Relatório considera que a simples colocação de uma criança com deficiência numa escola regular não é suficiente para cumprir o direito à educação inclusiva.
O Mecanismo Nacional de Monitorização dos Direitos das Pessoas com Deficiência alerta para a falta de materiais curriculares adaptados em braille e para alunos surdos, num dos principais obstáculos à concretização da escola inclusiva prevista na legislação portuguesa atual.
Embora Portugal disponha de um enquadramento legal considerado alinhado com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, nomeadamente através do Decreto-Lei n.º 54/2018, persistem falhas na concretização do modelo de educação inclusiva, com diferenças significativas entre escolas e regiões, conclui o relatório do Me-CDPD.
"Há uma grande distância entre o que está escrito e aquilo que é a realidade nas escolas", afirmou à Lusa a coordenadora do mecanismo, Vera Bonvalot, apontando a falta de professores, técnicos especializados, assistentes operacionais, formação, tecnologias de apoio e materiais adaptados como alguns dos principais problemas.
Segundo a responsável, representantes das pessoas com deficiência ouvidos pelo mecanismo alertaram para a inexistência, ainda em 2026, de currículos adaptados produzidos estruturalmente pelo Estado para alunos cegos ou surdos, nomeadamente conteúdos curriculares em braille ou materiais adequados às necessidades dos alunos surdos.
Na prática, explicou, a adaptação dos conteúdos pode ficar dependente da iniciativa individual de professores ou do esforço das famílias, quando deveria existir uma resposta estrutural e garantida pelo sistema educativo.
O relatório considera que a simples colocação de uma criança com deficiência numa escola regular não é suficiente para cumprir o direito à educação inclusiva. É necessário assegurar que consegue aprender, participar, progredir e sentir-se parte da comunidade escolar.
Entre as falhas identificadas pelo Me-CDPD estão a escassez de recursos humanos e técnicos, a falta de formação adequada dos profissionais e a insuficiência de tecnologias de apoio. O mecanismo aponta ainda assimetrias regionais e entre escolas na aplicação do modelo inclusivo e o risco de manutenção de respostas segregadoras.
Vera Bonvalot alerta para o facto de algumas soluções poderem acabar por separar os alunos em vez de os incluir, contrariando o espírito da legislação. "O que a Convenção defende, e portanto o mecanismo defende, é sempre, sempre, sempre, a inclusão", afirmou.
O objetivo, explicou, não deve ser criar respostas específicas que afastem os alunos dos restantes, mas garantir que a escola pública tem capacidade para responder à diversidade. Como exemplo, apontou a possibilidade de uma escola disponibilizar o ensino de Língua Gestual Portuguesa como uma opção acessível a alunos surdos e ouvintes.
"Esse é que é o futuro da inclusão", defendeu, sublinhando que a educação inclusiva deve permitir que todos os alunos convivam e aprendam juntos, com os apoios necessários.
O relatório recomenda, por isso, financiamento estável, reforço dos docentes de educação especial e das equipas multidisciplinares, formação contínua da comunidade educativa e avaliação individualizada das necessidades de cada aluno.
Defende também mecanismos de monitorização que permitam medir não apenas o acesso à escola, mas a participação, a progressão, o sucesso, o bem-estar e o sentimento de pertença dos alunos com deficiência.
Para o Me-CDPD, devem igualmente existir mecanismos de reclamação acessíveis e ser assegurada a participação efetiva das famílias e dos próprios alunos na definição das medidas de apoio.
A situação no ensino superior é outra das preocupações. O aumento do número de estudantes com deficiência é considerado positivo, mas, segundo o relatório, não basta garantir a entrada: é necessário assegurar condições de acessibilidade, apoios estruturados, permanência, sucesso e conclusão dos cursos em igualdade de condições.
O mecanismo alerta ainda para o risco de a falta de respostas inclusivas contribuir para que os restantes alunos encarem os colegas com deficiência como estando "à parte", reproduzindo na escola situações de exclusão que a legislação pretende precisamente combater.
Para Vera Bonvalot, a monitorização é, por isso, essencial para perceber se os direitos previstos na lei estão efetivamente a ser cumpridos.
Defendeu que "é importantíssimo" existir um sistema de queixas e de audição das pessoas que usufruem, ou não conseguem usufruir, desses direitos.
O Me-CDPD tem mantido contactos com responsáveis governamentais pela Educação e pela Inclusão para acompanhar as alterações previstas no setor, mas a coordenadora admite preocupação com a implementação gradual das novas medidas e promete manter a monitorização da evolução da escola inclusiva.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.