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MICRONOVELA

Refúgio Proibido Um refúgio. Dois corações. Mil segredos.

Virgílio Castelo "O que faz o sucesso do ator? Sorte"

Virgílio Castelo fala ao

28 de julho de 2014 às 00:13

Está a fazer ‘Mulheres’, a fazer de Hélder, um cabelereiro homossexual. Como estão a correr as gravações?

Muito bem. O ambiente do cabeleireiro, embora seja difícil de filmar, porque tem muita ação, muito movimento…

Aprendeu a mexer em cabelos?

Sim. Andei em alguns cabeleireiros e exercitei com as minhas filhas pequeninas. Mas não me preocupei em saber cortar ou pentear. Preocupei-me em dar a impressão de que sabia fazê-lo, que é diferente. Só cortei o cabelo à Sofia [Alves] numa cena específica.

Ela não teve medo?

Não. Também, a cena estava protegida. O cabelo que cortei estava previamente preparado para que, se alguma coisa corresse mal, as coisas podiam ser corrigidas.

Já não é a primeira vez que faz um homossexual… Fê-lo no teatro, na peça ‘O Camareiro’. É difícil?

Não. O que é difícil, em qualquer papel, é encontrar um estado de verdade. Mesmo uma caricatura tem de ser verdadeira, verosímil. Isso é o mais difícil. Nestes papéis, que exigem comportamentos mais específicos, a dificuldade é encontrar a dosagem mais correta, mas não ser nem a mais nem a menos.

Tem recebido comentários ao seu trabalho?

Vários. Muito simpáticos, mesmo. Quando começaram os ensaios, comecei logo a perceber, pelas reações dos meus colegas, que estava no bom caminho. Fiz logo o meu balanço. Não senti necessidade de nenhum acompanhamento específico.

Com tantos anos de carreira, o gosto de representar continua a ser o mesmo?

O que é entusiasmante, como no princípio, é quando me acontecem personagens destas. É muito raro, sobretudo em televisão, conseguirmos fazer coisas diferentes. E não é só em Portugal. É uma condição inerente à indústria. Somos todos mais ou menos contratados para fazer, mais ou menos, o mesmo papel. Cada vez que surge uma personagem fora dos cânones, é como se voltasse ao princípio. Gosto muito disso. Não faço grandes reflexões antes de aceitar os papéis. Gosto imenso do risco.

Ao longo dos anos, mudou a forma como trabalha?

Mudei, mas não foi ultimamente. Depois de ter vindo de Estrasburgo. Estreei-me na Revista à Portuguesa, e o teatro de Revista exige-nos a construção de desenhos. De bonecos. Estive três anos nisso, antes de passar para a Cornucópia, que é o oposto. A seguir, com uma bolsa da Gulbenkian, fui estudar para Estrasburgo, para uma escola de linha mais interiorizada, cujos professores nos incentivavam a procurar não a eficácia, mas a originalidade.

A escola mudou a sua forma de abordar as personagens?

Quando cheguei à escola, como já sabia fazer algumas coisas, disseram-me que eu não representava personagens, mas sim o resultado que eu queria que as persoangens tivessem. Tive de desaprender a fazer bonecos e a aprender a fazer o processo de interiorização. Aí, no princípio dos anos 80, encontrei aquilo que ainda hoje é a minha maneira de representar. Sou um ator extremamente cerebral durante as primeiras horas, ou dias, de trabalho. Tenho de compreender, do ponto de vista racional, tudo o que aquela personagem é ou pode ser. E depois, adquiri, com o tempo, uma técnica em que começo a improvisar, à procura da personagem, até ao ponto em que já não há nada de racional no que faço e me atiro de cabeça ao trabalho. Só quando perco as defesas todas é que a personagem funciona.

E esse método aplica-o quer ao teatro quer à televisão?

Sim. Mas na televisão tenho uma sub-técnica. Depois de saber o que o realizador quer, faço como no ténis: o primeiro serviço do tenista, é com toda a força. Às vezes vai fora, outras vai à rede. À segunda, já não faz aquilo de forma instintiva. A minha primeira interpretação é sempre instintiva. Depois do realizador dizer o que quer, a primeira vez que faço uma cena, jogo para o ‘ace’. Se o realizador não gosta, mudo e faço dentro do parâmetro.

Sempre pensou ser ator?

