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MICRONOVELA

Refúgio Proibido Um refúgio. Dois corações. Mil segredos.

JOSÉ EDUARDO MONIZ: A SIC E A RTP ENGRAVATARAM-SE

José Eduardo Moniz nasceu em Ponta Delgada (Açores), faz dia 6 de Maio 51 anos. Só aos 17 anos viu televisão pela primeira vez, mas sentiu desde cedo a atracção pelo jornalismo. Em 77 entrou na RTP para aquilo a que chama a “grande aventura”. 18 anos na estação pública valeram-lhe todos os cargos, críticas e um casamento.

15 de fevereiro de 2003 às 16:24

Após um interregno de quatro anos na sua produtora voltou, pela mão da TVI, em 98. Quatro anos e meio depois, a estação, que comemora uma década, subiu do terceiro lugar à liderança. Ao longo da conversa, muito pouco explosiva, mas recheada de recados foi possível perceber que é com a RTP que pensa disputar as próximas guerras. Que prometem

Lembra-se do seu primeiro dia na TVI [22 de Setembro de 98]?

– Perfeitamente. As pessoas olhavam para mim como uma espécie de salvador, e isso fez com que me sentisse bastante constrangido. O grande embate foi quando toda a gente se reuniu comigo na sala da antiga Redacção.

– Nesse primeiro dia?

– Sim. Foi aí que tive a noção que tinha caído uma bomba naquele edifício, que estava tudo abalado e que, de um momento para o outro, os alicerces poderiam ruir.

– Passou por alguns episódios caricatos...

–... Logo depois da minha entrada havia eleições. E a TVI não ia fazer nada... Disse que tínhamos de fazer alguma coisa, mesmo sabendo que íamos perder. Então eu, o Luís Cunha Rego e um realizador andámos a apanhar móveis dispersos pelo edifício, porque não tínhamos nem cenografia, nem cenógrafo. Inventámos um “décor”. Eu próprio fui escolher uma secretária. Projectámos umas luzes atrás do apresentador – o José Carlos Castro –, eu fiquei nos bastidores da emissão e cobrimos as eleições assim. Isto para dar a ideia da pobreza franciscana que ali se vivia.

– Quando aceitou o convite da TVI, teve a noção dos riscos que corria?

– Na vida temos de ter desafios e empreendimentos que justifiquem o facto de andarmos por aqui. Achava que não era impossível dar a volta à TVI, mesmo com pouco dinheiro. E achava que a TVI tinha caído tanto que não era possível fazer pior. Quando assinei o contrato, os objectivos eram altos, na altura impensáveis. E eu não tinha nada a perder.

– E a sua carreira?

– Para mim era o tudo ou nada. Depois de tudo aquilo que algumas pessoas tinham andado a dizer a meu respeito só havia uma forma de lhes responder: do ponto de vista profissional, no terreno. Acho que nos afirmamos por aquilo que fazemos e não pelo que dizemos que vamos fazer ou pelo que os outros acham que somos, ou não, capazes de fazer. Precisamos de provar sempre. Lembro-me que, quando estava na RTP, as pessoas achavam que eu só tinha conseguido fazer o que fiz porque tinha muita “massa” e porque as outras

televisões eram verdadeiramente incipientes. Isso magoou-me muito.

– Foi para a TVI para se “vingar”?

– A TVI surgiu para mim como uma estratégia de afirmação de capacidades.

– Lembra-se dos primeiros contactos?

– Da primeira vez, há muitos anos, foi com Roberto Carneiro. Nessa altura não pude aceitar. Foi depois dos dois convites que a SIC me tinha feito. Mais tarde os contactos foram feitos por um representante da Sonae.

– Foi a RTP que o impediu de aceitar os primeiros convites, inclusive esses da SIC que só agora está a revelar?

– Para mim não era fácil romper aqueles laços. Foi mais fácil sair e ir para uma produtora, para uma zona cinzenta, do que para outra estação de televisão.

– E fundou a Produtora...

– A Produtora foi uma boa hipótese. Assim não estava a atraiçoar um passado de 18 anos.

– Nunca se sentiu verdadeiramente tentado a sair antes?

– Houve uma altura, no caso do segundo convite da SIC, em que estive muito tentado. Se se tivessem reunido todas as circunstâncias, teria saído.

– Para dar a resposta a quem tanto o criticou...

