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Correio da Manhã

Cultura

A História do outro lado

“‘Marco Mazzola é esta figura, tutelar e acarinhada, ao ponto de agora se projectar para um disco em nome próprio. Pretensão? Nada de falsas ideias: este duplo CD, ‘MPB-ZZ, 30 Anos, 30 Sucessos’, é como uma biografia com a forma de canções.
2 de Janeiro de 2006 às 00:00
A História do outro lado
A História do outro lado FOTO: Jorge Paula
Antes de mais nada, é preciso distinguir o que se quer dizer no título de algo como ‘o outro lado da História’. Neste caso, tratar-se-ia de uma diferente perspectiva de análise, de um contraponto, de um exercício dialéctico. E, para falar com franqueza, não é nada tão pomposo nem tão académico que aqui nos traz, mas tão só dar conta em palavra escrita do talento, do instinto e da técnica de um homem que, nas últimas três décadas, ajudou a fazer os moldes onde se aconchega a melhor música popular do mundo (que me perdoem portugueses e irlandeses), que é a do Brasil.
Acontece que esse homem está – excepto nas ocasiões em que também é convocado na função de instrumentista – literalmente do outro lado. Do outro lado do vidro, na sala de comando, para lá da fronteira transparente que separa o músico ou o cantor do produtor, daquele que zela incansavelmente pela quimera da perfeição, por eliminar falhas, por melhorar pormenores, por corrigir até as abordagens de quem cria, mas não sozinho.
Marco Mazzola é esta figura, tutelar e acarinhada, ao ponto de agora se projectar para um disco em nome próprio. Pretensão? Nada de falsas ideias: este duplo CD, ‘MPB-ZZ, 30 Anos, 30 Sucessos’ é como uma biografia com a forma de canções (as tais 30, mais duas de bónus), em que os habituais depoimentos dos amigos dão lugar aos testemunhos dos cantores, duplas, duetos e grupos que devolvem a Mazzola os êxitos para que este os empurrou.
Ao mesmo tempo, como todas as boas biografias, viaja-se além do indivíduo, parte-se dele para um retrato colectivo, para uma radiografia dos factos, para um mapa dos caminhos da Música Popular Brasileira – se havia encruzilhada, lá estava Mazzola para resolver qual a direcção; se a estrada parecia acabar ali, lá estava Mazzola para desbravar o matagal dos obstáculos; se alguma vez se publicou um manual prático de condução sonora, é Mazzola quem dita e quem está ao volante.
Quanto ao recheio, independentemente do tempero do ‘chef’, diga-se que ele começa em 1974, com dois nomes de referência na ruptura, Rita Lee e Raul Seixas, para só fechar em 2005, com o carismático Martinho da Vila. Não faltam as intérpretes de luxo: Elis Regina sobre todas, Nana Caymmi logo a seguir, mas também Simone e Elba Ramalho, Adriana Calcanhotto e Ivete Sangalo. Os grandes pilares da MPB vão desfilando: Milton Nascimento (com honras de abertura para o emblemático ‘Caçador de Mim’), Chico Buarque, Gilberto Gil (foto) e Caetano Veloso. A geração da regeneração traz Zeca Baleiro e Chico César. Há lugar a regionalismos (como o de Alceu Valença) e modernismos (como o dos RPM). Há bizarros como Ney Matogrosso e Tetê Espíndola, dançantes como as Frenéticas ou a Banda Black Rio, ‘outsiders’ de culto como Jorge Ben Jor e Marina Lima, puros bossistas como Toquinho.
Chega e sobra para a celebração. Chega e sobra para ir abrindo as janelas que deixam ver a imensidão da música brasileira. Chega e sobra para que se agradeça, agora e sempre, a Marco Mazzola. Como? Ouvindo. Ouvindo sem parar.
TOCA A TODOS I
Nos tempos da sua estreia (1968) e nos que se seguiram, JOYCE era mais considerada como autora do que como cantora. Em 1980, com ‘Feminina’, essa disparidade começou a mudar. Com os discos dos últimos anos, publicados com regularidade correspondida pela qualidade, encontraram-se ‘as duas’. ‘Rio Bahia’, o mais recente, é especial: Dori Caymmi, filho de mestre Dorival, é parceiro eleito para a concretização de um clássico envolvente, com Bossa, samba e raízes baianas. Tudo o que há de melhor.
Voz cada vez mais suave, canções mais planantes (existe o pós-Bossa?), electrónica mais minguada e elegante, guitarras acústicas cada vez mais como faróis. Assim anda VINICIUS CANTUÁRIA, um dos exilados brasileiros que teima em marcar diferença pelo lado da beleza pura. ‘Silva’, agora chegado, é outra tangente à obra-prima. Como eram ‘Sol Na Cara’, ‘Tucumã’, ‘Horse and Fish’. Ouçam-se ‘The Bridge’, ‘Paraguai’, ‘A Felicidade’ e ‘Pena de Mim’ para abrir a porta. Depois, não podemos ignorar.
TOCA A TODOS II
Eis o homem, em todo o esplendor: maestro e compositor, cantor e multi-instrumentista, viajando pelo ‘suingue’ pelo ‘funky’ e pela ‘soul’, ED MOTTA regressa com novo manifesto da plena maturidade, o espantoso ‘Aystelum’ que, na linha de ‘Dwitza’ e de ‘Poptical’, escapa aos cânones da Música Brasileira para assumir estatuto mais acima, no firmamento dos que ultrapassam todas as fronteiras. Não é fácil encontrá-lo, mas o disco anda por aí. E é a melhor maneira de começar 2006 em puro êxtase.
Pelo Brasil, os JOTA QUEST até já têm disco novo (‘Até Onde Vai’, que se espera que venha pelo menos até Portugal…). Mas o que circula por cá e por agora é mesmo ‘Rio de Janeiro, 28/01/2005’, gravado ao vivo e capaz de percorrer – sem panaceias acústicas nem preconceitos de data – o melhor da carreira da banda, de ‘As Dores do Mundo’ a ‘Todas As Janelas’. O balanço não abranda, o que ajuda a prolongar o clima de festa. Um álbum de contraponto a ‘MTV Ao Vivo’. Para fãs e putativos dançarinos.
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