De todo. Fui ator por acaso. A minha primeira aproximação à profissão aconteceu porque tinha sido modelo dos 19 aos 21 anos. E como conhecia a Helena Isabel, que também era modelo e já era atriz, fui parar ao teatro. De tal forma que só fui fazer o curso depois de já ser profissional. Fui estudar porque tinha dúvidas se aquilo seria mesmo a minha vida.

E como foi parar ao mundo da moda?

Para ganhar dinheiro. Nessa altura fazia estudos de mercado. Andava de porta em porta a perguntar às pessoas se usavam margarinas e detergentes, e vi um anúncio a pedir rapazes altos. Eu, para a época, era relativamente alto. Hoje em dia já sou praticamente um anão. Fui. Para ganhar mais dinheiro ao fim do mês. Nunca achei o mundo da moda particularmente interessante.

Foi consultor da direção de programas na SIC, e foi diretor geral da NBP, agora Plural, quando a TVI começou a fazer novelas. Foi uma experiência enriquecedora?

Acho que ajudei a TVI, de 1999 a 2002, a definir a sua personalidade na ficção e, depois, a SIC, de 2008 a 2011, a encontrar a sua identidade. Também na ficção. A minha contribuição para a SIC aconteceu até à chegada da Globo.

Porque cessaram essas funções?

Porque tenho um prazo de validade. Considerei aquilo como uma missão militar. Durante um tempo, estive mobilizado para desempenhar aquelas funções. Mas a minha essência é ser ator. O que fiz, e poderei voltar a fazer, fi-lo em momentos em que achei que podia contribuir. E outros lembraram-se de me convidar…

O que aprendeu?

Como ator, aprende-se imenso. Desde a primeira ideia até ao último episódio, passa-se por tudo. Quando voltei ao trabalho como ator, depois disto, o que eu tinha no meu computador interno, para trabalhar, era um mundo. Ia para o plateau e sabia de tudo. Era como se tivesse ficado a representar com uma visão de 360 graus.

O que pode levar uma telenovela ao sucesso?

Não sei. Ninguém sabe. Senão, só fazíamos novelas de sucesso. Perceber que uma novela está a correr mal, não é difícil. Difícil é contornar a situação. Decidir o que fazer para captar determinada classe, determinado tipo de público. O que ponho na novela para interessar as pessoas que não estão a pegar nela? Qualquer estação que faça novelas, sabe qual é o tipo de público que a vê, e qual o que não a vê.

E o que faz o sucesso de um ator?

Respondo-lhe com as palavras da Eunice Muñoz, que numaa entrevista disse que um ator pode trabalhar muito, ter muito talento, ser muito aplicado, ser muito regrado, disciplinado… Tudo o que são características de trabalho em qualquer profissão, para se ter sucesso. Mas há uma coisa, na profissão de ator, que ninguém sabe explicar. Chama-se sorte. É do plano do misterioso. Há atores fantásticos que não chegam ao público. E há o contrário: atores que são pouco interessantes e que chegam ao público com uma facilidade enorme. O que faz o sucesso do ator? Sorte. A perseverança também ajuda.

Recentemente regressou à escrita, com o livro ‘Despedida de Casado’. Quanto tempo levou a escrevê-lo?

Muito tempo. O anterior tinha levado menos. Este foi mais complicado porque não consegui a disciplina que tinha tido no anterior. O livro anterior escrevi-o entre as seis e as oito da manhã. Levantava-me mais cedo, para ter sossego para escrever. Quando foi do segundo já tinha mais uma filha, já não houve tanta capacidade… Devo ter levado quatro anos a escrever o livro. Enquanto o outro escrevi-o num ano.

Os seus relacionamentos influenciaram a escrita deste livro?

Todos os livros são autobiográficos, e nenhum é. Mas a maneira de ser autobiográfico varia muito. Há coisas neste livro que foram vividas por mim, há coisas vividas por pessoas muito próximas de mim, há coisas que ouvi contar, há coisas que li… O livro começa com uma notícia de jornal. Uma notícia que li há muitos anos, num jornal francês, de um casal que tinha chocado no carro um do outro, matando-se assim, ambos vestindo roupa interior. Achei uma notícia extraordinária. Isto foi há 20 e tal anos. E quando quis escrever sobre o amor, lembrei-me dessa notícia. É assim que o livro começa.

Já escrevia antes de representar?

