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Rapper atua dia 17 no Coliseu do porto e no dia seguinte no Coliseu de Lisboa.
O que está a preparar para estes concertos nos coliseus?
Estamos a preparar um espetáculo que vai misturar o disco ‘Para Sempre’ nas suas versões original e acústica, até porque há algumas músicas que ganharam uma emotividade diferente com os novos arranjos. E depois, além da minha banda, vou ter alguns convidados surpresa.
Sendo esta a primeira vez que vai ao Coliseu do Porto, já é, no entanto, um repetente no Coliseu de Lisboa. Subir àquelas que são as duas salas mais emblemática dos País, é também, uma vitória do hip-hop nacional?
Claro que isto é muito importante para o rap português, até como forma de instigar outros artistas a fazer o mesmo. Acho sinceramente que cada vez vai sendo mais possível, até porque as novas gerações estão a ouvir mais música portuguesa e rap português. Há uns anos isto era capaz de ser uma coisa impensável. Eu nem sei quantos rappers já fizeram Coliseus, mas não foram muitos.
O que acha que explica esta atenção que está a ser dada ao rap português? Será que assim como o fado, o hip-hop nacional também se soube abrir e misturar-se com outras sonoridades e artistas de outras áreas?
Acho que sim, mas não é uma coisa que me surpreenda. Se repararmos, isto é o que está a acontecer lá fora. Era um caminho natural. O rap sempre se misturou com muita coisa. As pessoas que não estão tanto por dentro do movimento hip-hop é que não sabem, mas há muito tempo que o rap se mistura com o pop, o r&b, com fado e muitos outros géneros. E acho que todos temos a ganhar com isso.
Mas esta coisa de tornar o hip-hop mais pop, se calhar não agrada todos. Há um certo preconceito por quem faz hip-hop que nunca vai acabar!
Sim, isso nunca vai acabar. Mas da mesma forma que temos de entender que o rap se tornou numa coisa mais mainstream, também temos de entender as pessoas que não querem seguir esse caminho e preferem manter o hip-hop como se fazia no início. Num e noutro caso, acho que se deve sempre salvaguardar a música.
Contra o quê?
Contra os objetivos comerciais e a visão de negócio. Geralmente, aí a música perde sempre e nunca vinga. Quando a música é feita com verdade, aí eu sou apologista de qualquer tipo de misturas.
Quer dizer que as recentes colaborações que fez, por exemplo, com o Seu Jorge ou mesmo com o António Zambujo não têm nada de estratégico, no sentido de tentar chegar a outros públicos?
Eu vou ser muito sincero. Essas colaborações aconteceram apenas pela música. É verdade que podiam ter uma intenção estratégica, até no caso do Seu Jorge, uma intenção de furar no Brasil, mas tudo aconteceu muito naturalmente. Quando estou em estúdio a fazer uma música, por exemplo, eu penso sempre no resultado final antes dela estar pronta: como é que eu gostaria de a ouvir! Como tenho noção das minhas limitações, sei que nunca conseguiria fazer um refrão como o das canções do Seu Jorge ou do António Zambujo. Eles foram as primeiras pessoas que me vieram à cabeça. Liguei-lhes e as coisas aconteceram.
Foi assim tão simples?
Sim. Acho é que quando os artistas são sérios, fazem música pela música. O Seu Jorge quando veio a Portugal para tocar no Meo Arena, estava com duas diretas em cima. Ainda assim conseguiu arranjar tempo para ir a estúdio ter comigo. Ouviu a música, gostou
e disse que queria entrar nela. O que é que ele ganhava em fazer uma música comigo?
Este dois temas, precisamente com o Seu Jorge e com o António Zambujo, têm uma temática muito ligada ao amor, às relações e às coisas do coração. O que é que isto diz sobre o Dengaz?
Geralmente falo sobre aquilo que estou a viver. A música do Seu Jorge escrevi quando as minhas filhas nasceram e a do António Zambujo fala da minha relação com a minha mulher na altura. Aquilo de que me apetece falar, eu falo. Para mim é muito mais fácil escrever sobre coisas reais e sobre sentimentos. Tenho uma música escrita para um amigo meu que está preso e nessa música não falo nos motivos pelos quais ele está preso, mas antes no que ele sente por estar naquela situação. E acho que são essas coisas que unem as pessoas, porque nós sentimos todos o mesmo.