– [Esboça um sorriso] Sou muito orgulhoso em questões que têm a ver com o meu nome. Costumo dizer que esse é o único capital que temos. Todos os outros são delapidáveis com relativa facilidade. Quando andamos a demonstrar durante vários anos que sabemos fazer as coisas e de um momento para o outro nos tentam arrasar essas coisas magoam. E, portanto, há que encontrar uma forma de dar resposta. Esperei quatro anos.

– Sente-se vingado?

– Fi-lo sem ser necessário dizer nada. Nem vou mencionar pessoas, nem factos. As acções e as afirmações ficam com quem as pratica.

– Qual foi a primeira grande decisão que tomou na TVI?

– Foi fazer o primeiro programa de produção portuguesa da minha era, o “Batatoon”, infantil. Era um programa barato. Andávamos à volta dos onze, doze pontos percentuais; um dia de 15/16 já era fantástico, e aquilo (“Batatoon”), sobretudo nos períodos de férias, ajudava-nos a melhorar. Outra decisão importante foi valorizar mais os filmes do que as séries na grelha da programação. Sem deitar as séries fora, que eram um “ex-líbris”, íamos atrás do que nos dava mais audiências.

– Que objectivos lhe pediram?

– Que, no prazo de três anos, chegássemos à liderança, aos 30%, quando tínhamos 11/12%. Fi-lo em dois anos e pouco.

– Deve-o ao “Big Brother”...

– [Volta a sorrir] Achei que o programa podia ajudar, embora todos tivéssemos receios. Nenhuma estação de televisão pode ficar dependente de um só produto. Recordo, e as pessoas esquecem isso, que dois meses antes tínhamos lançado uma novela importante...

– Outra das suas apostas, a ficção nacional.

– Tínhamos começado com “Todo o Tempo do Mundo”, talvez a minha segunda grande decisão. Quando essa novela acabou, avançámos depois com “Jardins Proibidos”, que fez uma dupla fantástica com o “Big Brother”. Essa combinação, juntamente com a Informação, resultou. Tomámos uma posição inovadora na Informação. Somos muito descomplexados, mas muito responsáveis. Acho que o grande problema da RTP e da SIC é que se engravataram. A RTP desde sempre e a SIC cedo de mais. Hoje é uma estação de televisão muito institucional.

– Falava da Informação...

– Nós éramos os únicos capazes de ter uma atitude mais ousada, mais crítica, mais livre. Éramos e somos, e digo-o com imenso orgulho, a única estação que pode assumir-se como não tendo qualquer dependência. Chegámos a pensar em ter um telejornal em que as apresentadoras – e não lhe digo quem seria a segunda – dialogariam durante o programa e seriam extremamente críticas em relação a tudo o que iria para o ar. Cheguei à conclusão que ainda não era tempo de fazer isso.

– Por causa dos críticos e da Alta Autoridade (AACS)?

– Chateia-me tudo aquilo que é imbecil. Nos assuntos relativamente aos quais sinto que as pessoas têm razão, procuro ouvir, calar e reflectir. Mas não concordo com a generalidade das decisões da Alta Autoridade. É um órgão constituído por pessoas sem a mínima formação para ali estarem. Felizmente nenhuma das estações participa nesse processo de escolha.

– Nunca lhe telefonaram para saber qual era o alinhamento do Telejornal?

– Nunca. Nem eu admitiria isso. A primeira vez que o presidente de um Conselho de Administração me apareceu, e foi pouco tempo depois de estar na RTP, fui ter com o Director e disse-lhe que a partir daquele momento deixava de estar em funções. Quem faz isso em 77, 78, por maioria de razões continua a fazê-lo sempre. O que se ganha é maturidade. E foi essa que me levou sempre a pensar, um bocadinho como os chineses, que temos de ter muita paciência. Agir de forma a que, no saldo, fiquemos sempre a ganhar.

– Como delineou, então, a sua estratégia de vitória?

– Se era preciso mudar a informação da RTP radicalmente não podia apanhar “moscas com vinagre”. O que fiz foi, gradualmente, ir mudando toda a Redacção. Entrou muita gente nova, com ideias claras na cabeça. Sempre disse que ia chegar o momento em que quem quer que fosse que pretendesse “comprar” a Informação da RTP estaria tramado.

– Foi tudo isso que o fez dar a cara naquela confrontação com Mário Soares?

– Nunca imaginei que assumisse aquela dimensão. Se fosse num jornal, como Director escreveria umas linhas a dizer que o Presidente da República agira mal e ninguém me diria nada. Como a RTP teve pela primeira vez na sua história uma manifestação de rebeldia, caiu o Carmo e a Trindade. A estação pública ter o seu Director em antena a dizer que achava inadmissível que um senhor, por maior que fosse o seu cargo, dissesse aquilo da RTP era uma heresia.

