SPC fez um retrato deste problema em 2024 e em 2025 publicou um plano estratégico para a saúde cardiovascular para os próximos anos em Portugal.
A presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Cristina Gavina, lamentou esta quinta-feira que a discussão sobre doentes em lista de espera para cirurgia cardíaca na região Norte pareça agora focada numa "guerra entre hospitais" e não em soluções imediatas.
"A primeira reflexão a fazer é o que é que nós temos e o que é que precisamos de ter. Qual é a necessidade. Qual é a nossa meta?", disse à agência Lusa Cristina Gavina que é também diretora do serviço de cardiologia da Unidade Local de Saúde de Matosinhos.
A médica é também uma das subscritoras da carta dirigida à ministra da Saúde e tornada pública na quinta-feira passada na qual quatro médicos de quatro hospitais do Norte (Santo António, no Porto, Tâmega e Sousa, Matosinhos e Trás-os-Montes e Alto Douro) alertam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação de válvula aórtica.
À ULS Santo António é atribuída a ambição de criar um centro de referência desta área, enquanto o serviço de cardiologia da ULS Tâmega e Sousa esclareceu no mesmo dia à Lusa que não tem essa pretensão, mas subscreveu a carta para promover uma reflexão global sobre o tema, e o diretor do serviço de cardiologia da ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, também à Lusa, admitiu que é ambição desta unidade realizar intervenções cardíacas percutâneas.
"Estou completamente à vontade porque faço parte de um centro pequeno que não quer ter cirurgia cardíaca (...). A minha preocupação única é com as listas de espera dos meus doentes. É isso que me está, efetivamente, a incomodar porque não consigo garantir que resolvo o problema depois de o identificar e depois, não sendo resolvido, essas pessoas continuam nas minhas consultas e impedem-me de receber outros doentes", afirmou.
A SPC fez um retrato deste problema em 2024 e em 2025 publicou um plano estratégico para a saúde cardiovascular para os próximos anos em Portugal.
Nessa altura, "havia movimentação na Comissão Europeia para fazer um plano cardiovascular europeu, logo com possibilidade de financiamento para Portugal".
Nesse sentido, a responsável lamentou que este tema se esteja a transformar "numa guerra entre hospitais" e possa estar a gerar "alarme social".
"Neste entretanto as listas de espera continuam a aumentar e começa a haver algumas situações, como aquelas que foram referidas, de nós perdemos doentes em lista de espera. Em Matosinhos já aconteceu, mas eu sou bastante conservadora na forma como abordo este assunto porque não ganhamos nada em criar alarme social, nomeadamente junto dos utentes que ficam desesperados", alertou.
A médica disse ainda que se pode estar "neste momento, inclusivamente, a levar as pessoas a recorrer ao privado sem haver essa necessidade e muitas vezes sem condições para isso".
Em entrevista à RTP, o diretor de serviço de Cardiologia da ULS Santo António, André Luz, disse há uma semana que 10 doentes morreram nos últimos três anos devido a uma "lista de espera demasiado elevada" só na Unidade Local de Saúde Santo António.
De seguida, a Ordem dos Médicos (OM) exigiu um esclarecimento, "com caráter de absoluta urgência", tanto da Direção-Eexecutiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) como do Ministério da Saúde.
E o gabinete da ministra Ana Paula Martins informou, numa resposta enviada à Lusa, que ordenou uma "avaliação urgente" da situação de doentes em lista de espera para cirurgia cardíaca e que a denúncia sobre mortes associadas a eventual ausência de resposta está a ser "analisada com prioridade".
Já a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) confirmou na quarta-feira que abriu um processo de avaliação aos alegados constrangimentos de acesso a cirurgia cardíaca por utentes SNS.
Para Cristina Gavina a solução não pode passar apenas por dizer: "Abra-se mais um centro e depois vamos ver onde é que vamos buscar os recursos", mas centra-se "em planeamento".
"Isto concentrou-se numa guerra entre hospitais e isso está a contaminar a discussão mais importante que devíamos estar a ter. Vejo manifestações múltiplas e alarmismos múltiplos e como presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia acho que se está a desfocar a atenção do essencial (...)", sublinhou.
E como diretora de um serviço que "drena para o Hospital de São João, a minha preocupação é a resposta. Não quero saber se [Vila Nova de] Gaia e Santo António estão em guerra porque querem ter cirurgia cardíaca e disputam os mesmos cirurgiões. O que eu quero é que nos sentemos todos à mesa, reconheçamos que há um problema e tentemos encontrar uma solução", disse.
Atualmente, doentes que necessitem de intervenções nesta área são referenciados para os centros de referência da ULS São João, no Porto, ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho, bem como da ULS Braga, onde abriu há dois meses uma estrutura que está a trabalhar a 20% da sua capacidade, prevendo-se que atinja o pleno até ao final do ano.
Alertando que, por exemplo as válvulas percutâneas são colocadas pelos cardiologistas de intervenção, não por cirurgiões cardíacos, mas com 'backup' de cirurgia cardíaca para o caso de haver uma complicação grave, Cristina Gavina refere "Essas complicações obviamente são raras, mas se acontecerem, a intervenção tem que ser imediata, senão perdemos o doente".
Insistindo no alerta de que "os recursos são limitados", defendeu que "ainda que existam hospitais que, tendo capacidade técnica para fazer os procedimentos e achem que têm legitimidade para resolver os problemas dos seus doentes" por falta de resposta dos centros de referência "não é do pé para a mão que se criam serviços com profissionais já com mão, já treinados".
"Por isso é que é preciso planeamento", concluiu.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.