Após dez anos com os Deolinda, a cantora lança-se a solo com ‘Nome próprio’, um álbum que gira em torno de si mesma.
Miguel Araújo, Jorge Cruz, Capicua, Márcia, Samuel Úria ou Nuno Prata foram alguns dos músicos que aceitaram escrever sobre a cantora que se até então estava habituada a dar voz às histórias dos outros, agora canta as suas próprias fragilidades, peculiaridades e defeitos. "Vida Nova é aquilo que mais quero", canta Ana Bacalhau.
Como é para si ver pela primeira vez o seu nome e sua fotografia na capa de um disco, sem estar associada aos Deolinda?
[risos] É de facto um pouco estranho, até porque nem com os Deolinda isso tinha acontecido. Nunca tivemos uma fotografia nossa nas capas dos discos. E é estranho porque, de facto, sempre estive habituada a estar na casa da Deolinda. Agora lanço-me aqui com o meu nomezito [risos]. E aproveito para lembrar uma vez mais que Bacalhau é o meu nome verdadeiro [risos]. Este, no fundo, é o concretizar de um sonho antigo, porque quando comecei a cantar eu queria era gravar um disco meu. Acho que é o sonho de quem canta.
E porque é que levou tanto tempo?
Porque a vida me levou por outros caminhos, nomeadamente para as bandas, primeiro com os Lupanar, depois passei ainda por uma banda de jazz e, finalmente, os Deolinda.
Mas sentiu sempre que fazer uma carreira a solo era uma inevitabilidade?
Não sei se alguma vez o senti como uma inevitabilidade. Senti-o, sim, como um desejo. Mas também sempre meti na cabeça que só faria um disco a solo se tivesse alguma coisa para dizer e se soubesse como dizê-lo, que criasse um mundo sonoro que ligasse todas as minhas influências. Eu não sabia era se alguma vez chegaria a esse nível de maturidade.
E quando é que sentiu que estava pronta?
Julgo que foi ali em 2013, quando fiz uns concertos a solo com versões de algumas canções que preencheram a minha vida. Aí sim, senti que talvez conseguisse fazer um disco a solo...
...para fugir da zona de conforto!
Sim. Foi isso mesmo que eu quis, sair da minha zona de conforto. Aliás, eu sempre fui um pouco assim. De cada vez que estou confortável na minha pele ou naquilo que estou a fazer tento colocar-me alguns desafios que me deixem desconfortável novamente.
Mas teve dúvidas?
Ainda tenho [risos].
E como é que se vence isso?
Não se vence. Utiliza-se isso como combustível. Eu uso muito os meus medos, as minhas inseguranças e as minhas dúvidas para avançar, sem medo de errar. Eu costumo dizer sempre que espero o melhor e preparo-me para o pior. É uma espécie de lema de vida.
E depois de dez anos com os Deolinda, como é que foi cantar pela primeira vez letras que não eram do Pedro?
[risos] Acabei por não sentir grande estranheza, porque na verdade a minha ideia para este disco era diferente. Quando comecei a falar com os autores para este disco, o que eu lhes disse é que nos Deolinda eu cantava histórias de outras pessoas e agora queria cantar- -me a mim. E todos eles souberam ler-me e refletir-me.
Entre os tais autores estão Jorge Cruz, Capicua, António Zambujo, Nuno Prata, Miguel Araújo e Márcia. Isto só podia dar em Bacalhau gourmet! Está aqui a nata da nata...
[Risos] É isso. Bacalhau com nata [risos].
Andou a bater às portas todas!
Sim, eu gosto muito de cantar as palavras dos outros e eu sabia muito bem quem é que queria convidar. Todas estas são pessoas que eu admiro muito. Todas elas faziam sentido. Eu tenho influências que vão da Amália aos Pearl Jam. Neste espaço cabe tudo e, por isso, decidi convidar músicos que também se movessem dentro deste universo e que de alguma forma me ajudassem a entrelaçar a música anglo-saxónica com a música de raiz portuguesa.
Portanto esta ‘malta’ foi toda ‘brifada’?
Exatamente. Na minha cabeça eu sempre imaginei algo entre Fausto e António Variações, com matizes de outras paragens. E tudo isto falando sobre mim, claro.
