Obra está a partir desta quarta-feira na galeria de retratos do Museu da Presidência da República, em Lisboa.
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O retrato oficial do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, da autoria de Vhils, foi feito com camadas de jornais nacionais dos últimos dez anos, procurando mostrar "o peso de dois mandatos", explicou esta quarta-feira o artista.
A obra, que está a partir desta quarta-feira na galeria de retratos do Museu da Presidência da República, em Lisboa, foi apresentada numa curta cerimónia, com a presença Marcelo Rebelo de Sousa, do artista e seus convidados.
"Depois de Columbano, depois de Júlio Pomar, com o Presidente Soares, depois de Paula Rico, com o Presidente Sampaio, é a primeira vez que um retrato não é pintura. É relevo, volume e matéria. E é a primeira vez que é feito por alguém que vem da rua, de certa forma, e tenho a consciência do que isso significa", declarou Alexandre Farto, que começou como 'grafiter' e assina como Vhils.
O artista contou que perguntou ao Presidente da República como queria ser representado e que a resposta de Marcelo Rebelo de Sousa foi "com o peso de dois mandatos", o que constituiu "a chave" para o seu trabalho.
Vhils explicou que usou "jornais nacionais de 2016 a 2026, colados, sobrepostos, escavados por incisão e, no final, cobertos de branco", a mesma técnica que usa em muros e fachadas, "destruindo a superfície para revelar o que está por baixo".
Segundo o artista, "os incêndios, a pandemia, as crises políticas", bem como "as ruturas" do atual "contexto global de populismo amplificado pela disrupção tecnológica vigente", tudo isso "está aqui, nestas camadas, literalmente".
"Um retrato que não é uma homenagem, é uma escavação. À superfície pode ser uma imagem ou pode mostrar as camadas que fizeram o Presidente ser o que é hoje. Escolhi mostrar as camadas", acrescentou.
Alexandre Farto apresentou-se como alguém que vem "da margem sul, da freguesia da Arrentela, Seixal, de pintar paredes e, às vezes, comboios", e referiu que inicialmente não aceitou o desafio de fazer o retrato do Presidente Marcelo, com o qual nem sempre esteve politicamente "alinhado".
Na sua intervenção, deixou uma mensagem de agradecimento à escola pública e afirmou que os seus pais e ele são a prova de que o "elevador social" proporcionado pelo Estado, "quando funciona, transforma gerações", e espera que o mesmo aconteça com as suas duas filhas recém-nascidas.
Se hoje o seu trabalho entra no Museu da Presidência da República "não é para se domesticar, é para que a contemporaneidade tenha lugar nas nossas instituições, ao lado da história que já está nestas paredes", justificou.
Vhils comunicou que abdicou da sua remuneração pedindo "que esse valor fosse utilizado para adquirir obras de artistas emergentes" para a coleção do museu, o que foi aceite, e sugeriu que isso "se torne uma tradição".
Segundo uma nota de imprensa do artista, com base nos nomes que recomendou, "foram assim adquiridas 11 obras dos artistas ±MaisMenos±, Mantraste, Fidel Évora, Unidigrazz, Pantonio, Marta Pinto Machado, João Amado, Ana Aragão, Ana Malta, Francisco Vidal e Kindumba" e "serão ainda adquiridas duas obras para reserva e uma de rotação, de AKA Corleone, Tamara Alves e Raquel Belli".
"Espero que isto se torne uma tradição, porque as paredes onde tudo se decide devem refletir o tempo em que vivemos, e os artistas refletem esse tempo, muitas vezes antes de todos os outros. Daqui a décadas, quem olhar para este retrato vai ver um rosto. Mas quem o desconstruir vai encontrar que país foi aquele".
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