Ex-primeiro-ministro leva advogado para julgamento em que exige indemnização ao Estado por demora na acusação.
José Sócrates voltou ao tribunal, mas agora no papel de vítima devido a uma ação administrativa contra o Estado português. Exige um mínimo de 205 mil euros pelos montantes que deixou de ganhar entre o momento em que foi detido, em 2013, e o momento da acusação, quatro anos depois. Alega o antigo primeiro-ministro - o mesmo que interpôs 106 recursos e incidentes processuais só até ao início do julgamento - que o limite eram dois anos e que essa demora, bem como as fugas de informação para a comunicação social, lhe "causaram enorme sofrimento". E aproveitou o palco para disparar contra tudo e contra todos. Começou pelo bastonário da Ordem dos Advogados ainda antes da sessão de julgamento, passou pelo procurador Rosário Teixeira, deixou recados ao juiz Ivo Rosa e terminou no inspetor da Autoridade Tributária Paulo Silva.
"Foi para mim uma descoberta da face oculta do autoritarismo nacional, não sabia que entregávamos ao procurador e ao juiz a liberdade de fazerem o que fizeram. Atuaram de forma consciente para prolongar o processo para haver uma percepção publica de culpabilidade, o procurador e o juiz de instrução", acusou num regresso à pose de "animal feroz", tal como sustentou a companheira Lígia.
Desta vez Sócrates esteve na sala de audiências e até levou advogado - Filipe Baptista, o mesmo que para o processo judicial impôs à juíza a garantia de um prazo para consultar o processo ainda antes de entregar a procuração e acabou por não o fazer, levando a nova suspensão do julgamento. Afinal conhece bem o processo, liderou a inquirição às testemunhas e rebateu tudo o que era desfavorável a Sócrates.
O estranho caso do extrato que foi ter a Santos Silva
O inspetor Paulo Silva, que liderou a equipa da Autoridade Tributária que apoiou o Ministério Público na investigação na Operação Marquês, relatou um pormenor do processo que demonstra como até os bancos tiveram fugas de informação até foram benéficas para os suspeitos. "Houve situações até caricatas, em que nós percebemos que um dos arguidos, o engenheiro Carlos Santos Silva [acusado de ser um dos testas de ferro de José Sócrates], recebeu em casa um conjunto de extratos bancários que o banco se enganou e, em vez de serem enviados para o processo, foram parar à sua residência".
Conversas com jornalistas
O procurador Rosário Teixeira admitiu que, afinal, poderá ter falado com uma jornalista antes da detenção do antigo primeiro-ministro José Sócrates, em 2014, mas insistiu que não partilhou o que a investigação pretendia fazer. "Não houve nenhuma iniciativa nossa de falar com a senhora jornalista. Terá tentado confirmar a existência de um processo", disse o procurador que liderou a investigação.
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