Filho de António Zambujo lança primeiro disco de originais. Em entrevista à Vidas fala das principais influências, de timidez, de amores e desamores e da relação com o pai.
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Por acaso está a correr muito bem, porque eu tenho um bom background para perceber o que se faz do vosso lado (risos) uma vez que estudei comunicação social na Católica. Também eu cheguei a fazer entrevistas e acho que isso talvez me tenha dado alguma preparação.
Não. O meu curso foi de Comunicação Social e Cultural. Ainda estagiei numa empresa de assessoria de imprensa mas nunca exerci verdadeiramente. Decidi 'fugir' um pouco daquilo que podia ser uma habituação. Eu sou uma pessoa que tende a assentar facilmente e achei que se me visse ali a ganhar um salário, se calhar não avançava. E então fui trabalhar para um restaurante durante dois anos, o que me permitiu arrecadar para dar o salto para a música.
Os genes não enganam (risos).
Acho que isso é normal, ainda por cima Zambujo não é um nome muito vulgar. Se fosse Silva as pessoas ainda podiam ficar na dúvida. É verdade que há músicas minhas parecidas com as dele por conta das influências, mas também tenho canções bem diferentes. O 'Ferida Sarada', por exemplo, tem distorção máxima, porque também tenho essa faceta mais rock e não sei até que ponto o público médio do meu pai se levantaria e deixaria o concerto (risos). Espero é que a identidade da minha música fale mais forte do que o apelido.
Ele gostou muito. Diz que está muito orgulhoso.
(risos). Não sei. Há três pessoas a quem eu mostro sempre a minha música para ter a opinião deles: o meu pai, o meu tio e um amigo meu com quem comecei a tocar na casa de banho (risos). Sempre achei que eles seriam sinceros comigo, mas há pouco tempo ouvi o meu pai dizer que estava a pender mais para o lado emocional do que racional e se calhar vou tirá-lo dessa lista.
Este disco é um apanhado desde a minha primeira música, quando comecei a ter vontade de escrever, até agora. Na verdade o nome 'Vir a Ser' tem um bocadinho a ver com isto. Quis encontrar algo que tivesse a ver com uma metamorfose constante. É um disco que apanha várias fases da minha vida, que começa ali na adolescência, início da vida adulta e acaba agora nos 27. Portanto apanha vários estados de espírito meus. A primeira música que escrevi foi o 'Amor sem Nome', aos 17 anos e a última 'Outro lado Qualquer', foi agora.
A primeira música que escrevi aos 17 teve a ver com um desamor, mas curiosamente a última também (risos). Se formos a ver é uma narrativa circular, se calhar é um problema que sempre me irá consumir (risos). Mas isto é porque efetivamente o amor não tem idade. Acho que anda tudo muito à volta disso. O 'Aperto em Mim', por exemplo, tem a ver com a chegada à idade adulta, quando já trabalhava no restaurante, e a tentativa de alugar casa com a minha namorada. Foi depois de ir à manifestação sobre a habitação que nasceu essa música, que fala muito sobre um casal que se separa por causa desse problema.
Sim, se calhar são aqueles sobre os quais tenho mais timidez de contar às outras pessoas. Os outros consigo conversa-los, mas estes, como vou contendo, depois a única maneira é chutá-los para o papel a ver se me passam as dores do coração (risos).
Eu acho que não, até porque houve uma altura em que o meu pai não esteve muito presente. Foi quando veio para Lisboa à procura do sonho dele. A minha primeira influência acabou por ser o meu tio, irmão da minha mãe, que tinha uma banda e para a qual escrevia canções. Esta minha parte da composição vem muito dele. Vê-lo a tocar no quarto, a escrever no seu bloco e ver o entusiasmo com que falava de música, foi o que me motivou, até porque o meu pai compõe músicas, mas não escreve.
Sim. Eu vivi sempre em Beja até aos 18 anos e só me mudei para Lisboa quando vim para a faculdade. Ainda assim, a primeira música que publiquei foi já em Lisboa, na altura do Covid-19, quando o meu pai me desafiou a gravar uma música minha no disco dele. Acho que foi a partir daí que perdi a timidez. Até então fazia tudo em sigilo, só mostrava a uma ou duas pessoas. Não gostava muito de exteriorizar.
Eu não sei se houve propriamente um momento chave, porque eu sempre gostei de música e de cantar. Lembro-me do meu tio me dizer que a minha vida ia passar pela música de alguma forma. Aliás eu só fui para jornalismo para ter um plano B e para aliviar a minha mãe e o lado materno que era um bocadinho avesso a artistas (risos). Aliás, mesmo no curso, a ideia era vir a ser jornalista musical ou qualquer coisa relacionada com a cultura.
Eu não tenho daquelas histórias de ir para as tabernas em miúdo como o meu pai tem, mas lembro-me de um dia me porem a cantar em cima de um balcão em troca de um pacote de batatas fritas (risos).
Tenho feito concertos esporadicamente desde 2024 e têm corrido bem, apesar da timidez. Aliás, eu cheguei a estudar piano e desisti por causa das audições e ter que tocar para público. Mas acho que foi já em Lisboa, com um amigo, com quem fazia algumas jam sessions, que comecei a perceber que poderia transportar-me para outro sítio e abstrair-me do que estava à minha volta.
Eu gostava sobretudo de teatros e espaços menos barulhentos. Não me imagino a cantar em espaços exteriores com muito barulho à volta, com carrinhos de choque ou coisa parecida (risos).
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