Autarca diz que suspensão "é hoje um símbolo claro de um problema estrutural do país: a persistência de um Portugal a duas velocidades".
O presidente da Câmara de Torre de Moncorvo pediu esta sexta-feira ao Governo celeridade na reabertura da Linha do Douro entre a Régua e o Pocinho, considerando que a circulação ferroviária é uma questão estrutural.
Em comunicado enviado à agência Lusa, o autarca, José Meneses, afirma que a suspensão da circulação ferroviária na Linha do Douro, entre a Régua (Vila Real) e o Pocinho (Guarda), "é hoje um símbolo claro de um problema estrutural do país: a persistência de um Portugal a duas velocidades".
"De um lado, o país das grandes autoestradas, das decisões rápidas e da proximidade aos centros de poder. Do outro, o interior, onde as obras se arrastam, as respostas tardam e as populações são frequentemente chamadas a esperar", critica o autarca do distrito de Bragança.
Segundo a Infraestruturas de Portugal (IP), a circulação ferroviária no troço entre a Régua e o Pocinho encontra-se temporariamente suspensa.
Em 23 de fevereiro, na sequência do mau tempo que assolou Portugal continental, A IP referiu que este encerramento foi adotado por prudência face às características específicas das encostas ao longo do traçado da ferrovia.
José Meneses salientou que "quando esta ligação é interrompida, o impacto sente-se imediatamente no território, sendo o impacto sentido nos restaurantes, que nesta altura do ano contam com um aumento significativo de visitantes, como os sentem os taxistas e operadores de transporte local, que asseguram a ligação entre estações, aldeias e pontos turísticos, os agentes turísticos, guias e empresas de animação, que organizam programas para visitantes nacionais e estrangeiros".
Para o autarca social-democrata, o que está esta sexta-feira a acontecer no Douro Superior "não é apenas uma questão de transportes, é uma questão de coesão territorial, de justiça económica e de respeito por um território que tem contribuído decisivamente para a projeção internacional de Portugal".
"A Linha do Douro é muito mais do que uma infraestrutura ferroviária. É uma linha estruturante para a economia do Douro Superior e um ativo estratégico para o turismo nacional. Durante a época das Amendoeiras em Flor, milhares de visitantes procuram o território, muitos deles através do histórico comboio que liga o Porto ao Pocinho, uma viagem considerada entre as mais bonitas da Europa", vincou.
O autarca acrescentou ainda que se está a falar de uma região Património Mundial da UNESCO, um dos motores turísticos do interior, e de um território que tem sabido afirmar-se pela sua cultura, pela sua paisagem e pela sua capacidade de atrair visitantes de todo o mundo.
"Num país que tantas vezes fala de coesão territorial, não podemos aceitar que uma das regiões mais emblemáticas de Portugal fique dependente de soluções improvisadas e de transbordos rodoviários que, na prática, afastam visitantes e penalizam a economia local. O Douro Superior não pode continuar a ser tratado como um território de segunda linha", vincou.
Sobre as futuras obras de modernização e eletrificação da Linha do Douro, José Meneses deixou a garantia de que são importantes e necessárias.
"O investimento anunciado de cerca de 165 milhões de euros é um passo relevante. Mas modernizar não pode significar deixar um território meses a fio sem uma das suas principais ligações ferroviárias, especialmente quando se acumulam interrupções por obras, intempéries e constrangimentos operacionais", explicou o presidente da Câmara de Torre de Moncorvo.
Contactado pelo Lusa, o autarca de Torre de Moncorvo prometeu declarações sobre a atualização desta matéria para mais tarde.
Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metade das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos de milhares de milhões de euros.
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