Cantora lança novo disco 'Mundo Antena', um registo fruto de um processo de autoconhecimento. Leia a entrevista.
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No novo disco, a Ana Bacalhau assume-se finalmente como artista a solo em todas as suas vertentes, como cantora, autora e compositora. Porque é que levou tanto tempo?
Aprender a ser artista a solo leva tempo para que as coisas saiam bem feitas. Eu desconfio sempre do que é feito de forma apressada. Tive que amadurecer, perceber quem eu era como artista e criar um universo que fosse meu, que não fosse apenas emprestado dos Deolinda e por isso tinha de experimentar e perceber aquilo que queria e também o que não queria. Finalmente acho que cheguei a um sítio em que estou feliz com aquilo que encontrei.
Mas como é que foi esse processo de descoberta, foi pacifico?
Não, foi bastante doloroso. Houve sofrimento, muitas dúvidas e insegurança, mas sempre com a certeza de que havia de chegar a algum sítio. Eu sabia que tinha muitas coisas para dizer, tinha era que encontrar a forma mais próxima de mim para o dizer. Por isso, até considero que este é o meu primeiro disco. Agora sou eu finalmente a querer fazer algo já sem a preocupação se estou ou não a fazer algo parecido. Houve partes de mim que neguei para fazer o 'Além da Curta Imaginação' mas neste disco já não nego nada.
E quem é então esta Ana Bacalhau que ouvimos neste disco?
É uma Ana que continua a gostar de contar histórias, como já o tinha feito em Deolinda, e que o faz sem problema nenhum porque este também é território meu, é uma característica minha e é algo que faço com muito agrado, muito gozo e de forma muito instintiva.
Neste processo de descoberta da artista, o que é que descobriu também sobre si como pessoa?
Descobri que sou uma pessoa muito mais segura do que imaginava, e essa segurança acho que me foi muito dada pelo João Só que é o produtor do disco. Foi ele que me convenceu a pôr canções minhas neste disco. Eu continuo a ser intérprete, mas agora sou também uma autora que tem algo para dizer e que gosta de pensar em conceitos que liguem canções, no universo estético, na arte gráfica e no palco.
Esta sua capacidade de escrita já a conhecia ou também foi uma surpresa para si?
Quando eu comecei a tocar guitarra, ainda muito novinha, comecei logo a fazer canções, mas em inglês. Ou seja, eu sabia que conseguia fazer canções, mas não sabia se ia conseguir escrever num português que me agradasse. No primeiro disco tive uma canção minha, no segundo tive mais duas, e agora percebi que conseguia exprimir-me de uma forma que me satisfazia a mim.
E o trabalho de escrita é na base do 'partir pedra' ou é uma coisa mais natural e instintiva?
Depende. Há canções que têm que andar a ser mastigadas e outras que surgem muito rapidamente. Geralmente escrevo em casa, numa sala que dá para uma outra maior onde está a minha filha a brincar ou a ver desenhos animados aos altos berros (risos). Mas consigo perfeitamente estar na guitarra a tocar e a escrever. Não preciso de nenhuma bolha. Preciso às vezes só de umas portinhas corridas (risos). Mas não me importa de ter à minha volta o rebuliço da vida a acontecer. Já me surgiu uma ideia na banheira e quando isso acontece não se pode parar o processo criativo. A sorte é que hoje em dia o telemóvel ajuda muito, às vezes levo-o para a casa de banho e quando a ideia surge gravo logo.
E o que é que sente que a motiva a escrever, histórias do quotidiano ou coisas mais pessoais?
Acho que ambas as coisas. Eu gosto muito de escrever sobre vida rotineira, tipo Seinfeld, até porque não sou muito boa a escrever sobre as grandes questões da humanidade. Tudo o que é muito filosófico acaba por ficar muito denso numa música pop.
E o estilo da Ana Bacalhau é sempre o lado mais lúdico da música!
Sim, isso já é meu. As pessoas conhecem-me assim de Deolinda, mas eu já era assim.
E gosta de escrever sobre si?
Para que é que uma pessoa vai para artista se não podemos chorar um bocadinho sobre a nossa vida? (risos)
O título deste novo disco 'Mundo Antena' remete para a rádio. Qual é a sua relação com a rádio?
Tenho memórias muito importantes ligadas à rádio, como a descoberta de músicas que foram e são muito importantes na minha vida ou notícias que recebi através da rádio. Lembro-me muito pequenina de acordar a ouvir música, porque o meu pai tinha o rádio ligado ou de o escutar a ouvir os relatos de futebol aos domingos quando o Benfica jogava fora.
E estas novas gerações estão mais desligadas da rádio?
Sim e o mesmo se passa com a televisão, agora é tudo a la carte, a escolher programa a programa. Tudo o que seja uma emissão corrida e que não tenha a curadoria da própria pessoa, parece que já não interessa. Acho que todas as novas gerações correm o perigo de passar a viver numa bolha até porque não estão habituadas ao confronto de ideias.
A Ana Bacalhau tem uma dessas novas gerações em casa. A sua filha terá uns aos oito anos. De que forma a alerta para essas coisas?
Sim, tenho um desses exemplos em casa. A minha filha quando está a ver televisão ou vídeos no Youtube e entre publicidade, ela fica doida (risos). Não concebe se interrompida e ter que esperar vinte ou trinta segundos. O que eu tento incutir-lhe é a paciência e a espera. De vez em quando tenho conversas com ela sobre isso.
E ela gosta da música da mãe?
Sim, mas ela ainda é pequenina. Acho que quando for pré-adolescente vai odiar. Para já as amigas também gostam, mas depois vai ser diferente.
E ela vai ver concertos seus?
Vai ver alguns sobretudo quando são perto de casa, mas a verdade é que ainda não aguenta um concerto inteiro.
Passam praticamente 25 anos desde os Lupanar, projeto com que se estou na música, as coisas correram melhor do que esperava?
A Ana que 15 anos já sonhava com isto na boa. Eu não tinha pudor nenhum, mas com os Lupanar comecei a perceber que as coisas eram mais difíceis do que pareciam. Na altura tive dúvidas, mas hoje olhando para trás acho que as coisas correram melhor e de forma diferente do que tinha imaginado.
E o que é que acha que o público pensa de si?
As abordagens das pessoas são sempre muito simpáticas, mas eu não sei o que elas dizem sobre mim quando não estão comigo... e nem sei se quero saber (risos). Isso não me pode condicionar. Eu acho que o artista deve ter alguma ideia do que o público acha dele, mas não deve atender àquilo que o público quer dele. O problema que deve nortear o artista deve ser o dar algo de si e fazer as coisas como acha que devem ser feitas e entregar isso às pessoas.
E que "alguma ideia" é essa que a Ana tem sobre a opinião pública sobre si?
Eu sei que Deolinda ainda é um grupo muito importante na cabeça das pessoas e que o usam muitas vezes para me definirem. Mas acho que me vêem como uma pessoa muito solar, que usa muito o sorriso e a alegria.
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