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Vencedora Prémio Mário Soares alerta para jornalismo refém do financeiro e do autoritarismo

Prémio tem como objetivo distinguir atividades ou trabalhos centrados nos valores defendidos pelo antigo primeiro-ministro e chefe de Estado.

26 de fevereiro de 2026 às 13:56

A jornalista Sofia Craveiro, vencedora da primeira edição do "Prémio Mário Soares, Liberdade e Democracia", alertou esta quinta-feira, no parlamento, para riscos de um jornalismo exercido de forma precária, refém de interesses financeiros e de fenómenos autoritários.

Estes avisos foram transmitidos pela jornalista após receber o prémio que lhe foi entregue pelo presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e pela presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais, a deputada social-democrata Paula Cardoso, em representação do júri.

Sofia Craveiro foi distinguida pela sua série de artigos, publicados na plataforma "Gerador", intitulados "Arquivos de Media - Memória Sem Garantia de Preservação" -- um trabalho concluído após dois anos de investigação.

No seu discurso, que foi aplaudido de pé, Sofia Craveiro afirmou que se faz jornalismo "num contexto em que a profissão continua a ser precária, desvalorizada e desacreditada".

"Peço-vos, senhores deputados e deputadas, eleitos pelo povo, que façam o que está a vosso alcance para mudar isto. O jornalismo não pode continuar refém dos interesses financeiros, dos cliques, dos likes, dos insultos e das tentativas de intimidação autoritária. Não pode continuar refém da concorrência desleal e da desinformação propagada diariamente e ativamente pelos inimigos da democracia", declarou.

A jornalista defendeu, depois, que é preciso criar urgentemente estruturas independentes de financiamento público.

Com um cravo vermelho na lapela, Sofia Craveiro disse que essa flor honra a memória de famílias como a sua, "famílias de operárias e operários de lanifícios, em Unhais da Serra, no concelho da Covilhã".

"Foi onde cresci e onde à mesa se dividiam sardinhas pelos filhos esfomeados. Este cravo honra a memória das mulheres que lavavam no rio. Mulheres que lavavam as camisas de flanela dos maridos agricultores e as fraldas de pano dos filhos que chegavam sem aviso", referiu, visivelmente comovida.

Segundo Sofia Craveiro, foi graças a tudo o que representa esse cravo de Abril que exerce atualmente a profissão de jornalista e que lhe permitiu agora estar no parlamento a receber um prémio.

"Jamais uma mulher da província, filha, neta, sobrinha de operários, poderia chegar até aqui sem as mudanças que Abril impulsionou. Preservar a memória coletiva é lembrar as vezes que forem necessárias que o passado que alguns insistem em glorificar foi fome, violência e opressão", acrescentou.

Deixou ainda um apelo aos deputados que escutavam o seu discurso: "Garantam que o jornalismo digital fica para a posteridade; garantam que no futuro ninguém poderá reescrever a História com a simples alteração de uma data ou uma vírgula numa página web".

"Este cenário deixou há muito de estar nos livros de George Orwell e é cada vez mais uma realidade que nos vemos forçados a enfrentar", frisou.

Criado no ano passado pelo presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, o prémio tem como objetivo distinguir atividades ou trabalhos centrados nos valores defendidos pelo antigo primeiro-ministro (1976/1978 e 1983/1985) e chefe de Estado (1986/1996).

No valor de 25 mil euros, o prémio é atribuído pelo presidente da Assembleia da República, mediante proposta do júri, que funciona junto da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. O júri é constituído por um deputado de cada Grupo Parlamentar, representantes da academia e da Fundação Mário Soares.

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