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Luxos de 'Macaco' escapam ao Fisco

Nunca declarou receitas elevadas mas fez fortuna. Há 10 anos já tinha dois Porsches Boxter comprados em seu nome.

18 de fevereiro de 2017 às 01:30

Os atos de violência praticados na passada quarta-feira contra jornalistas do CM e da CMTV por elementos ligados aos Super Dragões, claque do FC Porto, foram levados pela direção destes dois órgãos de comunicação social ao conhecimento formal do primeiro-ministro, da ministra da Administração Interna e da procuradora-geral da República.

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Luxos de 'Macaco' escapam ao Fisco

A Joana Marques Vidal, o CM requereu uma investigação do Ministério Público aos indícios públicos e notórios que apontam para a prática de diversos crimes pelo grupo de indivíduos que tem Fernando Madureira, conhecido por ‘Macaco’, por cabecilha. A direção do CM pediu na carta enviada que sejam "reprimidos os crimes praticados por aqueles indivíduos" através da ação penal de que a procuradora-geral da República é titular. "O furto e a exibição do microfone da CMTV subtraído aos jornalistas tem sido o sinal simbólico, de inspiração bem mafiosa, de incitação e apelo ao ódio contra o jornal Correio da Manhã e, em particular, contra a jornalista Tânia Laranjo", é sublinhado na carta. A jornalista tem recebido desde quarta-feira centenas de mensagens e telefonemas anónimos com ameaças à sua integridade física bem como à sua filha menor. A ministra da Administração Interna, Constança de Sousa, enviou para o Ministério Público a denúncia do CM, que também apresentou queixa na polícia contra os indivíduos em causa.

Fernando Madureira, também conhecido por ‘Macaco’, cabecilha da claque Super Dragões, é dono de uma inegável fortuna que não tem correspondência com os rendimentos declarados.

É proprietário de uma vivenda de luxo em Canelas, Vila Nova de Gaia; pelo menos de um restaurante, Os Nando’s, no centro do Porto; e também de um hostel, o Oporto Boutique Guest House, na rua Alexandre Herculano, 410/412. Também era sócio – desconhece-se se ainda continua a ser – da Indoor Soccer de Canelas, empresa que gere dois campos cobertos de futebol. As notícias dão conta de que também foi – não se sabe se ainda é – dono do 12, snack-bar na Marginal do Douro, em homenagem ao 12º jogador, associado normalmente à claque do clube. E em 2007 comprou a Rocinha, um bar no Cubo da Ribeira.

Emprestou Porsche

A história de Madureira, que há anos se vê envolvido em processos judiciais e em situações de violência, não é nova. Em 2005, já tinha comprado o primeiro Porsche Boxster, que custava à data 80 mil euros. No ano seguinte comprou o segundo Boxster, que juntou ao parque automóvel que já possuía (tinha comprado um Renault Laguna, em 2003).

Os rendimentos declarados mostravam uma outra realidade: até aí, o maior montante apresentado ao Fisco tinha sido exatamente em 2007. Foi de 14 mil euros (em 2003 a sua declaração de rendimentos dava conta de que só tinha ganho cinco mil euros no ano).

Os documentos que então o Correio da Manhã consultou davam conta de uma disparidade difícil de explicar. A última declaração informava que Fernando Madureira ganhava pouco mais de 16 mil euros num ano. A entidade patronal foi a Cozinha de Ouro – atividades hoteleiras, havendo ainda referência a outro montante de uma segunda entidade patronal – Paulo Guedes e Fernando Lda., uma empresa com sede no Porto. No entanto, esta apenas pagou 2700 euros a Fernando Madureira pelos serviços prestados durante 12 meses (no ano de 2007).

Os registos de património deste elemento dos Super Dragões mostram também outras disparidades. Em 2003, quando declarava ganhar anualmente, montantes em bruto, apenas cinco mil euros (por mês recebeu cerca de 400 euros, quantia essa que era ainda sujeita a descontos), Madureira comprava a primeira casa.

Foi uma moradia em Mafamude, Vila Nova de Gaia, adquirida por 101 mil euros. O imóvel foi avaliado, na declaração de Finanças, no início do ano passado, em 175 mil euros.

A casa foi entretanto vendida e Fernando Madureira mora ainda agora noutra moradia, na rua de Salgueiros, em Canidelo, também em Vila Nova de Gaia.

Cresceu na Ribeira

Madureira cresceu na Ribeira. Foi aí que conheceu Bruno Pidá, que fez a segurança a Pinto da Costa, quando o presidente dos azuis-e-brancos entrou no Tribunal de Gondomar, para ser ouvido no processo Apito Dourado.

No vídeo, cujo registo ainda existe no YouTube, e que se chama ‘Bandidos do Porto’, é possível ver Pidá (antes de ser preso) ao volante do carro de luxo de Madureira.

‘Macaco’ sempre esteve ligado ao futebol. Em miúdo, jogava à bola no Ribeirense e aos 14 anos passou para a claque. Foi também aí que conheceu a mulher, Sandra, de quem tem duas filhas menores.

