Arguidos respondem por crimes de abuso de autoridade por ofensas à integridade física na Base Aérea de Monte Real, em Leiria.
“Passados três ou quatro dias, arrependi-me de estar ali”, diz soldado vítima de praxe na Força Aérea
Na quinta sessão do julgamento dos 10 militares acusados de praticar praxes violentas contra dois jovens soldados, na Base Aérea de Monte Real, em Leiria, continuou a ser ouvida uma das vítimas. Ao tribunal de São João Novo, no Porto, indicou que desejava sair da Força Aérea após a recruta. “Não saía porque não tinha dinheiro para pagar a indemnização [entre 15 e 20 mil euros]. Mas eu queria sair por causa da violência da praxe. Da fadiga, do ficar a chorar. Passados três ou quatro dias já queria sair. Arrependi-me logo de estar ali, sim senhora”, disse ao coletivo de juizes.
“Não tinha capacidade mental para trabalhar ali. O meu maior choque foi ouvir uma G3 a disparar. A violência mexe comigo. Eu sabia que aquilo não era a escola. É uma questão de hábito. Tinha medo da arma, ao início. Se me derem uma arma para a mão agora eu não aceito”, explicou ainda. A juíza Isabel Teixeira ripostou logo desse comentário: “Se a violência mexe consigo vai-se meter na Força Aérea? É um lugar que exige resistência emocional. Ninguém segue carreira militar se não tiver preparado emocionalmente”, disse-lhe.
Houve um período que o soldado, que é assistente no processo, voltou para casa da mãe, de baixa médica, antes do final do contrato de três anos. “Primeiro por causa de um pé aleijado. Depois como faziam chamadas anónimas para a minha mãe a dizer que eu tinha de voltar, a pressionar, eu tive um esgotamento”, referiu.
Desde que entrou na base, em maio de 2018, e até sair, a 4 julho de 2019, o soldado diz que foi “duas ou três vezes a casa da mãe”. Um dos advogados diz que deu a ideia de viver em “clausura, aprisionado, sequestrado, um terror absoluto”, mas que ia com frequência a casa da namorada, o que o soldado confirmou.
Os arguidos respondem por crimes de abuso de autoridade por ofensas à integridade física. O terror para um dos soldados só terminou quando tentou o suicídio. “Idealizei várias vezes esse cenário dentro da base”, revelou.
Garante que se tentou suicidar com sertralina, um antidepressivo. Ficou uma noite no hospital. Um advogado diz que o exame que lhe fizeram ao sangue não apresentava “sertralina nenhuma”.
“Aliás quando teve alta foi sertralina que lhe receitaram. Então tenta-se matar com sertarlina e é sertralina que depois lhe passam para melhorar?”, perguntou ao soldado, que não soube esclarecer.
Em tribunal voltou a recordar o episódio em que esteve na porta de armas com uma corrente ao pescoço, simulando ser um cão. “Eu não me estava a divertir. Quando passou o superior hierárquico estava em pé, mas depois tinha de ficar de gatas. Eu estava mal”, contou.
Na sessão foi ainda discutida a presença do soldado em festas, poucos dias após ter tentado o suicídio. Numa delas até vestiu os trajes militares. “Tanto medo, tanta vontade de sair e foi vestir as roupas de um sítio que tanto medo lhe causava?”, desabafou a juíza.
O soldado indicou em audiência que decidiu seguir a carreira militar por não conseguir concluir o ensino secundário. “Sabia que aquilo ia ser a tropa. Aquilo foi uma solução que encontrei para não ter de emigrar. Com o 9º ano, a única solução que encontrei foi ir para a Força Aérea”.
Superior hierárquico testemunhou em tribunal
Em tribunal foi ainda ouvido Mário Jorge Cartaxo, a exercer funções no Campo de Tiro de Alcochete, mas que trabalhou na base aérea Nº5 até ao final de 2018. Assistiu à situação em que um dos soldados deu entrada de uma viatura na porta de armas com uma corrente ao pescoço. “O soldado tinha a corrente de fechar o portão das viaturas pesadas pousada no pescoço. É uma corrente com um máximo de um metro. Ele estava completamente normal. Não demonstrava nenhum constrangimento. Parei o carro depois e dirigi-me aos dois, pois ele estava acompanhado pelo soldado Alves [arguido] repreendendo o facto de me terem feito a abordagem assim. Achei que ele estava a brincar com a corrente e que se tinha esquecido de a retirar. Achei mesmo que fosse uma distração do soldado”, afirmou. “Disse-lhes que esta situação não se poderia voltar a repetir. Não achei que tivesse sido o soldado Alves a pedir-lhe para colocar a corrente ao pescoço”, disse ainda.
A testemunha disse ainda que os dois soldados, vítimas no processo, “tiveram adaptação difícil, tinham dificuldades de aprendizagem”.
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