O humorista Ricardo Araújo Pereira tem novo livro de crónicas, desta vez reúne aquelas que escreveu para o jornal brasileiro ‘Folha de São Paulo’.
Humorista, Ricardo Araújo Pereira tem posto nos últimos anos a profissão ao serviço da crónica. Depois do convite do jornal brasileiro ‘Folha de São Paulo’ para escrever semanalmente, as crónicas publicadas no outro lado do Atlântico chegam ao lado de cá com a publicação do livro ‘Estar Vivo Aleija’, uma edição da Tinta da China. Na primeira crónica, que dá nome ao livro, Araújo Pereira faz logo saber que "eu não tenho nada para dizer ao público brasileiro, mas não vale a pena o público brasileiro começar a sentir-se especial porque a verdade é que eu não tenho nada para dizer a ninguém". Talvez, não seja bem assim.
Ricardo Araújo Pereira quis responder a esta entrevista por email, desde os escritórios da sua editora onde estava para cumprir a obrigação do escritor - escrever autógrafos.
Porque é que estar vivo aleija?
Segundo me dizem, vamos todos morrer, o que me aborrece ligeiramente. Além disso, o Mundo é um lugar um bocado inóspito: umas vezes está muito frio, outras está muito quente, há tsunamis, doenças e muitos animais perigosos – a maior parte dos quais usa gravata. Por último, o Benfica falhou o pentacampeonato. Acho que não preciso de dizer mais nada.
Agostinho da Silva disse que "um brasileiro é um português à solta". Concorda?
Mesmo que não concordasse, não ia desdizer o professor. Mas atenção: aquela soltura toda tem alguns contrapontos. Sim senhor: festa, excessos, carnaval - mas depois é proibido fazer top less na praia.
Acha mesmo que não existe "pecado no lado de baixo do Equador", como escreveu e como canta Chico Buarque?Numa sociedade mais livre, sem a noção tão arreigada de pecado, pode fazer-se graça com tudo que ninguém se ofende, o que facilita a vida ao humorista? Ou antes pelo contrário, a noção que todos temos de pecado ajuda a tarefa do humorista?
Voto na segunda. A ideia de tabu é muito atraente para humoristas - e pessoas perversas em geral. Pelo contrário, pessoas sem sentido de humor têm uma paixão muito grande por proibições. Enfim, feitios.
Como surgiu a hipótese de escrever as crónicas no ‘Folha de São Paulo’?
Sem que se perceba bem como, Bárbara Bulhosa, editora da Tinta da China, arranjou maneira de eu ser convidado da FLIP, uma festa literária brasileira que decorre em Paraty. Deve ter pagado a alguém - e estou certo que, no futuro, uma fuga de emails irá revelar esse escândalo. Sucede que, ao que parece, alguém da Folha me ouviu a dizer baboseiras nesse dia, e foi na sequência desse feliz acaso que o convite surgiu.
Sente-se na obrigação de estar sempre a dizer baboseiras porque é isso que é esperado de si?
Não, é mesmo uma coisa que eu faço sem esforço. Na verdade, eu não faço ideia do que as pessoas esperam de mim.
Quais foram as razões pelas quais achou que devia aceitar o convite?
Foi por uma razão que tem norteado cada vez mais o meu comportamento, à medida que vou envelhecendo: porque era giro.
Hoje em dia parte substancial do seu trabalho é escrever crónicas. Nunca teve o bloqueio da ‘crónica em branco’?
Muitas vezes. Boa parte do trabalho de escrever crónicas é tentar perceber sobre que raio se há de escrever - sobretudo quando já se faz isto há bastante tempo. Felizmente, a crónica é um género que perdoa pormenores insignificantes como a inexistência de tema.
Não tem receio de se repetir, ou seja, os políticos são os mesmos, as angústias também?...
Sim. É um dos principais problemas de escrever na imprensa durante muitos anos. Acabamos a repetir-nos. No meu caso, como calcula, trata-se de requentar um prato que já era indigesto quando tinha acabado de sair do forno. Repare que a estratégia da auto depreciação também é recorrente e, por isso, repetida. Mesmo a chamada de atenção para o facto de eu ter consciência da estratégia é capaz de não ser nova.
O que imagina que vai escrever no ‘Folha de São Paulo’ depois de 7 de Outubro. Será sobre Bolsonaro? Poder-se-ia escrever – com graça, é claro – que a lâmina devia ter sido maior?
Bolsonaro defende a esterilização dos pobres. Se a ideia era pagar na mesma moeda, o problema não foi a dimensão da lâmina mas o local da incisão. Era ligeiramente mais abaixo. Claro que, quando falamos disto nestes termos, beneficiamos de certas condições que hoje costumam ser esquecidas: o nosso discurso não é - para usar uma formulação corrente - a sério. Nenhum de nós está a desejar a morte ou até a castração (que se me afigura, a vários níveis, pior do que a morte) do Sr. Bolsonaro. Mas em princípio não vale a pena fazer esta ressalva, porque vivemos tempos em que a inclinação para a literalidade é muito intensa.
Acha que o humor é universal? Ou seja, quais são os temas com os quais um humorista nunca poderá falhar?
Sabe aquelas pessoas que dizem: ‘Tu só te ris do mal’? Têm razão. A gente ri-se do que é mau, do que é triste, do que é errado, do que é infeliz. Precisamente porque isso é uma maneira de lidar com o que é mau, triste, errado e infeliz. A felicidade, há de reparar, não tem graça nenhuma.
O Ricardo Araújo Pereira está com 44 anos. Acha que os humoristas ao contrário dos futebolistas não têm prazo de validade?
Felizmente, os humoristas trabalham até tarde. Chaplin foi pai aos 73 anos. Se isso não é um trabalho humorístico, não sei o que é.
Via-se aos 64 anos como Herman José a fazer espetáculos pelo País e a publicar no Instagram?
Eu ainda nem percebi bem o que é o PowerPoint, quanto mais o Instagram.
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