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Allan e Paulo eram sócios

O tio de Allan Guedes Sharif, de 27 anos, esforça-se por afastar as ligações cada vez mais óbvias entre o seu sobrinho e Paulo Almeida, de 45 anos, o português preso em Miami (EUA) acusado de tentativa de assalto a um banco, seguindo instruções dadas a partir de Portugal por telemóvel pelo luso-americano, suspeito de ser o mentor do golpe fracassado.

07 de abril de 2007 às 00:00

José Guedes, um conhecido empreiteiro de Torre de Tavares, no concelho de Mangualde, que criou o sobrinho até aos 12 anos e a quem deu guarida de novo há três anos – quando Allan Sharif era procurado nos Estados Unidos pela prática de crimes de roubo e fraude –, admite que os dois suspeitos se conheciam, mas recusa que o sobrinho seja o mentor do assalto.

“Não acredito que o Paulo Almeida o denunciasse. Isso é falso”, diz o empreiteiro, embora reconheça que o ex-dono do matadouro de Casal Vasco, no concelho de Fornos de Algodres, “não se metia nisto sozinho”. “É um vigarista, que não paga a quem deve e que alguém quis tramar”, considera José Guedes.

Neste ponto, o tio de Allan Sharif partilha da mesma opinião de outros informadores: alguém quis desfazer-se de Paulo Almeida. Segundo José Guedes, o golpe foi montado para que o português fosse preso e ficasse impedido de participar nos processos em que está envolvido em Portugal, entre eles o relativo ao matadouro, que implicará também uma agência bancária de Viseu.

Mas, para as autoridades policiais portuguesas, Allan Sharif e Paulo Almeida tinham negócios comuns no mundo do crime. E por isso estavam a ser seguidos atentamente pela GNR de Mangualde e Fornos de Algodres, e a própria PJ conhece pelo menos o luso-americano desde o início de 2005.

Nos últimos tempos, os alegados negócios ilícitos dos suspeitos – que estarão relacionados com fraude e contrafacção de automóveis – ‘azedaram’ e a relação entre os dois ‘sócios’ não seria a melhor. Neste contexto, Allan Sharif terá decidido que o melhor seria preparar uma ‘armadilha’ a Paulo Almeida. A razão, segundo um informador policial, é simples: “Se ficasse preso nos EUA, não vinha para cá chateá-lo mais!”

José Guedes, que chegou a dar emprego aos dois homens, mantém a defesa da inocência do sobrinho, que é uma pessoa “de trabalho e rigor”. Paulo Almeida é que tinha muitos problemas: “Um dia chegou-me aqui a chorar porque não tinha dinheiro para pagar ao advogado João Nabais. Nessa altura, até fiquei com uma procuração para o representar junto do advogado. Noutra altura, fui eu quem lhe emprestou 3500 euros para pagar o colégio dos filhos que estavam em Coimbra. Nunca me pagou essas dívidas”, exemplificou o empreiteiro de Mangualde.

DETIDO 'ANDOU AOS PAPÉIS'

A defesa de Paulo Almeida, a cargo do advogado Frank A. Rubino – o mesmo que defendeu Manuel Noriega, ex-presidente do Panamá – vai tentar provar que o português foi enganado pelo seu amigo Allan Sharif, o alegado autor das chamadas telefónicas internacionais para a delegação de Miami do Commercial Bank of Florida. A defesa alega que o português, que estava a passar uma semana de férias e não fala inglês, nunca soube que iria ser protagonista de um assalto e apenas foi ao banco para recolher uns documentos, a pedido do luso-americano. “Por isso, quando lhe disseram para se sentar, ficou no banco à espera que lhe dessem um envelope com documentos”, defende Frank A. Rubino. Paulo Almeida desconheceria, assim, o conteúdo ameaçador da dezena de chamadas telefónicas feitas para o banco.

ALÔ, ISTO É UM ASSALTO

Um telefonema, que tudo indica foi feito por Allan Sharif na terça-feira, dia 27 de Março, a partir de Mangualde, para o Commercial Bank of Florida, desencadeou este insólito caso. O homem informou a funcionária Linda que precisava de fazer uma transacção de 15 mil euros. Como foi informado que teria de ser pessoalmente, disse à empregada que passada meia hora estaria na agência de Miami. Mas, quem apareceu foi Paulo Almeida, com uma pasta preta e dois telemóveis. Tentou falar com Linda, mas como não sabe inglês, o diálogo foi difícil. Passados alguns minutos, o luso-americano ligou para o telefone fixo do banco e falou com a funcionária. Enquanto proferia impropérios, disse à mulher que se tratava de um assalto e que desse o dinheiro ao cúmplice, pois caso contrário matava-a. Paulo Almeida esperava sentado pelo desfecho do telefonema, aguardando uns documentos, diz a sua defesa. Na rua, 70 polícias cercaram a zona e evacuaram prédios. Paulo Almeida foi preso passadas seis horas.

DIAS AGITADOS

Paulo Almeida chegou a Miami a 26 de Março e no dia seguinte envolveu-se na tentativa de assalto à agência bancária de Miami. Foi detido ao fim de seis horas. Pode ser condenado a uma pena de prisão entre dez e 15 anos.

TINHA DINHEIRO

O ex-dono do matadouro em Casal Vasco, no concelho de Fornos de Algodres, tinha em sua posse 4800 dólares. Estaria preparado para fazer uma semana de férias em Miami Beach, apesar da família passar dificuldades económicas.

EM FUGA

Allan Sharif continua em fuga às autoridades policiais. Apenas não foi extraditado para os EUA (onde nasceu) para ser julgado, porque tem nacionalidade portuguesa. Aliás, terá conseguido mesmo uma nova identidade, espondendo agora pelo nome de João Paulo Guedes.

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