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Correio da Manhã

Portugal

Advogado trafica mulheres para sexo

Escravizavam famílias romenas e obrigavam mulheres a prostituir-se, em Lisboa.
Tânia Laranjo 4 de Dezembro de 2017 às 01:30
Prostituição
Tribunal de Monsanto
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Prostituição
Tribunal de Monsanto
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Tribunal de Monsanto
Tribunal de Monsanto
Uma rede de 26 arguidos começa amanhã a ser julgada, no Tribunal de Monsanto, em Lisboa, acusada de 940 crimes de tráfico de pessoas e associação criminosa. A maioria dos suspeitos está em prisão preventiva ou prisão domiciliária - entre eles um advogado de Cinfães que se encontra em casa com pulseira eletrónica.

A rede é composta ainda por indivíduos búlgaros e romenos que se dedicavam a explorar cidadãos de Leste. A maioria das vítimas é de nacionalidade romena e vinha para Portugal à procura de melhores condições de vida. As mulheres eram obrigadas a prostituir-se, as famílias eram escravizadas em explorações agrícolas, essencialmente do Alentejo e da zona Centro. Tinham ainda de pagar comissões aos ‘exploradores’, sob pena de serem espancados. Houve um trabalhador sujeito a condições precárias que foi encontrado morto com sinais de espancamento. Porém, o crime nunca foi esclarecido.

A rede começou a ser desmantelada no final de 2015. O advogado era quem criava as empresas fictícias para legalizar os trabalhadores. Recebia elevadas comissões para o fazer.

As mulheres que eram obrigadas a prostituir-se viviam num clima de terror. Os documentos eram-lhes tirados e a rede procedia ao seu transporte entre o ‘local de trabalho’ e a casa que previamente alugavam. Tinham de entregar quase tudo o que ganhavam. Os suspeitos passavam durante o dia nos ‘locais de trabalho’ para garantir que estavam a prostituir-se.

O grupo também mudava o arrendamento das casas, para que não permanecessem muito tempo no mesmo local. Casas cujas rendas depois não pagavam, deixando muitas delas completamente destruídas.

Operação da Polícia Judiciária 
A operação que levou ao desmantelamento da rede aconteceu em março do ano passado. Foi levada a cabo pela Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo, da Polícia Judiciária. Vários elementos da PJ são agora chamados a testemunhar em julgamento, num processo no qual os suspeitos estiveram meses sob escuta.

Advogado foi cobrar as ‘dívidas’ às herdades  
Já depois do grupo ter sido preso, o advogado Hugo Machado continuou a atuar. Diz a acusação do Ministério Público que o causídico foi às herdades onde os cidadãos romenos trabalhavam, para cobrar as dívidas. Recebeu cerca de 13 mil euros e obrigou depois os trabalhadores a assinarem procurações que atestavam que o dinheiro era dele. Os romenos, que não falavam português, nem sequer sabiam o que tinham assinado.

Família liderou negócio durante 4 anos 
A família Bambaloi terá dominado o negócio do tráfico humano, entre 2011 e 2015. Com a ajuda do advogado, criavam empresas que contratualizavam o trabalho com os donos das explorações agrícolas. Era a eles que os empresários pagavam, sendo que a família ficava depois com a maior fatia de dinheiro. As famílias romenas viviam apenas com o mínimo para sobreviverem e as crianças do agregado familiar eram ameaçadas para que os adultos não denunciassem a rede criminosa.

Segurança máxima para julgamento em Monsanto
Um forte dispositivo policial será destacado para o Tribunal de Monsanto para o início do julgamento desta verdadeira rede mafiosa. O início do processo está marcado para amanhã de manhã, devendo o primeiro dia ser dedicado à leitura da acusação e à identificação dos 26 arguidos. As primeiras testemunhas são os elementos da Polícia Judiciária, seguindo- -se diversas vítimas. Houve várias que, no entanto, já foram ouvidas para memória futura, não sendo por isso interrogadas durante o julgamento. Deverão nesse caso ser lidas as declarações prestadas, já que as testemunhas regressaram entretanto aos seus países de origem.

Entre as descrições feitas na acusação há verdadeiras histórias de terror. Crianças de quatro e cinco anos ameaçadas com pistolas à cabeça, para que os pais pagassem as ‘comissões’.

O grupo foi desmantelado em duas fases: os primeiros foram presos no final de 2015, mas os que ficaram em liberdade continuaram na mesma atividade. Poucos meses depois, em abril, foram detidos. Foi nessa altura que o advogado foi preso.
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