Viveram-se momentos de grande tensão quando a urna que transportava o corpo de Francisco entrou no pequeno cemitério de Runa. A cerimónia era reservada a familiares e amigos, mas o povo da freguesia de Torres Vedras e os muitos jovens, que de vários pontos do País marcaram presença no adeus a ‘Dino’, tentaram forçar a entrada.
Uma verdadeira loucura, que poderia ter terminado em tragédia, tal a pressão de encontro ao portão entreaberto.
Os seguranças e a GNR lá iam afastando os fãs do actor como podiam, mas a tarefa não foi fácil. Só respiraram de alívio quando as grades se fecharam. José Eduardo Moniz, director-geral da TVI, foi um dos alvos da ira de alguns populares quando abandonou o recinto: “É bom que a TVI mostre ao País esta discriminação.” “O Francisco é nosso”. “Isto é uma vergonha. Por que é que não está ninguém de Runa lá dentro?”, ouviu-se entre os populares. José Eduardo Moniz lá foi dizendo que não tinha nada a ver com o que se estava a passar, mas os protestos não pararam. Pouco depois do corpo do jovem descer à terra, imperou o bom senso e os populares, que assistiram à cerimónia como podiam – ora saltando para cima do muro do cemitério, ora ocupando uma encosta fronteira –, lá tiveram autorização para, de forma ordeira, se despedirem de Francisco.
A romaria a Runa começou cedo. Ao longo da estrada de acesso à localidade milhares de jovens, com os livros debaixo dos braços, serpenteavam por entre uma imensa fila de carros em direcção ao centro da freguesia. Muitos foram de comboio, outros de camioneta. Outros, os mais velhinhos, em viatura própria, acompanhados por colegas de turma. Havia gente de Norte a Sul do País. A maioria faltou às aulas. Alguns confessaram que não disseram nada aos pais e que iam pensar numa desculpa quando chegassem a casa.
Uma hora antes da Missa de Corpo Presente, celebrada pelo padre Silva, pároco de Runa, já não cabia ninguém na Igreja de São João Baptista.
O adro também depressa se encheu, bem como toda a zona circundante. A própria estrada que atravessa a vila acabou por ser cortada ao trânsito. A missa, onde o sacerdote pediu “paz eterna para o Francisco”, durou cerca de uma hora e terminou com uma imensa salva de palmas dos presentes, que se estendeu a quem aguardava a urna da parte de fora do templo.
O cortejo fúnebre arrancou por volta das cinco da tarde, em direcção ao cemitério de Runa. Um mar de gente seguiu atrás dos três carros funerários – dois transportavam coroas e ramos de flores, o último a urna do actor de ‘Morangos com Açúcar’. Uns rezavam, outros, comovidos, caminhavam em silêncio, de lágrimas nos olhos.
Todo o elenco da série ‘Morangos com Açúcar’ esteve presente, integrando o cortejo. Os fãs mais novos exibiam posters de ‘Dino’. Quase todos levavam flores, ramos de rosas ou margaridas.
A encosta fronteira ao cemitério já estava apinhada de gente quando os carros funerários entraram. Com eles, familiares e amigos.
A cerimónia foi breve, mas sentida. A urna desceu à terra, repetindo-se o aplauso que marcou o início do enterro, mas agora com mais força.
Desfeitos em lágrimas, familiares e amigos de Francisco foram abandonando o cemitério, à medida que a multidão aguardava, ordeiramente, a sua vez para o último adeus ao ‘Dino’, que encontrou a morte na Estrada Nacional 118, em Alcochete, na madrugada de domingo, ao volante da sua viatura.
'HELI' GERA IRRITAÇÃO
O cortejo fúnebre entre a igreja e o cemitério de Runa ficou marcado pelo ruído ensurdecedor do helicóptero da TVI, que irritou muitos dos presentes que seguiam, em oração, atrás dos carros funerários. Felizmente, talvez por ordem de alguém, o helicóptero abandonou o céu de Runa quando o cortejo chegou ao cemitério, devolvendo a tranquilidade que todos pediam. O ‘heli’ foi um dois meios utilizados pela TVI para a cobertura do acontecimento, em directo. Às imagens aéreas juntaram-se as de oito câmaras: duas no interior da igreja e as restantes distribuídas pelos locais por onde passou o cortejo até chegar ao cemitério, local vedado à recolha de imagens, conforme estabelecera a junta de freguesia.
