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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Maria foi atingida quando tinha cinco anos e vive desde então com uma bala alojada no peito. Veja agora na CMTV

Incidente ocorreu no extinto bairro da Pedreira dos Húngaros, em Algés, quando um polícia à paisana perseguia dois traficantes. Maria foi usada como escudo e foi atingida por uma bala perdida.

15 de junho de 2026 às 21:27

Maria Mendes, conhecida como a "pequena Manu de Regina", foi atingida por um disparo quando tinha apenas cinco anos de idade e vive desde então com uma bala alojada no peito. O incidente ocorreu no extinto bairro da Pedreira dos Húngaros, em Algés, quando um polícia à paisana perseguia dois traficantes. Durante a operação, Maria serviu de escudo a um dos suspeitos e foi atingida por uma bala perdida. Aos 44 anos, Maria vive com limitações que condicionam o quotidiano. 

"Vi a tristeza no semblante dela", relata Maria ao Investigação CM, ao recordar as palavras da mãe quando lhe contou que queria dar a cara para falar da sua história.   

"Recordo-me de estar a brincar na rua principal e era um dia normal como outro", recorda Maria ao relatar o dia em que foi atingida a tiro. "De repente começam a disparar e um dos bandidos que estava a sair do táxi usou-me como escudo", diz. "Não senti, não sabia que me tinha atingido. Quando meto a mão ao peito senti o sangue", recorda. O agente que atingiu Maria levou-a para o hospital, onde permaneceu internada durante três meses. 

Quatro décadas depois, Maria pede uma intervenção urgente para localizar o processo judicial relacionado com o caso, que, segundo ela, parece ter desaparecido. "Nunca me explicaram onde estava o processo", diz. 

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Maria foi atingida quando tinha apenas cinco anos e vive desde então com uma bala alojada no peito

Durante mais de 20 anos, a Pedreira dos Húngaros acolheu milhares de pessoas, maioritariamente cabo-verdianos que chegaram a Portugal após a descolonização. O bairro onde se deu o tiroteio em que Maria foi atingida era conhecido como o maior bairro de lata da grande Lisboa. Hoje já não existe, mas a memória do que lá aconteceu continua presente entre quem lá viveu. 

"Ele [o polícia] ia disparar e o tiro apanhou-a", recorda Perpétua, uma das vizinhas de Maria. "Tentei segurar nela e pedi ajuda porque a vi cheia de sangue. Toda a gente ficou traumatizada", relata. Ao longo dos anos, Perpétua passou a acompanhar Maria. "Nunca tinha visto uma guerreira como a Manu", confessa. 

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"Toda a gente ficou traumatizada": Moradora relata momento em que viu Maria ser atingida a tiro durante operação policial

Desde o dia em que foi baleada, Maria diz que a família fortaleceu a ligação à fé. Vive em Fátima há 10 anos e é no Santuário de Fátima que passa grande parte dos dias. "A minha mãe é uma mulher muito crente", diz ao Investigação CM. "Desde que levei o tiro, a minha mãe vive pela fé". 

"Vim para Fátima porque desde sempre que a minha mãe e padrasto me traziam aqui", diz. "Eles acreditavam que eu ia viver e a fé deles trouxe-me onde estou hoje". 

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Desde o dia em que foi baleada, Maria fortaleceu a ligação à fé e vive agora em Fátima

Por muito pouco Maria não ficou tetraplégica. Os médicos decidiram não retirar o projétil devido aos riscos elevados. Era uma criança muito magra, o que tornava ainda mais delicada uma intervenção cirúrgica. "O trajeto está muito perto da chamada medula espinal, se houvesse uma perfuração ela [Maria] teria ficado sem andar", explica António Hipólito, médico de medicina geral. 

São as dores que agora fazem Maria recordar o caso, querendo soluções para acabar com o sofrimento. "As articulações e estrutura óssea vão perdendo densidade", explica o médico de medicina geral em entrevista ao Investigação CM. "Pode haver uma interferência da bala com a condução nervosa e estar a afetar a pessoa", diz. 

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Médicos optaram por não remover bala devido a riscos elevados mas hoje em dia Maria vive com limitações

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