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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Defesa de administrador da Start Campus Rui Neves diz que se fez justiça

Advogado Tiago Félix da Costa reitera confiança na inocência do arguido, sujeito a Termo de Identidade e Residência.

13 de novembro de 2023 às 19:25

O advogado do administrador da Start Campus Rui Oliveira Neves no processo do lítio e do hidrogénio considerou esta segunda-feira que se "fez justiça" com a aplicação da medida de Termo de Identidade e Residência (TIR) ao seu constituinte.

À saída do Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, Tiago Félix da Costa referiu que a defesa de Rui Oliveira Neves esteve "sempre confiante" no desfecho do interrogatório do arguido, que se declara inocente e cuja "estratégia foi apenas de esclarecer e de colaborar com as autoridades".

"Rui Oliveira Neves é inocente. Todos os que o conhecem pessoalmente e profissionalmente sabiam disso. A Justiça começou a dar o primeiro passo para o confirmar", enfatizou o advogado, congratulando-se que o próprio Ministério Público (MP) tenha reconhecido que "o crime de corrupção não estava fortemente indiciado" após o interrogatório feito ao arguido pelo juiz Nuno Dias Costa.

Não tendo o juiz validado a indiciação de prevaricação e corrupção imputado a Rui Oliveira Neves, mas de tráfico de influência e oferta indevida de vantagem, o advogado Tiago Félix da Costa entendeu que, "a seu tempo", até o que restou dos crimes imputados ao administrador da Start Campus será devidamente esclarecido e rebatido pela defesa. "Daqui até ao julgamento, falta muito", lembrou.

Nas palavras do advogado, a decisão do tribunal relativamente ao seu cliente foi uma "vitória para a Justiça", sobretudo porque neste processo seria "sempre sensível e muito delicado" tomar uma decisão como aquela que o juiz proferiu.

Tiago Félix da Costa rejeitou a ideia de que a decisão do juiz sobre as medidas de coação seja um "atestado de incompetência do Ministério Público". Referiu contudo que houve uma diligência que, a seu ver, foi "absolutamente desnecessária" e que foi a detenção do seu cliente para ser interrogado por um juiz de instrução criminal.

"Acho que este processo é um bom prenúncio para se fazer uma reflexão profunda sobre a justiça", concluiu Tiago Félix da Costa.

Por seu lado, Pedro Duro, advogado do CEO da Star Campus Afonso Salema, admitiu que o resultado destas medidas de coação "não é o resultado condizente com as expetativas do Ministério Público".

Lembrou contudo, na sequência de perguntas dos jornalistas, que "o juiz não dá puxões de orelhas" ao MP, mas cabe-lhe fazer "a sua avaliação" dos indícios.

Pedro Duro recusou-se a comentar o facto de alguns crimes, como prevaricação e corrupção ativa e passiva, terem caído na avaliação dos indícios feita pelo juiz, mas sublinhou que "a Justiça tem que estar sempre em reflexão por causa do impacto que tem nas famílias e na economia", lembrando que, após estes dias de detenção, o seu cliente tem agora a oportunidade de voltar a estar com a família.

Os cinco arguidos detidos no processo ligado aos negócios do lítio, hidrogénio e Centro de Dados de Sines ficaram hoje todos sujeitos a medidas de coação não privativas da liberdade.

O arguido Diogo Lacerda Machado, advogado, consultor e amigo do primeiro-ministro, ficou sujeito a prestar uma caução de 150 mil euros no prazo de 15 dias e a não se ausentar para o estrangeiro, devendo entregar o respetivo passaporte à guarda do tribunal no prazo de 24 horas.

Vítor Escária, ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro, António Costa, ficou sujeito a não se ausentar para o estrangeiro, devendo entregar o respetivo passaporte à guarda do tribunal no prazo de 24 horas.

O presidente da Câmara Municipal de Sines, Nuno Mascarenhas, e os administradores Rui Oliveira Neves e Afonso Salema, ambos da empresa Start Campus, ficaram submetidos a Termo de Identidade e Residência (TIR), a medida de coação menos gravosa.

A empresa Start Campus, que é arguida no processo, ficou de prestar caução no valor de 600 mil euros no prazo de 15 dias.

Segundo o comunicado do tribunal, o juiz Nuno Dias Costa considerou que Diogo Lacerda Machado e Vítor Escária estão "fortemente indiciados" em co-autoria e na forma consumada de um crime de tráfico de influência.

Paralelamente, entendeu o juiz que Afonso Salema e Rui Oliveira Neves estão indiciados em co-autoria de um crime de tráfico de influência e um crime de oferta indevida de vantagem.

Em relação à empresa Start Campus, o juiz entendeu que esta se mostra "fortemente indiciada" de um crime de tráfico de influência e de um crime de oferta indevida de vantagem, cuja prática se concretizou através dos administradores Afonso Salema e Rui Oliveira Neves.

A nota enviada pelo tribunal não menciona a indiciação de qualquer crime ao presidente da Câmara Municipal de Sines.

O juiz não validou os crimes de prevaricação e de corrupção ativa e passiva que estavam imputados a alguns arguidos.

O primeiro-ministro, António Costa, que surgiu associado a este caso, foi alvo da abertura de um inquérito do MP junto do Supremo Tribunal de Justiça, situação que o levou a pedir a demissão, tendo o Presidente da República marcado eleições antecipadas para 10 de março de 2024.

No total, há nove arguidos no processo, incluindo o ministro das Infraestruturas, João Galamba, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Nuno Lacasta, o advogado, antigo secretário de Estado da Justiça e ex-porta-voz do PS João Tiago Silveira e a empresa Start Campus.

O processo está relacionado com a exploração de lítio em Montalegre e de Boticas (ambos distrito de Vila Real), com a produção de energia a partir de hidrogénio em Sines, Setúbal, e com o projeto de construção de um centro de dados (Data Center) na zona industrial e Logística de Sines pela sociedade Start Campus.

Segundo o MP, estão em causa os crimes de prevaricação, corrupção ativa e passiva de titular de cargo político e tráfico de influência.

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