Curiosamente sim e isso é algo que tenho de compreender. Porque escrevia antes de representar? Se há um destino que seguimos, tenho de perceber o que me aconteceu. Embora sempre tenha escrito poesia – dos 19 aos 30, foi sobretudo isso que escrevi – e sempre achei que não valia a pena continuar porque a poesia não tem eco na sociedade moderna. E escrevo em soneto. Estou 400 anos atrasado, mas é assim que me saem. Agora, quanto mais velho estou, mais me interrogo sobre o significado de tudo isto.

E quanto à apresentação, que importância teve na sua carreira?

Muito importante. A apresentação foi uma vacina. Aos 40 anos, apresentei meia-dúzia de coisas. Apresentei o ‘Isto só Vídeo’ durante dois anos, que teve um êxito enorme, depois um concurso de misses… Tive muitos convites nessa altura para continuar a apresentar. Mas nessa altura, felizmente, houve um anjo que baixou, e que me disse para não aceitar. Foi das melhores decisões que tomei na vida. A tentação de ganhar muito dinheiro – por comparação com o que ganham os atores (e nessa altura os apresentadores ganhavam bastante dinheiro) – felizmente resisti-lhe. Alguns colegas meus caíram nessa armadilha. Vai-se apresentar programas, começa-se a ganhar muito dinheiro, começa-se a ter um nível de vida em função desse dinheiro… e depois nunca mais se pode ser ator. Como toda a gente, gostaria de ganhar mais dinheiro, mas acho que fiz bem em não aceitar.

Mas trouxe-lhe algumas mais valias?

A apresentação tem o seu mérito. Mas o trabalho de ator vai mais longe. Digamos que um apresentador de televisão faz companhia às pessoas. Os de maior êxito, são aqueles com quem as pessoas que estão em casa sentem maior cumplicidade. Mas é uma companhia de grau 1, que não solicita o espectador para nenhuma elevação. Não lhe pede para ir mais longe. O trabalho do ator obriga o espectador a pensar.

Como considera o seu trabalho no cinema?

Não tenho mágoa, já tive, mas hoje em dia já não tenho. A verdade é que foi um trabalho que me passou ao lado. E dos papéis que fiz, poucos foram exigentes do ponto de vista da representação. O cinema em Portugal, até há bem pouco tempo, não punha grandes desafios ao ator. Era um cinema de autor. Fiz um ou dois filmes em que a minha responsabilidade era grande. E tenho pena. Mas quanto mais velho fico, menos filmes farei, pela lei normal da indústria.

Cinema, teatro, televisão, escrita. Considera-se um homem dos sete ofícios?

São só quatro (risos). Tenho alguma inquietação. Não consigo estar sempre a fazer a mesma coisa, tenho de estar sempre a mudar… Todas as atividades têm duas razões: não consigo estar a fazer a mesma coisa durante muito tempo, e ser ator permite-me isso. Por outro lado, fazendo uma análise fria e objetiva do mercado, esse foi o caminho que me pareceu melhor. Quanto mais coisas fizer ou souber fazer, mais oportunidades tenho de pagar o colégio das minhas filhas.

Qual é a área de eleição?

O que gosto mais é de representar. Se bem que, depois de tantos anos a escrever poesia e com dois romances editados, começo a interrogar-me se não haverá um momento da minha vida em que não me sentirei mais inclinado para escrever do que para representar. Não sei.

Há algum trabalho que ainda sonhe fazer?

Há um, que é mesmo sonho. Dificilmente as condições do País mo permitirão, mas gostava muito de representar clássicos no teatro. Peças históricas. Shakespeare, Molière… Não há dinheiro, e há anos que não há dinheiro para isso. Em breve farei o Cyrano de Bergerac, mas é talvez o segundo ou terceiro que faço na minha carreira.

O que mudou na sua vida desde que se tornou uma figura pública?

Desde que me tornei um ator conhecido, aos 30 – na novela ‘As Origens’ – o que mudou foi o meu direito à timidez, que desapareceu. Sempre fui bicho do mato, metido comigo mesmo, mas se as pessoas vêm ter comigo não posso ficar no meu cantinho, a conversar com os meus botões. Isso mudou.

E que tipo de feedback recebe?

Depende. Há alturas em que me abordam muito, porque estou no ar, outras menos. Há abordagens bizarras. Quando fiz uma personagem horrível, na novela ‘Roseira Brava’, um malandro proxeneta, e na altura saía muito à noite, tinha um feedback estranhíssimo. As mulheres sentiam-se atraídas por aquele miserável, e os homens aplaudiam-me. Fiquei horripilado. Fez-me pensar muito. Hoje em dia, é uma relação mais cordial. À medida que os atores vão ficando mais velhos, tornam-se membros lá de casa. Deixam de mexer com os imaginários sexuais das pessoas.

