Integração na sociedade portuguesa continua a ser dificultada por barreiras burocráticas e por uma visão social "muito retrógrada".
O membro do Movimento Vida Justa Kedy Santos alertou para o retrocesso na integração dos afrodescendentes em Portugal, denunciando questões de identidade, discriminação, barreiras burocráticas e uma visão social retrógrada que afetam a comunidade.
Em declarações à agência Lusa, a propósito do Dia Internacional dos Afrodescendentes, que se assinala este domingo, Kedy Santos destacou o papel do coletivo como "uma esfera de autoproteção" das pessoas afrodescendentes, denunciando que esta comunidade "tem sido, ultimamente, um pouco atacada" por meio de "uma nova linguagem, mais extremizada, trazida por algumas linhagens do quadrante político".
Segundo Santos, a integração de jovens e adultos afrodescendentes na sociedade portuguesa continua a ser dificultada por barreiras burocráticas e por uma visão social "muito retrógrada".
"Mesmo nascendo em Portugal, muitos jovens afrodescendentes não são reconhecidos como plenamente portugueses. Para muitos, continuam a ser vistos como estrangeiros, o que compromete a sua integração e o sentimento de pertença", afirmou.
O membro do movimento considerou que a questão da identidade é complexa e um dos maiores desafios para os afrodescendentes nascidos em Portugal, afirmando que muitos sentem-se como "filhos da terra de ninguém" por não serem totalmente aceites no país de origem dos país, nem integrados por completo onde nasceram.
Contudo, Kedy Santos vê esta dualidade como uma potencial riqueza, ao possibilitar aos jovens afrodescendentes a vivência de duas culturas.
Sobre a nova proposta de lei dos estrangeiros, que pode afetar várias famílias afrodescendentes, disse que o movimento é contra, classificando a medida como "xenófoba, inconstitucional e populista".
A medida representa um retrocesso grave nas políticas de imigração em Portugal, uma vez que "ressuscita práticas do passado", como o não reconhecimento automático da nacionalidade a filhos de imigrantes nascidos no país.
"Antigamente havia filhos de imigrantes que nasciam aqui, mas que não eram vistos como cidadãos portugueses, tinham de ser registados em embaixadas de acordo com a lei dos países de origem dos seus pais, e esta lei volta a retroceder nesse âmbito", acrescentou.
Questionado sobre mudanças ou medidas que poderiam ser aplicadas para fazer face aos múltiplos desafios, Kedy Santos afirmou que o primeiro passo devia passar por "criminalizar o racismo (...) com uma moldura penal mais acertada", dando como exemplo o Reino Unido e outros países desenvolvidos que "têm políticas claras de criminalização neste âmbito".
Outra das soluções apresentada é o aumento de "políticas mais integradoras, que ajudem toda a sociedade".
Kedy Santos também sublinhou o impacto desproporcional da crise habitacional sobre famílias afrodescendentes, muitas das quais vivem com rendimentos baixos e em situações precárias.
"Muitas têm trabalhos precários, rendas muito altas e pouca proteção social", afirmou.
Também criticou o papel da comunicação social na construção de narrativas.
"Quando surge uma notícia sobre um crime efetuado por um imigrante, deparamos que é dito a nacionalidade do imigrante e a sua origem, enquanto crimes cometidos por nacionais não têm a mesma exposição", numa estratégia que, segundo Kedy Santos, visa condicionar a opinião pública.
O Dia Internacional dos Afrodescendentes foi proclamado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas para homenagear as contribuições da diáspora africana e combater o racismo e a discriminação racial contra afrodescendentes.
A data serve também para reconhecer a riqueza das culturas africanas e afrodescendentes e reforçar o compromisso com a igualdade, justiça e desenvolvimento para todos os povos de ascendência africana.
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