A pergunta de onde vem o dinheiro nunca foi respondida. No último processo-crime em que esteve envolvido - em 2015, nas agressões que envolveram a claque de ‘casuals’, do Sporting, e os Super Dragões, no Estádio do Futebol Clube do Porto - Madureira declarou que ganhava o salário mínimo. Não há notícia de qualquer investigação das Finanças, que pode ser feita oficiosamente, nem Madureira nunca desmentiu as notícias que davam conta de que pagava tudo a pronto.

A fortuna, garantem os mais próximos, vem com o merchandising, com os bilhetes, com as viagens e com a visibilidade que tem ganho nos últimos anos.

Madureira tem vindo a tentar mudar a imagem de violência que lhe estava colada à pele. Este ano deu conta, na sua página pessoal do Facebook, que deviam chamá-lo de ‘mestre’. Concluiu o mestrado, com 17 valores, numa universidade privada do Porto.

Escutas sempre ambíguas salvam chefe da claque

Fernando Madureira tem estado envolvido em diversos processos-crimes, nos últimos anos. A última vez foi no caso que tem como principal réu ‘Vítor do Ouro’, tido como um dos maiores traficantes de droga do Porto. A investigação da Polícia Judiciária detetou ligações entre o alegado cabecilha, Vítor Cardoso, também conhecido como ‘Vítor do Ouro’, e o chefe da claque Super Dragões, Fernando Madureira. ‘Macaco’ falava sobre "bilhetes", o que foi considerado suspeito pela PJ, que admitia tratar-se de droga.

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'Macaco' é alvo de processos mas escapa a acusações

A investigação acabou por ficar num beco sem saída e Fernando Madureira nem sequer foi constituido arguido.

Já o ano passado, em 2015, ‘Macaco’ safou-se por muito pouco. Era acusado de envolvimento numa rixa que fazia sentar no banco dos réus elementos da claque ‘casuals’, afeta ao Sporting. O Tribunal de Instrução Criminal do Porto decidiu não levar a julgamento 85 dos 87 adeptos acusados de terem participado numa rixa, antes do FC Porto-Sporting de 2013/14.

Os adeptos, entre eles Fernando Madureira, comprometeram-se a pagar 250 euros, num prazo de cinco meses, com a verba a ser canalizada para instituições de solidariedade social. A alternativa passava por 80 horas de trabalho comunitário.

Outros casos envolvendo ‘Macaco’: são muitas as situações de agressão que têm sido imputadas ao Canelas Futebol Clube, no qual Madureira é o capitão. Há também diversos membros da claque que jogam pela equipa que é campeã em conseguir a falta de comparência dos adversários. Não há notícia também da situação ter sido travada.

Se recuarmos no tempo, chegamos ao Apito Dourado e a agressão a Ricardo Bexiga, vereador da oposição de Valentim Loureiro em Gondomar. Carolina Salgado disse que o ataque ao dirigente político foi encomendado por Pinto da Costa a Madureira. Não havia mais provas - além da sua palavra - e o caso foi arquivado.

"Nunca fiz acompanhamento pessoal a Pinto da Costa"

"Nunca, em momento algum, fiz acompanhamento de segurança pessoal ao presidente". A garantia foi deixada ontem, no julgamento, em Guimarães, por Eduardo Silva. O dono da SPDE referiu que sempre fez "proteção ao serviço do contrato com o FC Porto", garantido a segurança a toda a comitiva portista, como nas deslocações para os jogos em Lisboa. "Tudo o que era pedido de segurança era feito pela empresa Porto Estádio", revelou.

Ouvido durante todo o dia de ontem, ‘Edu’ negou que Antero Henrique, ex-administrador da SAD, lhe dava ordens a mando de Pinto da Costa. O depoimento é favorável à defesa dos dois elementos do FC Porto. "A realidade que foi transmitida à defesa é que os interlocutores não eram nem Pinto da Costa nem Antero Henrique", disse o advogado Gil Moreira dos Santos.

Eduardo Silva admitiu ter levado a então mulher do presidente dos dragões, Fernanda Miranda, ao Estádio do Bessa, mas diz que só garantiu o transporte. Não se tratava de segurança pessoal.

Quanto à presença de vários elementos ligados à SPDE destacados para evitar incidentes numa visita de Jorge Nuno Pinto da Costa e familiares a uma casa da família, na rua de Cedofeita, Porto, assaltada no dia anterior, referiu que foram lá "algumas pessoas que ajudaram a transportar móveis e outras coisas para o carro".

Havia vigilância 24 horas junto à habitação e elementos destacados para esse serviço, mas se havia ou não contrato para tal serviço, desconhece.

Eduardo Silva prestou declarações sempre de pé.

Falou de vários arguidos, relacionados com a SPDE, como amigos, rejeitando a acusação de associação criminosa. Por exemplo, sobre Alberto Couto - antigo agente da PSP conhecido como ‘Joca’ - "amigo de infância". O pedido de segurança pessoal ao jogador Hulk, registado em escutas telefónicas - com o qual ‘Edu’ tinha "uma amizade anterior à chegada dele ao futebol" -, era apenas "logística" para garantir "o que era necessário para ele estar à vontade" num estabelecimento que tinha vigilantes.

