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Correio da Manhã

Política
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"Jornalistas não têm que distinguir entre os vivos e os mortos"

José António Saraiva, autor livro ‘Eu e os Políticos’ justifica polémicas em entrevista à CMTV.
Pedro Zagacho Gonçalves 29 de Setembro de 2016 às 21:38
José António Saraiva, autor do livro 'Eu e os Políticos' deu uma entrevista à CMTV
José António Saraiva, autor do livro 'Eu e os Políticos' deu uma entrevista à CMTV FOTO: CMTV

‘Eu e os Políticos’, de José António Saraiva promete fazer correr muita tinta para além das revelações de episódios sobre José Sócrates, Paulo Portas, Margarida Marante. Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Soares ou António Guterres, são apenas alguns dos quase 40 políticos mencionados neste livro. O autor, ex-diretor do Expresso e do Sol, deu uma entrevista à CMTV em que explicou alguns aspetos do livro e defendeu-se das críticas que lhe são apontadas.

Sobre se já sofreu pressões ou foi ameaçado por alguma revelação feita no livro, António José Saraiva diz que foi aconselhado a omitir um ou outro episódio ou figura política, mas que não o fez.

No entanto, o autor adianta à CMTV que Fernanda Câncio já interpôs uma providência cautelar, uma vez que o seu nome vem no livro, na altura em que a jornalista namorava com José Sócrates.

O "tabu" de Cavaco Silva

É abordado na obra, por exemplo, o chamado ‘tabu’ de Cavaco Silva, quando ainda era primeiro-ministro.

"Pergunto a Cavaco se é verdade que vai renunciar à liderança do PSD e não se recandidatará ao cargo de primeiro-ministro. Cavaco responde: ‘isso é um assunto tabu. Não lhe vou dizer uma única palavra sobre isso’. Quando chego ao jornal [Expresso] telefono a alguns governantes. Marques Mendes adianta: ‘o primeiro-ministro está, de facto, farto do partido e já o disse várias vezes em privado’", escreve no livro.

A notícia acabou por sair semanário e, apenas um dia depois, já em Marrocos, Cavaco é confrontado sobre a questão e repete: "Isso é um assunto tabu".

Saraiva revela ainda os esforços de Jorge Sampaio para evitar que Santana Lopes fosse primeiro-ministro depois da saída de Durão Barroso.

 "Sampaio confessou-me ter feito tudo o que podia para evitar que Santana fosse primeiro-ministro. Disse-me que insistiu várias vezes com Marcelo Rebelo de Sousa para este avançar para a liderança do PSD (lugar que automaticamente lhe daria a chefia do Governo) mas ele não quis", afirma Saraiva.

As ligações entre os vários Presidentes da República e primeiros-ministros são reveladas ao longo do livro. Por exemplo, a relação entre Mário Soares e António Guterres, que era acusado pelo Chefe de Estado de fazer uma fraca oposição a Cavaco Silva.

Em entrevista à CMTV José António Saraiva diz que "quis fazer um retrato da sociedade portuguesa" e "deixar um contributo para a história". Saraiva alega que faz um exercício de verdade, num livro de memórias, intimista, que difere do exercício da atividade jornalística. Rejeita que seja um ato de vingança e lamenta os ataques de que tem sido alvo, até por parte de jornalistas. O autor de ‘Eu e os Políticos’ recordou o caso dos Papéis do Panamá e o célebre Watergate, para ilustrar que os assuntos que interessam aos jornalistas fogem, por vezes, aos limites éticos.

José Sócrates, o "Vale e Azevedo da Política"

José António Saraiva testemunhou a tentativa de José Sócrates de controlar o jornal Sol, que chegou a dirigir e revela o esquema que o ex-primeiro-ministro terá usado, através do BCP, acionista fundador do jornal, e instituição bancária que chegou a ser chefiada por Armando Vara, amigo do ex-primeiro-ministro.

"Sócrates diz que é estúpido os políticos quererem comprar os jornalistas ou os diretores, pois é muito mais eficaz condicionar os patrões dos grupos de media. Curiosamente, será esta a teoria que Sócrates aplicará no caso face oculta, tentando condicionar os grupos de media através dos acionistas", escreve em ‘Eu e os Políticos’.

