de cujos mandatos fez um "balanço globalmente negativo".
Na relação com o executivo chefiado por Luís Montenegro, Ana Gomes prevê que Seguro "vai ser muito correto", mas "muito exigente, desde logo nas conversas semanais com o primeiro-ministro e no seguimento daquilo que são os compromissos assumidos lá nessas reuniões e assumidos publicamente", confrontando-o com "aquilo que foi feito ou aquilo não foi feito".
"Muito disto poderá passar-se de forma discreta, mas haverá momentos em que se calhar é preciso uns alertas públicos. E aí não tenho a mais pequena dúvida que António José Seguro saberá fazê-los na hora e com a medida necessária para que o Governo compreenda", considerou.
A antiga dirigente do PS acredita que "não será António José Seguro que precipitará qualquer crise" em Portugal, e na sua opinião "essa também foi uma das características dos dois mandatos do professor Marcelo Rebelo de Sousa, que foi de facto um fator de instabilidade, de desestabilização, designadamente com as três dissoluções da Assembleia da República".
"Já estamos a ver que, inclusivamente, as tensões que podem abalar o Governo vêm de dentro do próprio PSD, designadamente por causa da questão da aliança com a extrema-direita", observou Ana Gomes, numa alusão ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.
Em relação ao Chega, a antiga dirigente do PS espera de António José Seguro iniciativas para evitar que o tipo de intervenção desse partido "infete ainda mais a sociedade portuguesa".
A diplomata referiu que o Presidente eleito "tem a responsabilidade de ter essa votação recorde de portugueses da direita à esquerda, democrática, que não pode de maneira nenhuma aceitar o tipo de intervenção malcriada, boçal, que é típica do partido Chega".
Ana Gomes criticou Marcelo Rebelo de Sousa por não ter intercedido pela ilegalização do Chega, quando o partido surgiu, e está convencida de que o Presidente cessante não ficará em silêncio: "Embora ele prometa que se cala, eu não sou das que acreditam. Nunca se calará, e haverá imensas maneiras de dar a conhecer a sua opinião, porque isso tem a ver com a sua maneira de ser".
Ana Gomes espera que Seguro se demarque do Governo e condene agressão ao Irão
A antiga eurodeputada do PS espera ainda que o novo Presidente da República se demarque do Governo e condene a agressão dos Estados Unidos da América e Israel ao Irão, afirmando-a como ilegal.
"Há maneiras de o dizer de forma a limpar a honra de Portugal, porque é isso também que está em causa", declarou a diplomata.
Ana Gomes, que foi candidata presidencial em 2021 e apoiou desde o início a candidatura de António José Seguro às presidenciais deste ano, realçou o difícil quadro internacional que o novo chefe de Estado vai enfrentar: "O mais angustiante de todos, de que eu me lembre, e tenho 72 anos".
"Neste momento, é essencial fazer exatamente o contrário daquilo que o Governo de Luís Montenegro está a fazer -- que é alinhar com o ataque ao Irão desencadeado pelos Estados Unidos e por Israel -- e denunciá-lo como ilegal, contrário ao direito internacional. Isto tem de ser dito", defendeu.
A antiga embaixadora em Jacarta referiu que esteve no Irão duas vezes e não tem "a mais pequena dúvida de que o regime do Irão é sinistro".
"O que eu sei é que as consequências desta agressão ao Irão são de tal modo apocalípticas, quase que diria, para aquela parte do mundo, para o mundo inteiro, e para a Europa em particular, que o mínimo que se exige a qualquer governante que se respeita, que nos respeita, que nos faz respeitar, é dizer que aquela agressão é ilegal", acrescentou.
Questionada se acredita que vai ouvir isso da parte do novo Presidente da República, Ana Gomes respondeu: "Espero bem que sim, espero bem que haja essa coragem, embora eu perceba que ele não queira, no primeiro momento, demarcar-se absolutamente do Governo, para que isso não seja interpretado como estando a tirar o tapete ao Governo".
"Mas eu espero que, justamente, da parte do novo Presidente haja a sagacidade de dizer exatamente isto, de reiterar o direito internacional e de rejeitar agressões que são manifestamente violadoras do direito internacional, violadoras da própria Organização das Nações Unidas (ONU) e o sentido, os princípios e valores das próprias Nações Unidas, no momento em que, inclusivamente, o secretário-geral até acontece ser português [António Guterres]", reforçou.
Ana Gomes argumentou que "o direito internacional é o que faz a diferença entre a lei da selva, em que os grandes esmagam os pequenos, e a civilização" e o que defende os países da dimensão de Portugal, e rejeitou a sua relativização ou desvalorização, mesmo quando é "a principal potência global a espezinhar o direito internacional".
"Há momentos em que precisamos ter princípios, valores e coragem de os afirmar contra os 'bullies', contra os agressores", disse.
No seu entender, as palavras de primeiro-ministro, Luís Montenegro, no parlamento, correspondem à ideia de que, "no fundo, o direito internacional usa-se quando serve, quando não serve, a segurança está à frente".
"Não podemos aceitar que o Governo português tenha, hoje, o mesmo tipo de posição que teve o Governo do PSD, de Durão Barroso, em 2003, face uma agressão que também era completamente ilegal, a agressão ao Iraque", advogou.
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