Ironizou ao dizer que, de acordo com a acusação, fazia o serviço para o qual a empresa não tinha alvará a todos os conhecidos. "Só não faço segurança pessoal à minha esposa".

Dono da SPDE tinha sempre cinco mil euros na carteira 

‘Edu’ guardava em casa uma arma, para a qual não tinha licença, "desde uma tentativa de homicídio em 2010", admitiu. "Foi dada", garantiu. Nas buscas, foi-lhe também apreendido dinheiro. "Eu andava sempre com cinco mil euros na carteira", assegurou ao tribunal.

Sobre o uso de elementos ligados à SPDE para ‘cobranças difíceis’ a devedores, negou qualquer envolvimento.

"A empresa não tem nada a ver com isso", indicou ao juiz- -presidente do coletivo, acrescentando que violência e intimidação nunca foram utilizadas, "de maneira alguma".

Quanto à alegada perseguição a Natalino Correia - envolvido no caso Noite Branca -, ‘Edu’ garantiu que o objetivo não era procurá-lo. "Causa muitos problemas no Porto e não entra nas casas [que têm segurança ou vigilância] da SPDE. É sinónimo de problemas graves", afirmou. Pretendia-se evitar que entrasse em estabelecimentos vigiados pela SPDE.

Presidente portista nas mãos da ex-mulher

Nove anos depois de Carolina Salgado testemunhar no caso Apito Dourado, Pinto da Costa volta a estar nas mãos de uma ex-mulher. Desta vez trata-se de Fernanda Miranda, de quem o dirigente se separou recentemente. A jovem foi arrolada como testemunha do Ministério Público no processo Fénix e as suas declarações podem ser essenciais para fundamentar a condenação ou absolvição de Pinto da Costa.

A audição de Fernanda deverá acontecer muito em breve, segundo a ordem da audição de testemunhas sugerida pelo Ministério Público de Guimarães. A jovem será confrontada com as vigilâncias da PSP, que mostram os seguranças da SPDE a prestar serviços de "guarda-costas".

Fernanda Miranda terá de explicar aos juízes pelo menos três situações em que terá usufruído dos serviços de proteção pessoal. Trata-se de um jogo entre o Sporting e o FC Porto, em setembro de 2014, de uma deslocação de carro da sua casa para o Estádio do Bessa e ainda de uma outra situação onde a ex-mulher de Pinto da Costa e familiares foram protegidos após um assalto a uma casa que pertencia à mãe do dirigente.

Pinto da Costa e Eduardo Silva já negaram a prestação de serviços de segurança pessoal. Resta agora saber se Fernanda Miranda irá apresentar a mesma versão, ou se vai confirmar a tese do Ministério Público.

Esta última atitude foi tomada por Carolina Salgado, em março de 2008. No Tribunal de Gondomar acusou o ex-companheiro de interceder junto de Pinto de Sousa, ex-presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, para favorecer o Gondomar. Alegou que o dirigente portista queria ajudar Valentim Loureiro. Carolina afirmou ainda que chegaram todos a estar juntos em diversos jantares.

"Remeti de imediato ao Ministério Público"

A Ministra da Administração Interna disse ontem, ao CM, ter já recebido a carta que lhe foi enviada pela direção do CM/CMTV – também remetida ao primeiro-ministro, António Costa, e à Procuradoria-Geral da República - dando conta dos crimes ocorridos em Guimarães. Sem entrar em pormenores quanto ao que está a ser feito por parte das autoridades na busca da identificação e localização dos suspeitos, Constança Urbano de Sousa afirmou que o caso já está a ser investigado pelas autoridades competentes.

"Tive conhecimento da carta e fiz o que sempre fiz quando tenho conhecimento de algo que possa constituir um ilícito criminal, que foi remeter para quem de direito", revelou a ministra, durante a entrega de 34 novas viaturas à PSP. "Perante tais evidências [a coação, as agressões e o furto de equipamento], além das queixas que os lesados possam vir a fazer, e tendo eu tido conhecimento disso, remeti de imediato para o Ministério Público, como é meu dever fazer. É ele quem tem a investigação", disse.

Confrontada com o sentimento de impunidade mostrado pelos protagonistas do clima de coação sobre os jornalistas – que nas redes sociais exibem o microfone da CMTV, furtado à porta do quartel dos bombeiros em Guimarães, onde decorre o julgamento do processo Fénix - Constança Urbano de Sousa responde: "Vivemos num Estado de direito. Existem autoridades competentes para a investigação, que são independentes", nomeadamente "o Ministério Público e os tribunais". "Eles devem fazer qualquer coisa", rematou.

Foi também pedido um comentário sobre o que aconteceu ao diretor nacional da PSP, mas o superintendente-chefe Luís Farinha escusou-se a responder, justificando-se com o facto de a ministra da Administração Interna já se ter pronunciado sobre o assunto.

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