Os cinco vídeos mais vistos do Dengaz somam quase 25 milhões de visualizações no YouTube. Que significado tem este número?
Olhando assim para os números claro que isso me deixa muito feliz, porque é o feedback que nós temos do alcance que as minhas músicas conseguem ter. Mas também acontece ter músicas que não têm grandes visualizações e depois têm uma reação enorme ao vivo. As visualizações não podem ser o único indicador.
Lançou a sua carreira a solo há apenas sete anos. As coisas correram melhor e mais rápido do que esperava?
Eu sempre esperei que isto acontecesse, mas para mim não foi tão rápido quanto as pessoas possam achar. Tem tudo a ver com perceção. Para chegar aqui tive de trabalhar muito e abdicar de muitas coisas. E conto com tudo o que fiz desde o início, desde as bandas das quais fiz parte até aos concertos quase vazios que demos. Mas todos eles foram momentos importantes para chegar onde cheguei.
Em 2013 já dizia que um dos seus grandes objetivos era ser reconhecido como um artista nacional mesmo sendo rapper. Acha que já lá chegou?
Acho que já consegui um bocadinho disso. Hoje em dia já consigo ser cabeça de cartaz em muitos festivais, ouço a minha música a passar em rádios mais mainstream e até tenho temas em novelas. Isso vale o que vale, claro, mas o que hoje vejo com agrado é que não tive de mudar a minha música para alcançar isto tudo.
Até que ponto o Dengaz é uma personagem criada pelo Luís Mendes?
É engraçado essa pergunta porque um dia destes estava a falar disso com a minha mulher. O Dengaz é a maneira que o Luís Mendes tem de se expressar e de dizer algumas coisas às pessoas, que de outra forma não seria possível. Os meus pais e a minha mulher ficaram a saber muitas das coisas que eu penso através da minha música. No dia a dia eu não me consigo expressar tão bem.
Mas é por timidez?
Acho que sim. Acho que a grande maioria dos artistas são tímidos e inseguros. A música foi a maneira que encontrei para falar das coisas que me incomodavam. Hoje em dia até acho que faço música mais verdadeira do que quando comecei.
Porquê?
Porque quando comecei falava mais daquilo que ouvia os outros falar. Hoje em dia já consigo falar mais daquilo que vivo.
Já falou das suas filhas. Que relação é que elas têm com as suas músicas?
Têm uma relação muito engraçada. Eu nem tinha noção de que elas gostavam tanto da minha música e, no entanto, têm quatro e dois anos. A mais pequenina ainda não tem tantas noções, mas é engraçado porque já tenta cantar quando ouve a mais velha. Elas até já cantam canções que ainda não saíram, mas que andam comigo no carro. Às vezes vou a inventar melodias e elas servem um bocadinho de barómetro, porque dizem logo se gostam ou não.
E depois destes coliseus, só pode vir o Meo Arena!
Epá! Não me deem cabo dos nervos (risos). Depois dos coliseus vem aí música nova. À frente logo se vê.
UM ENCANTO QUE VEM DE CRIANÇA
Diz que se encantou cedo pela música, ainda miúdo. O que é que ainda o encanta e o desencanta na música?
O que me continua a encantar é aquilo que a música me faz sentir e a capacidade que ela tem de me fazer expressar. Como costumo dizer, aquilo que digo em palco se calhar não consigo dizer nem no carro.
E surpreende-o a reação dos outros à música que faz?
O que mais prazer me dá são as mensagens que recebo a agradecer a música que faço porque de alguma forma ajudou esta ou aquela pessoa. Há jovens que me dizem que já os ajudei a passar momentos de depressão ou crises de ansiedade. E depois ainda fico muito contente quando ouço uma música minha a passar na rádio. Sinto-me como se fosse a primeira vez.
E o que é que menos gosta neste mundo da música?
O que menos gosto acho que é a parte do business e de todas as burocracias envolvidas.
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