– Alguém esperou pela sua demissão?

– Tinha um presidente de Conselho de Administração excepcional, Coelho Ribeiro, porventura aquele de quem guardo maior saudade. Juntamente com outras pessoas, que estavam no Conselho na altura, o Brás Teixeira e o Freitas Cruz, deram-me toda a cobertura num período complicadíssimo, em que as pressões sobre eles eram também enormes. Disse-lhes que estavam à vontade quanto ao meu cargo... Mas eles resistiram às pressões, quando toda a gente pedia a minha cabeça.

– Tanto teria feito aquilo com Mário Soares, como com Cavaco e Silva, ou outro qualquer. Era-me indiferente. Essa foi uma fase em que a RTP quase se confundia com a minha vida. Entrava lá às oito da manhã, saía às duas da madrugada, a apresentar o último jornal, o “24 horas”. Parecia-me impossível, inadmissível, alguém dizer aquilo da RTP, quando estávamos a tentar dar credibilidade à empresa.

– Hoje, sente que alguma vez fez favores?

– As pessoas acusaram-me muitas vezes de ter mau feitio...

– Num canal privado é mais fácil ter independência do poder político?

– Posso afirmar que gozo de total liberdade e independência para fazer aquilo que quero. Recebo na TVI praticamente os mesmos telefonemas que recebia na RTP, talvez um bocadinho menos.

– Saiu da RTP por pressões?

– Saí porque estava farto. De tudo! Da hipocrisia, das “bocas” nos jornais, do imobilismo que impedia a estação de se reestruturar e evitar chegar ao ponto onde chegou. Lembro-me de, numa reunião com um Conselho de Administração, dizer que precisávamos reduzir a empresa em 800 pessoas. Chamaram-me maluco! Trabalhava na RTP com um número restrito de pessoas, mas a empresa tinha cerca de 2300. E, a partir desse momento, interiorizei que tinha de sair.

– Colocaram agora em prática essa sua ideia de redução.

– Mas não era preciso fazê-lo de forma tão dolorosa, nem com tanto espavento. Devia ter sido feito com calma e cuidado. Acho que os diversos poderes políticos, independentemente da cor, nunca tiveram coragem para intervir. Porque todos achavam que podiam interferir na RTP.

– Acha que o caminho agora seguido é o certo para a RTP?

– Alguma coisa tem de ser feita. Ainda há pouco alguém me disse, e vou utilizar esses mesmos dados mesmo sem saber se são verdadeiros, que a RTP tinha cerca de 25 milhões de contos para fazer Programação este ano. Se for verdade, acho escandaloso. Espero que não seja, porque seria uma concorrência desleal muito acentuada.

– Qual é o orçamento da TVI?

– Para a Programação, não chega a metade.

– E para a Informação?

– Os nossos custos são quase fixos nessa área, apenas com deslocações e pessoal. Sei quanto me custa a minha Informação ao longo do ano inteiro. O ano passado cumprimos à risca o nosso orçamento.

– Menos de 50% que o da RTP e da SIC. Mas não me estou a queixar dos meus orçamentos. Acho que são ajustados àquilo que é a realidade de uma estação de televisão num País com o nosso, ainda para mais num período de recessão. Mas claro que gostava de ter mais...

– Os tais 25 milhões...

– Não precisava de tanto. Com mais um milhão de contos era líder todos os dias. Não tenho a mínima dúvida.

– A TVI deu lucros, apesar da tão propalada crise e dos pedidos de ajuda ao Governo...

– Felizmente que esta estação de televisão é rentável há vários anos. As outras não poderão dizer o mesmo. Isto é um negócio. A partir daqui, havendo uma correspondência da nossa actividade com aquilo que a lei estabelece, e desde que os códigos éticos e morais pelos quais nos regemos sejam observados, temos toda a liberdade.

– Tem fama de esbanjador...

– [Ri abertamente] Uma fama que alguém me tentou colar na RTP. Mas aquilo que tenho feito na TVI demonstra precisamente o contrário. Afirmarem coisas dessas a meu respeito é manifestamente não me conhecerem.

– Qual foi o seu primeiro orçamento na TVI?

– Cerca de 3,5 milhões de contos.

– Mas só o “Big Brother” custaria, depois, um milhão de contos?

– Cerca disso. Mas tivemos todos uma reunião para tentar perceber onde é que íamos arranjar o dinheiro. O “Big Brother” foi fantástico para nós, porque foi a persiana que abriu a janela, para todos verem o que tínhamos dentro de casa.