Saraiva relata depois o que se passou em 2009, quando era diretor do Sol e o jornal já tinha publicado as primeiras notícias sobre o caso Freeport. Acusa José Sócrates de ter tentado fechar o jornal através do amigo Armando Vara, na altura administrador do BCP.

As revelações sobre Margarida Marante

Em entrevista à CMTV, José António Saraiva justificou a revelação das confissões feitas pela amiga Margarida Marante, jornalista falecida em 2012, que foi a única que fez confidências a título pessoal. Defende que escreveu tudo tal como ela lhe relatou, para retratar o "estado de espírito e de alma" da jornalista. Sobre as críticas de falar sobre alguém que já não se pode defender, alega "que os jornalistas não têm que fazer distinção entre os vivos e os mortos".

O autor recorda uma confissão feita pela jornalista depois de ter separado e ter ido viver com o antigo diretor-geral da SIC e da RTP, Emídio Rangel. "Confessa-me que a primeira vez que ele lhe tocou ela sentiu um arrepio, uma sensação que nunca tinha sentido com Granadeiro, e por isso julgava que estava a tornar-se frígida. Depois andou um ano em que continuava a viver com Granadeiro mas tinha relações com Emídio Rangel. A certa altura, o Henrique Granadeiro contratou um detetive que lhe dizia os dias, horas e locais em que Margarida Marante e Emídio Rangel tinham estado juntos."

José António saraiva foi confidente da jornalista e ouviu, na primeira pessoa, a forma como a relação com Emídio Rangel foi ganhando contornos perigosos.

"Agressões (partiu-lhe um pulso), infidelidades, etc. Ele viveu com uma prostituta com quem esteve no Carlton três semanas. Gastou no último ano 22 mil contos em cocaína. Andou com prostitutas ao mesmo tempo que tinha relações com Margarida Marante (esta fez análises a tudo para ver se estava doente). O irmão juiz tem uma empresa que faz tráfico de armas para Aangola. O Totta fez uma operação bancária com Rangel de lavagem de dinheiro (recibo de 180 mil contos por uma operação de 100 mil)."

Apesar da gravidade das informações, José António Saraiva diz, que não sabe distinguir o que é verdade e o que era imaginação de Margarida Marante.

A polémica dos irmãos Portas

No livro ‘Eu e os Políticos’, José António Saraiva revela que o já falecido deputado Miguel Portas lhe revelou que o irmão era homossexual e que, por isso, nunca seria líder do CDS-PP.

"Disse-me com um ar perfeitamente natural e sem me pedir segredo que o irmão nunca seria líder do CDS, explicando: ‘o Paulo é homossexual e teme que, com a exposição que o cargo lhe daria, isso pudesse vir a público.’ Dois anos depois deste almoço, Paulo Portas seria líder do CDS e os jornalistas nunca explorariam as suas inclinações sexuais."

O autor fala ainda de uma fotografia de Paulo Portas que nunca chegou a ser divulgada.

"Eu não lhe falo de nada – mas numa gaveta do gabinete tenho uma foto de portas, de há 10 ou 15 anos, vestido de mulher, aplaudido por homens com aspeto horrível", escreve.

Sobre esta fotografia diz que não a quis publicar e que nunca o fará. Defende que quis revelar a questão da homossexualidade de Paulo Portas por ser o próprio irmão a afirmar que nunca seria líder de um partido por determinada razão.

"Lamento ter convidado Passos Coelho para apresentar o livro"

Ainda antes do livro ser publicado, O ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho foi convidado por António José Saraiva para apresentar a obra. No entanto após o primeiro escândalo sobre as várias temáticas polémicas de ‘Eu e os Políticos’, o líder do PSD recusou o convite.

Sobre este episódio Saraiva diz não esperava "o terramoto" político que ia provocar, e lamenta envolver Passos Coelho. "Induzi-o em erro e lamento tê-lo convidado", afirma à CMTV.
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