Em 2011 foi escolhido pelo Biography Channel para um documentário. Como se sentiu?

Senti-me honrado, mas ao mesmo tempo, achei estranho. É uma espécie de análise da vida, feita como se já não estivéssemos cá… Não sei. Aquela pessoa sou eu, mas ao mesmo tempo, não é tudo o que sou. Foi simpático. É o reconhecimento de pessoas do meio. Não me senti maltratado. Aliás, sinto-me bem com a minha inserção na profissão. Não tenho qualquer razão de queixa. Outras pessoas podem queixar-se porque este é mesmo um País sem memória. Há pessoas que fizeram coisas importantes que foram logo esquecidas, porque apareceram novidades… Por exemplo, o Nicolau Breyner. Não se fala suficientemente da importância que ele teve para a ficção portuguesa. Se não fosse ele, não havia nada hoje. E a memória desse facto é tão ténue. Em 1982, fez, no ‘Eu Show Nico’, a novela ‘Moita Carrasco’. Se não fosse isso, não havia novelas portuguesas hoje.

Que trabalhos destaca, nestes 40 anos de trabalho?

A peça ‘A Rua’, que fiz em 1989. No Teatro Aberto. Marcou-me. ‘Vincent’, com o António Feio, sobre o Van Gogh. Há pouco tempo, ‘O Camareiro’, no Teatro Nacional. E talvez, também, ‘O Verdadeiro Oeste’, do Sam Shepard. São as coisas que fiz que considero mais importantes. Foram peças em que acabei por fazer aquilo que não sabia que sabia fazer. Os encenadores puseram-me a fazer coisas que eu não tinha nas gavetas. E fui obrigado a encontrá-las.

Com tanto trabalho, como gere o tempo com a família?

Não tem sido assim tão difícil, sobretudo nos últimos cinco anos. Há cinco anos decidi não voltar a fazer televisão e teatro ao mesmo tempo, porque comecei a sentir cansaço. Agora faço uma coisa ou outra. De um modo geral consigo gerir a minha vida pessoal. Também não tenho feito muitas novelas, como ator. Alguns papéis pequenos… Tenho tido a sorte de poder ir gerindo a minha agenda com alguma qualidade de vida.

Como é viver numa casa só de mulheres?

O universo feminino, para mim, é mais estimulante do que o masculino. Tenho algumas dificuldades com a simplicidade dos homens. A previsibilidade dos homens é uma coisa que me incomoda. Lido muito melhor com a imprevisibilidade das mulheres, que acho fantástico. Às vezes magoa, mas a ideia de nunca saber o que uma mulher vai fazer é extraordinária.

Ainda tem energia para as suas filhas?

Mesmo que não tivesse, elas obrigavam-me. Uma das vantagens de ser pai em velho é isto: não há hipótese. Sou obrigado a ficar novo.

Quais são os programas que costuma fazer com elas?

Agora descobrimos o Mercado da Ribeira. Todos os dias há programas no Mercado da Ribeiro. Mas temos muito que fazer. Andar de bicicleta, jogos… Enfim, aquilo que os pais fazem. Estar atento à mais velha, com a escola. Com a disciplina.

Costuma viajar?

Não costumo, por acaso. E isso tem a ver com a profissão. Raramente tenho oportunidade de planear férias a longo prazo, porque aparecem sempre convites. Ou teatro, ou televisão. Só cá dentro é mais fácil. Às vezes, duas semanas…

O que faz para descontrair?

Nada. Acho que perguntar isso aos actores, quase todos dirão o mesmo. A carga de fazer novela é tão desgastante. Estar num estúdio das oito da manhã à oito da noite… Quer dizer, no fim de semana o que apetece é ficar a jiboiar.

Considera-se um homem charmoso?

A maneira como nos vemos, nunca é a mesma de como os outros nos veem. Lembro-me de um companheiro que tive na escola, que me desenhou de perfil. Fiquei horrorizado. Nunca me tinha visto de perfil. A surpresa que tive naquela altura é a surpresa que tenho hoje, quando me dizem que sou isto ou aquilo. Não tenho a sensação de charme. O que os outros veem, é com eles.

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