– Deve muito a esse formato...

– Precisávamos de alguma coisa que sacudisse as pessoas, que percebessem que não eram só dois, mas três os operadores. Tive a noção de que podia atrair as pessoas. Hoje já é um programa de culto.

– E a ficção nacional, é cara?

– Sim, muito cara. Um investimento brutal. Mas vai manter-se, é uma das linhas mestras de actuação da TVI.

– É uma das suas armas de contraprogramação...

– Eu já na RTP... não fica bem estar a dizer isto agora, mas fui acusado de fazer uma contraprogramação selvagem. É redondamente mentira. De tempos a tempos, quando havia futebol na concorrência, em vez de um episódio de novela, metia dois. Quando falavam de contraprogramação era para justificar os

insucessos

– Lembra-se do primeiro dia como líder de audiências?

– Houve outro momento mais importante. Estava em casa da minha sogra, em Santa Cruz, num sábado e recebi um telefonema a dar conta das audiências, a dizer que a TVI tinha ficado em segundo lugar. Foi a primeira vez que a TVI não foi terceira. No dia seguinte saiu na primeira página de um jornal, com a minha fotografia, que a minha sogra emoldurou e me ofereceu [Sorri]... Foi quando emitimos a “Colina do Sol” [programa sobre nudismo].

– Está sempre a pensar na liderança?

– Acho que não é fundamental que sejamos líderes. Hoje todos se esfarrapam por mais meio ponto. Sei que temos uma enorme responsabilidade em relação às pessoas que nos vêem, em relação aos nossos accionistas e para com os trabalhadores da estação. Não quero que aconteça na TVI o que aconteceu noutra estação de televisão. Todos sabem que gosto de trabalhar com equipas pequenas, porque é tudo muito mais operacional e porque assim tenho a certeza de que é possível proteger o emprego dessas pessoas. E se quero que isso aconteça tenho de ter os accionistas satisfeitos, proporcionando-lhes resultados. Para isso tenho de ter felizes os espectadores. Por tudo isto, têm todos de acreditar que estou de boa fé.

– Só diz isso porque é líder...

– Cheguei a dizer, quando a TVI era pequena, que tínhamos um mercado desequilibrado. O mais normal seria uma divisão a três: 33% para cada um. Qual é o drama? Lido bem com a posição de desafiador. Adoro. Na vida, o bom é conquistar coisas, não é defendê-las. Claro que cada um tem de viver com o que o mercado lhe garante, excluindo a RTP que tem apoios que os outros não têm.

– Como para o futebol, que gera audiências?

– Estão todos hipersensíveis às audiências e esquecem outros critérios. Só a televisão do Estado é que se pode dar a certos luxos. Não compro jogos de futebol porque não tenho dinheiro para isso. Não pagamos qualquer preço para

ter audiências.

– Porquê os sucessivos adiamentos da entrada da TVI no cabo?

– Estamos a trabalhar nisso e o canal de Economia vai arrancar rapidamente. Se estivesse na RTP já estava no ar, porque o dinheiro já tinha aparecido de algum lado. Mas como estou na TVI, onde contamos os tostões, temos estado a trabalhar em vários cenários de custos.

– Continua a criticar a falta de apoio à TVI?

– Se tivesse da TV Cabo o que eles pagam pela SIC Notícias, não fazia um canal, fazia três.

– Mas quis um TVI Notícias...

– Quis, pensei nisso. Mas não temos disponibilidade no cabo e o cabo não quis que nós o fizéssemos.

– Qual é a sua opinião sobre a transformação do canal 2 no canal sociedade, entregue à sociedade civil?

– Não posso achar nada, porque não sei o que isso é. Confesso. É uma ideia tão surpreendente! Não sei como se faz. Pagamos todos para ver.

– Preferia a privatização?

– Isso não. Não há condições para que haja uma privatização do canal 2. O País é demasiado pequeno. O Governo, ao decidir não avançar para a privatização, fê-lo depois de analisar bem toda a situação, embora a mim ninguém me tivesse pedido opinião.

– O Governo decidiu também dar um maior bolo de publicidade aos privados... Isso já agradou?

-- Seria ridículo dizer que a opção do Governo é má para os operadores privados. Mas com a situação de crise que o mercado atravessa, e com os problemas gravíssimos que os operadores privados têm, nomeadamente um deles, era necessário fazer alguma coisa. O mínimo, para as privadas não irem para mãos estrangeiras, era dar alguma força a grupos económicos portugueses.

(Continua …)

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