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Correio da Manhã

Portugal
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GOE recebe sangue novo

Filipe torce o nariz quando ouve a palavra “sacrifício”. Com o gorro preso na testa e a arma bem segura na mão, o melhor aluno do 11.º Curso de Operações Especiais diz que não se sente nada “especial”.
7 de Julho de 2005 às 00:00
No encerramento do 11.º Curso de Operações Especiais, os novos membros da elite da PSP receberam a visita do ministro António Costa
No encerramento do 11.º Curso de Operações Especiais, os novos membros da elite da PSP receberam a visita do ministro António Costa FOTO: António Cotrim
Mesmo depois de ter passado os últimos cinco meses no limite da resistência e de ter visto dezenas de outros candidatos ficarem para trás. Mas ontem, quando recebeu das mãos do ministro da Administração Interna a boina verde e as insígnias, sorriu e suspirou. Agora, tal como outros 17 homens, faz parte do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP, um ‘clube’ de elite tão restrito como eficaz.
Mas a vida vai ser tudo menos fácil. Disponibilidade permanente (mesmo nas folgas e nas férias), participação nas missões policiais mais perigosas (que implicam risco de vida ou ameaça à integridade física) e deslocações para algumas das zonas mais perigosas do planeta. “Isso do sacrifício não existe. Quem está aqui, está porque quer”, garante Filipe, 27 anos, o melhor do curso. “Não quer dizer nada. Alguém tinha de ser o primeiro. Mas somos todos iguais”, diz.
Ou quase. O 11.º curso começou em Fevereiro, com 60 aspirantes, um terço dos que se candidataram ao GOE. E nas vinte semanas seguintes, o número desceu à medida que aumentou a exigência da formação.
No fim, apenas a experiência distingue os novos dos ‘velhos’ elementos do GOE. Mas por pouco tempo. Nos primeiros três meses deste ano, esta unidade de elite da PSP participou em 20 acções de busca domiciliária de alto risco, sempre como apoio à investigação criminal. No ano passado, foram 40 as missões deste tipo, o que demonstra o envolvimento cada vez mais frequente desta unidade de reserva no serviço policial normal. E, nos últimos meses, o GOE participou na resolução de pelo menos dois sequestros em Lisboa.
Mas está mais longe, num país marcado pela guerra, a ‘menina dos olhos’ do GOE. No bairro de Al-Mansour, a zona das embaixadas de Bagdad, uma mesquita em construção separa os dois edifícios da representação diplomática portuguesa no Iraque. Catorze homens do GOE garantem – a pedido do Ministério dos Negócios Estrangeiros – a segurança das instalações e deslocações do pessoal diplomático.
Um tipo de trabalho que, segundo o comandante da unidade, sub-inetendente Magina da Silva, poderá em breve ser feito noutros dois países. “Estamos a preparar e a estudar missões semelhantes para a República Democrática do Congo e para a Arábia Saudita”, revelou. No caso do Congo, a braços com mais uma crise política, será um regresso do GOE, que ali esteve em 1991 e em 2003.
MISSÕES DA UNIDADE
DUZENTOS ELEMENTOS
Apesar de o quadro de pessoal prever a existência de 281 elementos afectos ao Grupo de Operações Especiais, esta unidade de reserva do director nacional da PSP conta com apenas cerca de duas centenas de efectivos, entre pessoal operacional e de apoio. “Um número suficiente e que garante a máxima operacionalidade”, garantiu Magina da Silva.
POR TODO O MUNDO
Em Portugal, o GOE tem competência específica para actuar em incidentes táctico-policiais, mas a sua marca está por todo o mundo. Em missão, O GOE já esteve na República Democrática do Congo, em Angola, na Croácia, na Bósnia, em Macau e na Argélia. Neste momento, há oito elementos destacados em Bissau e catorze em Badgad, capital do Iraque.
CURSO NÃO É PARA QUALQUER UM
“Se não houvesse candidatos à altura”, garante o subintendente Magina da Silva, “o curso seria interrompido sem qualquer problema”. O comandante do GOE admite que nunca aconteceu, mas lembra que já houve cursos a terminar com apenas seis homens. A formação dura cinco meses, sempre à procura de encontrar em cada operacional um equilíbrio entre força e resistência. Há provas físicas, entrevistas, mais provas físicas, formação de tiro e de intervenção táctica e ainda provas físicas. Uma rotina que não desaparece com o final do curso, já que todos os elementos fazem testes anuais.
VÍDEO PREPARA DEMONSTRAÇÃO
OGrupo de Operações Especiais (GOE) da PSP exibiu ontem um vídeo inédito com imagens de operações reais. Portas destruídas com explosivos, muros escalados e suspeitos imobilizados no interior de residências ocuparam quase uma dezena de minutos pouco habituais, dado o secretismo e reserva com que costuma actuar o GOE – avesso à exposição nos meios de Comunicação Social. No entanto, com o final do 11.º Curso de Operações Especiais foi levantada parte do véu e o ministro da Administração Interna, AntónioCosta, teve oportunidade de assistir a algumas demonstrações: além de uma acção com atiradores especiais, o GOE realizou intervenções tácticas num autocarro e num edifício e executou o derradeiro recurso num sequestro: imobilização dos suspeitos.
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