E eles acertaram sempre à primeira naquilo que queria?
Sim, acertaram logo. Só à Capicua, que tinha feito uma letra mais brincalhona, é que eu pedi que falasse também daquele episódio que eu já contei várias vezes quando era miúda e que era gozada por ser gordinha e por me chamar Bacalhau [risos]. E então ela acrescentou uma quadra a falar disso.
Há aqui algumas letras que são escritas por si. Sentiu essa obrigatoriedade de "este disco é meu, também tenho que escrever"?
Sim, fazia sentido. Se eu queria cantar-me a mim, então também não há ninguém que me conheça melhor do que eu mesma. E sim, acho que há ali conjuntos de palavras que só eu poderia escrever [risos].
Como por exemplo?
Olha, a expressão ‘só eu mais ninguém não’ é, por exemplo, da minha avó. O ‘menina rabina’, era o que me chamavam em criança. Mesmo a canção ‘Deixo-me ir’ só eu é que a podia escrever, porque só eu sei quando é que me deixo ir.
E quando é que se deixa ir?
Quando canto [risos]. Por isso fazia sentido escrever sobre a música e o canto como uma terapia.
E escrever sobre si foi tarefa fácil?
Sim. Eu quando comecei a cantar, cantava Nina Simone ou Janis Joplin, que são cantoras de peito aberto, que cantam as entranhas. E por isso eu também tinha que me expor. Isso era o meu normal. E, portanto, quem vem dessa escola já não tem problemas em cantar sobre si.
Não teme que as pessoas não a vejam descolada dos Deolinda?
A Deolinda é uma enorme parte de mim e se eu estou aqui hoje, à Deolinda o devo. Mas há outras partes de mim que não faz sentido mostrar naquele mundo estético e artístico da Deolinda. E foi disso que eu senti necessidade. Ou seja, conjuntamente à Ana que as pessoas conhecem, a do sorriso e da energia em palco, vou mostrar outras partes minhas. Por isso, espero que as pessoas que vão ver um concerto meu reconheçam a velha Ana, mas que também vejam outra parte minha.
Falava da ‘menina rabina’ que era em criança. Ainda há muita coisa dessa menina?
Sim. Essa menina não morreu, nem vai morrer nunca. Eu era muito nariz empinado, muito rebelde, e tinha muito aquela coisa de fazer o que me pediam precisamente para não fazer. Mas o tema da ‘Menina rabina’ também fala muito da menina que está à noite no quarto a sonhar e isso ainda tem muito a ver comigo. Eu ainda sonho muito acordada.
E essa menina já sabia que ia ser cantora?
Eu acho que só percebi isso quando descobri que tinha voz. Mas os meus pais só vieram a saber disso mais tarde.
Que idade tinha?
Já estava no secundário. Deve ter sido por volta do 10º ano.
E os seus pais não acharam graça!
Não, não acharam [risos]. Eles queriam que eu estudasse e que tirasse o curso. E eu lá lhes fiz essa vontade. Tirei Línguas e Literaturas. Foi um curso que me deu muito gozo e que acabou por me ajudar imenso para a música porque me deu muitas ferramentas para interpretar um texto. Só que depois de terminar o curso meti-me logo na primeira banda.
Entretanto a Ana Bacalhau foi mãe. A cantora também mudou?
Claro! A maternidade modifica tudo. O primeiro ensaio que tive para este disco já estava grávida. A minha filha Luz [cinco meses e meio] acompanhou-me desde o início deste disco e foi ela que me iluminou. A maternidade mudou muita coisa. Aquilo que podia ser uma fonte de insegurança e sofrimento passei a relativizar. Quando chego a casa e vejo o sorriso que ela me oferece, tudo passa.
E como é que ela reage à sua voz?
Epá! Foi uma das coisas maravilhosas que me aconteceu, porque eu até agora tinha um gato que odiava música [risos], que não gostava de me ouvir cantar nem de tocar. Curiosamente, uma das coisas que ela mais gosta de ouvir são os meus exercícios de voz, o meu aquecimento, quando estou para ali a fazer vocalizos [risos]. É a canção preferida dela.
"DEOLINDA NÃO ACABARAM"
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.