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A LITERATURA DO POVO

São nove horas da noite. Num dos bairros mais chiques do Rio de Janeiro, o Leblon, Manoel Carlos, de 70 anos, segue atentamente o capítulo 23 de “Mulheres Apaixonadas”, a novela de sua autoria, no ecrã gigante da sua sala de estar, com vista para o Corcovado.

24 de março de 2003 às 00:00

'Maneco' (alcunha pela qual é conhecido no meio artístico) está acompanhado pela família que segue com descontracção o drama de Helena, interpretado por Christiane Torloni, uma mulher cansada da monotonia do seu casamento e que volta a apaixonar-se pelo seu amor de juventude. "Torloni era a actriz perfeita para este papel de uma mulher forte e determinada. Ela mesma é a imagem de pessoa batalhadora, que ultrapassou graves problemas familiares como a perda do filho", explica enquanto sorve calmamente o seu uísque velho.

O autor não esconde que escolhe os actores em função da personagem que vão representar no ecrã. "Se, por exemplo, Vera Fischer não pudesse ter participado em 'Laços de Família', a novela não teria saído da gaveta", remata.

'Mulheres Apaixonadas' estreou no Brasil a 17 de Fevereiro, com a responsabilidade de fazer subir as audiências da Globo, um pouco em baixo depois do fiasco de 'Esperança'. "Incomoda-me o facto de uma novela minha não poder falhar. Mas por outro lado, esta expectativa elevada também me excita", declara. Sempre que faz o seu passeio diário pelo Leblon, os vizinhos vêm ter consigo, dando-lhe opiniões e sugestões sobre os seus heróis. "O cidadão anónimo conhece todos os códigos de uma novela. Sabe como irá terminar determinada paixão, ou se um personagem está a mais". É para eles que 'Maneco' escreve as suas novelas: "Um folhetim destina-se a entre 50 a 60 milhões de brasileiros, e não apenas para os meus amigos cultos". Não é por acaso que define a novela como "a grande literatura de massas".

Os brasileiros, que acompanharam os dramas de 'Por Amor' e 'Laços de Família', parecem ter-se rendido novamente à receita infalível do 'Maneco': "Eu faço sempre a mesma novela. Elas são crónicas do dia-a-dia, da classe média do Leblon, que passeia na praia, ao som da bossa nova. Não há explosões nem pirotecnia. O porteiro cumprimenta a vizinha e o marido fala com a mulher enquanto lava os dentes". Será uma 'novela da vida real' – conceito habitualmente colado aos 'reality shows'? "Sim. De certa forma", concorda o autor.

'Mulheres Apaixonadas' é como o nome indica, um enredo de paixões, amores neuróticos e desamores bruscos de personagens femininas, muitas delas à beira de um ataque de nervos. 'Maneco' parece conhecer os segredos do sexo oposto como ninguém. O paulista defende-se em tom de brincadeira: "A Regina Duarte costuma dizer-me que espreito pelo buraco da fechadura e oiço as conversas das mulheres". Ele considera as mulheres mais interessantes do que os homens. "Elas são mais complexas, uma vez que sempre tiveram menos liberdade e foram mais reprimidas". Nesta grande produção da Globo não faltam personagens femininas, algumas delas bastante conhecidas dos portugueses: É o caso de Suzana Vieira, Paloma Duarte, Carolina Kasting, ou Maria Padilha.

"No total são 104 actores no elenco. Mas o número irá crescer com o decorrer da acção", revela o autor, que por tradição se recusa a entregar a sinopse aos seus actores. "Eles entram comigo no risco. Se querem saber o que irá acontecer à sua personagem durante o desenrolar do enredo, o melhor é mesmo não participar na novela". A regra aplica-se à maioria do elenco mas há excepções. Actores como Tony Ramos ou José Mayer que já trabalharam com o autor por diversas ocasiões, e detêm os papéis principais em 'Mulheres Apaixonadas', sabem o segredo do 'grand final' elaborado pelo 'Maneco'. Mas lá diz o ditado, o segredo é a alma do negócio. "E até lá, posso mudar de ideias", afirma, com um sorriso enigmático.

A novela estreia no dia 7 na SIC. Helena (Christiane Torloni) é uma mulher cansada de um casamento monótono com o músico Teo (Tony Ramos). A sua vida ganha sentido quando descobre que a grande paixão de juventude, César (José Mayer) regressa ao Rio de Janeiro. Os dois homens vão lutar pelo amor de Helena. Paralelamente, há Diogo (Rodrigo Santoro) um 'playboy' dividido entre a esposa, Marina, (Paloma Duarte), grávida do seu primeiro filho, e a sua prima Luciana (Camila Pitanga).

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