AS AUDIÊNCIAS DA TVI
ww A edição nocturna de ‘Morangos com Açúcar III’, emitida às 21h11, foi anteontem o programa mais visto nas televisões generalistas, com mais de 1,7 milhões de espectadores. À tarde, a novela juvenil captou as atenções de 1,2 milhões de espectadores, o que lhe garantiu o quarto lugar do ‘ranking’. Os espaços noticiosos da TVI que incluíram várias peças relativas à morte do actor Francisco Adam também estiveram em destaque, posicionando-se entre os seis primeiros lugares da tabela. O ‘Jornal Nacional’ e o ‘Jornal da Uma’ foram seguidos, respectivamente, por 1,5 e 0,9 milhões de pessoas.
HÁ QUEM GANHE 2000 EUROS/MÊS
Os ordenados dos actores que participam na novela juvenil da TVI oscilam entre os 1000 e os 2000 euros por mês. Há, de acordo com as nossas fontes, uma disparidade nos vencimentos, podendo adiantar-se que os valores médios oscilam entre os 1000 e os 1750 euros. Tais valores referem-se, tão-só, aos actores que trabalham regularmente no formato. São muito poucos aqueles que atingem o topo da tabela, ou seja, os 2000 euros. Ainda segundo as nossas fontes, eram esses os montantes que se praticavam na anterior série, não sendo previsível que na actual, a terceira, tenham ocorrido aumentos. Os jovens com participações especiais em ‘Morangos com Açúcar’, esses, recebem outro tipo de retribuição, isto é, em função do número de vezes que são chamados a colaborar. Por outro lado, apurou o CM, os responsáveis pelos textos da telenovela, os guionistas da Casa da Criação, auferem um ordenado mensal que rondará os dois mil euros.
'CONTINUAS A SER O NOSSO IRMÃO'
Filipe Viegas, de 21 anos, ia no carro com Francisco Adam quando o trágico acidente ocorreu. Ontem, após o final da missa, ainda dentro da igreja, leu uma pequena declaração: “Bom dia a todos, especialmente aos familiares e amigos mais próximos do nosso querido amigo Francisco. É difícil esquecer a imagem dele dentro do carro, mas aqui, perante todos, digo que tudo fiz para o salvar. O que resta, agora, é lembrar os momentos alegres que passámos com ele, aquele sorriso, aqueles olhos azuis sempre a brilhar, aquelas palavras que ele sempre me soube dizer. Continuas a ser o nosso irmão e vamos estar sempre contigo. Adoro-te, miúdo!”
A saída da urna da igreja para o cemitério, acompanhada de palmas, constituiu o primeiro momento de grande emoção na tarde de ontem. Muitos colocaram flores na urna, outros tudo fizeram para lhe tocar.
Milhares de pes-soas percorreram o trajecto entre a Igreja de São João Baptista e o cemitério de Runa, no último adeus a Francisco. Uma caminhada lenta, cumprida em silêncio, debaixo de um sol acolhedor.
A entrada no pequeno cemitério de Runa foi um caos. De tal forma que nem todos os colegas do actor conseguiram entrar. José Eduardo Moniz conseguiu atravessar o portão. À saída ouviu protestos.
CAFÉ O ROQUE
O Café-Restaurante - O Roque, situado em frente à Igreja de Runa, foi o local escolhido por todos aqueles que não conseguiram entrar no templo para assistir à Missa de Corpo Presente. Com a televisão ligada, os fãs de Francisco Adam, que matavam a sede com água e refrigerantes, puderam acompanhar as cerimónias até ao fim, abandonando o café quando a urna saiu para o adro.
INCÓMODO
O mediatismo dado à cerimónia – grande número de câmaras, repórteres fotográficos e jornalistas presentes – incomodou alguns familiares e amigos, sobretudo actores da série juvenil da TVI, ‘Morangos com Açúcar’. Se, por um lado, compreendem a atenção dada ao acontecimento, por outro preferiam uma enterro mais discreto e tranquilo.
‘LEÃO’ ENTUSIASTA
Francisco Adam era um ‘leão’ entusiasta, como confessou ao CM Maurício do Vale, das relações públicas do Sporting. O malogrado actor, recorde-se, participou em algumas iniciativas ‘leoninas’, nomeadamente no ‘videoclip’ alusivo ao Centenário. Por essa razão, o clube também se associou às homenagens a ‘Dino’, fazendo-se representar no velório por Maurício do Vale e Nélson, guarda--redes da equipa profissional de futebol, ‘verde-e-branca’. Ao funeral associaram-se o responsável das relações públicas e Ernesto Ferreira Silva, presidente do Conselho Fiscal do clube e do Centenário.
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