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Correio da Manhã

Portugal
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Victor Gomes: "A principal missão da Força Portuguesa é sempre a proteção de civis"

Comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana falou em exclusivo ao CM.
Sérgio A. Vitorino 25 de Novembro de 2019 às 01:30
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Tenente-coronel Victor Gomes, comandante da 6.ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana
Mal a Força chegou à RCA, foi em logo pouco tempo empenhada numa projeção para Bocaranga, onde ficaram dez dias e cujo deslocamento demorou três dias. A reação a esse ‘choque’ foi positiva?
De facto, não é normal que uma força militar seja projetada para operações num tão curto espaço de tempo após a chegada ao Teatro de Operações, mas não se pode dizer que foi um choque. Este emprego num prazo tão curto deveu-se a uma situação que carecia de intervenção urgente. Sendo a força portuguesa reconhecida pelo seu profissionalismo, preparação e equipamento, o Comandante da MINUSCA determinou o nosso empenhamento nesta missão, com a finalidade de proteger a população contra a postura ofensiva de um dos grupos armados existentes na RCA.

Os três dias de deslocamento são normais para as distâncias praticadas em estradas com condições muito más, na sua maioria sem qualquer tipo de asfalto e muito deterioradas pela passagem de viaturas pesadas e pela época das chuvas. Apesar dos deslocamentos nestas condições serem muito desgastantes, tanto para os homens como para os veículos, conseguimos chegar à área de operações em condições de total operacionalidade.

Nessa primeira projeção, teve um duro combate com elementos do grupo 3R. Como lidou a Força com essa experiência? O ‘trabalho de casa’ (aprontamento) fez a diferença?
Qualquer experiência de combate é caracterizada pela sua grande intensidade e esta projeção não foi exceção, tendo-me permitido confirmar a excelente preparação dos militares sob o meu comando. A confiança que tenho nos meus homens e que eles têm nos seus comandantes, nos diferentes níveis, transformou um momento de grande complexidade e dificuldade, num exercício de capacidade e organização. O valor acrescentado da experiência destes soldados não é mensurável, mas esse efeito já se fez sentir durante todo o treino, tanto em Portugal como aqui, em várias situações. Esta experiência traduz-se numa maior eficiência da força e numa capacidade para atingir níveis de treino mais elevados e muito mais rapidamente. Tenho ainda a salientar, com muito gosto, que essa experiência vem acompanhada de muita humildade, prova de que todos compreendem a responsabilidade e importância das suas tarefas, preocupando-se sempre em aprender mais e ajudar os menos experientes a crescer, para que todo o grupo seja mais forte.

Esteve já uma segunda vez projetado por mais um mês em Bouar. Qual a vossa missão/objetivo? Houve objetivos diferentes nas duas projeções?
Com a totalidade da força na RCA apenas desde o dia 12 de setembro, é curioso ver que já contamos com mais dias em operações do que na nossa base principal.

A principal missão da Força Portuguesa é sempre a mesma, a proteção de civis. Neste caso, fomos projetados para garantir uma capacidade de resposta a qualquer situação que afetasse a segurança ou a liberdade da população local naquele setor do país. Além disso, foi ainda intenção pressionar o Grupo Armado 3R a cumprir com o acordo de paz, mostrando que a força militar da MINUSCA tinha a Força de Reação Rápida Portuguesa próxima e pronta a intervir.

Depois do sucesso da operação anterior, acreditamos que essa mensagem chegou perfeitamente ao terreno, sendo que não voltaram a existir confrontos. Na projeção anterior recebemos a missão específica de expulsar os membros do Grupo Armado de um determinado local, de acordo com o estabelecido no acordo de paz e enquadrado no mandato da MINUSCA. Neste local (Yade), o grupo armado tinha uma postura ofensiva contra a população, tinha montados postos para cobrar impostos ilegais aos cidadãos centro-africanos e hostilizava as populações, o que afetava significativamente a vida da comunidade local.

Nesta segunda projeção, não nos foi indicado nenhum local específico para desenvolver as operações de protecção à população civil, estando, por isso, prontos a intervir em todo o setor. Durante a projeção foram feitas diversas patrulhas para dar mais segurança à população, pela proximidade de uma força com capacidade e determinação para a defender. Em paralelo, realizámos várias atividades de treino, das quais destaco o tiro noturno.

O treino realizado pela nossa força, assim como o nível de equipamento que possuímos, dá-nos uma vantagem muito significativa relativamente aos grupos armados. A forma como a força portuguesa se apresenta, sempre pronta e capaz, produz um efeito dissuasor entre os grupos armados e um acréscimo de confiança entre a população.

Quais os principais desafios com que se têm deparado?
Os principais desafios são similares aos das anteriores Forças Nacionais Destacadas neste teatro de operações. São eles:

  • A volatilidade da situação, pelo elevado número de grupos armados antagonistas, envolvidos em conflitos permanentes pelo controlo de territórios e fontes de riqueza, como a exploração mineira ou a cobrança de impostos ilegais. Nesta instabilidade, a população é sempre a maior vítima. Para além disto, esta volatilidade torna cada operação mais perigosa e mais difícil de preparar, pois é muito complicado prever onde será a próxima intervenção. As condições do terreno são outro desafio para cada deslocamento, considerando que as estradas têm, na sua maioria, condições péssimas. As distâncias entre as localidades levam a que seja necessário conduzir 10 a 14 horas por dia.
  • As condições meteorológicas afiguram-se como mais um obstáculo. Uma vez que está a terminar a época das chuvas, a qualquer momento tudo pode ficar inundado, complicando não só a condução, mas toda a vivência no teatro de operações. Quando não chove, o calor e a humidade tornam todas as tarefas mais fatigantes.
  • Além dos efeitos nos homens, estas condições são exigentes igualmente para com os equipamentos, que ficam sujeitos a mais avarias e a exigirem mais manutenção. Para isto, é essencial o apoio logístico que recebemos de Portugal.

De entre as missões que já vos foram atribuídas, quais destaca e porquê?
Tenho de destacar a primeira operação, que caracteriza muito bem a capacidade e determinação do meu pessoal. Pouco mais de uma semana após chegarmos a África, estávamos a caminho de uma intervenção num local controlado por um grupo armado, claramente determinado a manter as suas posições. Com pouco tempo para planeamento e preparação, partimos confiantes e decididos, prontos para fazer o nosso trabalho na defesa deste povo e no cumprimento da missão. A forma como foi mantido e sangue frio, enquanto enfrentámos uma troca de tiros de elevada intensidade, revela a qualidade dos nossos militares e do seu treino.

Que balanço global faz da missão, até agora, da 6.ª FND?
O balanço até ao momento é muito positivo. Com competência e interajuda conseguimos ultrapassar todos os desafios com que nos deparámos até agora. As nossas operações atingiram ou superaram os objetivos estipulados pelo comando da MINUSCA.

A nossa participação nesta missão é fortemente elogiada pela MINUSCA, que destaca permanentemente o brio, competência, humanismo e coragem com que a cumprimos, assumindo um papel muito importante nesta missão, contribuindo para a paz, segurança e estabilidade da República Centro-Africana.

Creio que podemos estar orgulhosos, na mesma medida em que sabemos que o trabalho tem de continuar a ser realizado com a mesma dedicação e atenção.

Tem identificada alguma necessidade especial ou adicional para a Força?
Sim, claro, a falta do ar saudável de Portugal e o carinho das nossas famílias.

Como descreve a atual situação de segurança na RCA?
A situação atual continua instável e incerta. Existem vários grupos armados a explorar a população e as riquezas deste país, sem uma estrutura estatal que consiga controlar a situação e garantir a segurança da sua população de forma permanente.

Temos noção que uma situação tão complexa não se resolve de forma rápida e que a solução final não se consegue, apenas, pela força das armas. Porém, acreditamos que a nossa missão é essencial para o bem-estar e segurança da população, contribuindo para que a estrutura estatal de segurança e defesa continue o seu desenvolvimento passo a passo, para que a paz se torne permanente.

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