Depressão Kristin voltou a destruir cultura de framboesa biológica. Proprietário admite desisitir.
Uma produção de framboesas em Leiria, reconstruída após a tempestade Leslie, em 2018, foi de novo destruída com a depressão Kristin, há quase um mês, com o proprietário a reconhecer dificuldades em escolher entre desistir ou recomeçar.
"Se pudesse responder só com o coração, diria 'voltar a fazer tudo outra vez e seguir em frente', mas como tenho de pensar com a cabeça, e isso inclui pensar com a carteira, a decisão complica-se bastante", afirma à agência Lusa José Gonçalves, da Nutrix, empresa instalada na freguesia de Souto da Carpalhosa que produzia exclusivamente framboesa biológica destinada à grande distribuição nacional.
A empresa, criada em 2017, tem três funcionários em permanência que, no pico da colheita, podem chegar aos 25.
Com 26 estufas distribuídas por um hectare, o ano passado produziu 15 toneladas de framboesa e tinha antecipado para 2026 "o melhor ano de sempre", entre 16 e 17 toneladas do fruto.
Quando, em outubro de 2018, a tempestade Leslie atingiu a região, a Nutrix estava "a trabalhar há sensivelmente um ano e meio", explica à agência Lusa José Gonçalves, de 56 anos.
"Destruiu-nos a exploração por completo", recorda o empresário, salientando que, na ocasião, "houve um apoio significativo por parte do Ministério da Agricultura".
Seguiu-se a reconstrução e, em 2019, a Nutrix estava já "com um hectare de área coberta e em plena produção novamente".
"Mas longe de nós pensar que, em 2026, estivéssemos com um segundo evento desta natureza e novamente na situação de termos 100% de destruição da exploração", lamenta o empresário, referindo que agora "o prejuízo total poderá ser entre os 150 mil e os 200 mil euros".
Sem seguro, José Gonçalves descreve o caminho que fez para encontrar uma companhia que cobrisse "este tipo de eventos".
"Não houve nenhuma companhia de seguros que nos fizesse um seguro com cobertura deste risco", conta, para lembrar que encontrou uma companhia que "fazia um seguro para inundações, incêndios, raios, explosões, quedas de aeronaves, para tudo menos para situações de tempestade".
À pergunta como olha para o futuro depois de nova destruição, responde com "muita dificuldade".
"O despacho do sr. ministro da Agricultura que cria o apoio para as explorações agrícolas que foram afetadas pela Kristin define um montante de 40 milhões de euros. Li este fim de semana uma notícia de que os prejuízos reportados já estariam perto dos 400 milhões", declara.
Segundo o empresário, o despacho "diz também que, não sendo suficiente o 'plafond' disponível, haverá um rateio", significando que "o apoio mínimo, que é de 50%, será reduzido para chegar a mais gente".
José Gonçalves adianta que a Nutrix, uma microempresa, não pode "tomar decisões de reconstrução sem ter uma certeza relativamente ao apoio" que vai ter.
"O prazo para a submissão das candidaturas é 30 de abril, portanto, só em 30 de abril é que o ministério vai saber qual é a totalidade do apoio necessário", refere, para salientar que, "só depois disso, é que poderá fazer o rateio".
Com estes prazos, "não haverá nenhuma certeza, preto no branco, antes do verão relativamente ao apoio que será concedido a cada empresa agrícola", nota.
"Ora, isto para nós, que fazemos framboesa, significa que, como não podemos correr o risco de avançar com a reconstrução não tendo a certeza se temos um apoio ou não lá mais à frente, não vamos poder reconstruir antes do verão, portanto, a nossa campanha deste ano está perdida", assume.
Olhando "para este cenário com muito pouca tranquilidade" ao "ponto de ponderar muito seriamente na possibilidade de não reconstruir mesmo", José Gonçalves reitera que, "sem a certeza inequívoca do apoio" que a Nutrix possa ter não pode avançar.
Ao ministro da Agricultura, que na semana passada esteve, com o comissário europeu da área na empresa, pediu que "não penalizasse os agricultores que não têm seguro, porque, efetivamente, há agricultores que não podem ter seguro porque não havia ninguém para lhe fazer o seguro".
"E é feita uma distinção no despacho que cria o apoio em que os agricultores que têm seguro são apoiados em 80% e os que não têm são apoiados só em 50%", alerta.
Salientando que este aspeto, para a empresa, é uma discriminação que "funciona como uma penalização", José Gonçalves concretiza: "Não foi uma falta ou uma negligência nossa".
Defendendo também a necessidade de os empresários terem "alguma previsibilidade mais rapidamente", José Gonçalves acrescenta que ao comissário europeu da Agricultura disse que "não fazer sentido este modelo de seguros em que as seguradoras já identificaram que há alguns riscos grandes das questões do clima para a agricultura", mas "não têm produtos específicos para a agricultura".
"A União Europeia deverá ter a capacidade para criar um sistema mais robusto, para garantir que os europeus têm, efetivamente, comida para o pequeno-almoço, almoço e jantar todos os dias", sustenta o empresário.
Dezoito pessoas morreram em Portugal na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.
A situação de calamidade que abrangia os 68 concelhos mais afetados terminou no dia 15 de fevereiro.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.