Centro de Cibersegurança nunca excluiu ciberataque no dia do apagão mas aponta falta de indícios

coordenador do CNCS explicou que prioridade foi cruzar informação com operadores, parceiros internacionais e indústria.

19 de março de 2026 às 15:41
Avenida da República 'às escuras' após apagão em Portugal Foto: António Pedro Santos/Lusa
Partilhar

O coordenador do CNCS garantiu esta quinta-feira que a entidade "nunca afirmou" que o apagão de 28 de abril não teve origem num ciberataque, recusando a existência de algum indício e defendendo contenção da desinformação durante a resposta inicial.

Na Comissão de Ambiente e Energia, na Assembleia da República, José Lino Alves dos Santos, frisou que a posição do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) assentou sempre na ausência de evidência e não numa exclusão categórica de cenários, afirmando que a entidade "nunca afirmou que não foi um ciberataque".

Pub

O responsável explicou que, perante um evento atípico e sem sinais claros nas primeiras horas, a prioridade foi cruzar informação com operadores, parceiros internacionais e indústria, não tendo sido identificados indícios técnicos, reivindicações ou atividade preparatória que apontassem para uma origem maliciosa.

"O principal foco foi perceber a origem do problema", disse, sublinhando que, apesar da pressão mediática e da circulação de rumores sobre um eventual ciberataque, "não existe qualquer indício" que sustente essa hipótese.

O coordenador do CNCS destacou a desinformação como uma das principais ameaças durante o incidente, referindo a circulação de uma alegada notícia falsa da CNN que atribuía o apagão a um ciberataque e que gerou "muita confusão" e contactos massivos junto do centro.

Pub

Desta forma, a resposta institucional passou por um duplo circuito de comunicação: primeiro junto das comunidades técnicas e operadores críticos e, só depois, para os media.

"Precisávamos de um grau de certeza forte para nos pronunciarmos", afirmou, admitindo implicitamente a tensão entre rapidez e rigor num contexto de crise.

José Lino Alves dos Santos detalhou ainda que o CNCS ativou mecanismos de cooperação internacional, incluindo redes europeias de resposta a incidentes, e manteve contactos diretos com congéneres de Espanha e França, sendo que nenhuma destas entidades reportou indícios de ataque coordenado.

Pub

Além disso, a análise de fontes abertas e canais usados habitualmente por grupos cibercriminosos não revelou sinais preparatórios ou reivindicações associadas ao incidente, reforçando a conclusão preliminar.

No dia seguinte ao apagão, o responsável revelou que ocorreram ataques de baixo impacto contra sites da Administração Pública e do Governo, reivindicados por um grupo ativista que procurou "tirar proveito do 'hype'".

Já ao nível estrutural, o coordenador admitiu dificuldades no cumprimento das obrigações de notificação, pois apenas "meia dúzia" de entidades reportaram incidentes no próprio dia, levando o CNCS a notificar posteriormente cerca de 395 organizações, com 174 a reconhecer ocorrências enquadráveis.

Pub

O episódio expôs, segundo o responsável, desafios persistentes na maturidade do sistema, num contexto em que o aumento da "densidade digital" amplia a superfície de ataque e dificulta a proteção uniforme.

Questionado sobre a política de divulgação, José Lino Alves dos Santos defendeu uma abordagem seletiva, baseada no princípio da "necessidade de conhecer", privilegiando comunicações direcionadas a entidades afetadas em detrimento de alertas generalizados.

"Há vulnerabilidades que não faz sentido divulgar publicamente se apenas duas ou três empresas são afetadas", exemplificou.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar