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A paixão de shakespeare

Fugiu à tropa e foi para Londres com o sonho do teatro. Limpou quartos de hotel e foi segurança pessoal de Dustin Hoffman. Conheceu Mário Viegas, que o trouxe de volta a Portugal e aos palcos.

03 de julho de 2005 às 00:00

Simão Rubim nasceu sob o signo Leão, a 30 de Julho de 1964, na ilha de Jersey, Inglaterra. Os pais – portugueses – tinham decidido no início daquela década divertirem-se em terras britânicas mas acabaram por lá viver uns anos e ver nascer os filhos. Criança de colo, Simão muda para Portugal e durante duas décadas vive em Cascais. Adepto do Sporting e tendo a natação como passatempo, frequenta os Salesianos e o Saint Julians.

Apaixona-se pelo teatro aos 11 anos. Aos 15, descobre os ideais do Partido Comunista e simultaneamente os pressupostos da Igreja Católica. Aos 17, estreia-se no Teatro Experimental de Cascais pelas mãos de Carlos Avilez e João Vaz. Até que, em 1985, para fugir à tropa, adopta a nacionalidade inglesa e parte para Londres. Na bagagem leva discos de Amália Rodrigues e um sonho: o teatro. Hoje, tem 40 anos, é actor profissional e entre outros feitos, protagoniza uma peça que está em cartaz há 9 anos: ‘As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos’.

Teve pequenas participações televisivas, nunca foi convidado para o cinema e vive num típico bairro lisboeta. Ex-fumador, frequenta o ginásio de segunda a sexta e lê com avidez a imprensa nacional e estrangeira.

- É verdade que adoptou a nacionalidade inglesa para fugir à tropa?

- Tinha 18 anos quando percebi que seria chamado e queria gastar o meu tempo com coisas mais importantes. Não gosto de desperdiçar um segundo que seja da minha vida.

- Como cidadão inglês mudou-se, de armas e bagagens, sem conhecer ninguém, para Londres, com 20 anos. Os seus pais apoiaram a ideia?

- Os meus pais sempre me apoiaram em tudo o que fiz, algumas coisas com reticências mas estiveram presentes.

- Não. Tenho dois sobrinhos maravilhosos, o Guilherme com 20 anos e o João com 16 anos. O mais velho nasceu pouco antes de eu partir e custou-me imenso não o ver crescer.

- Em 1985, chega a Londres, não tem emprego, não tem amigos, nem sítio onde ficar…

- Fiquei uns tempos em casa de amigos da família mas rapidamente arranjei alojamento e emprego em Londres.

- O que é que fazia?

- O meu primeiro emprego foi o de empregado de limpezas num hotel de 4 estrelas. É incrível a porcaria que pessoas supostamente educadas fazem!

- Conheceu algum hóspede português?

- Conheci muitos nos elevadores e nos corredores mas se não estivesse interessado em fazer conversa limitava-me a dizer “Boa tarde” em inglês.

- Depois esteve em bares nos teatros, cortou bilhetes, e até foi segurança do Dustin Hoffman…

- Na altura, geria os cinco bares do teatro onde ia ser produzido ‘O Mercador de Veneza’ do Shakespeare com o Dustin Hoffman. Ele engraçou comigo e perguntaram-me se queria ser seu segurança. E assim foi, estive meio ano a ‘tomar conta’ dele.

- E onde é que entra o Mário Viegas?

- Na porta dos artistas, todas as noites reunia-se um grupo de gente a pedir fotos e autógrafos ao Dustin Hoffman. Geralmente quando ele levava a mulher – que era uma chata do pior – não saía pela porta dos artistas. Um dia o director da companhia veio pedir desculpa a dizer que o actor estava muito cansado e oiço uma pessoa a dizer em português: “nós também estamos muito cansados de estar aqui à espera” e quando olhei, era o Mário Viegas. Cheguei ao pé dele e disse: “Você é o Mário Viegas, não é”? E ele respondeu: “Sou, mas não me trates por você.” Ficámos amigos para sempre.

- Quem mais é que conheceu?

- Conheci o Juvenal Garcês – actual director da Companhia Teatral do Chiado – e uma vez o professor Freitas do Amaral. Na época eu cortava os bilhetes e sentava os espectadores que iam assistir ao musical ‘Miss Saigão’. Vejo-o a entrar, com a mulher. Falei em português, ele riu-se, voltámos a comunicar no intervalo mas penso que ele não se lembra de mim! Eu é que o conhecia de vista porque em Cascais íamos à mesma missa.

- Recebia gorjetas?

- Infelizmente não. Os ingleses não têm essa tradição.

- Já não vou à missa. Acredito em Deus e em algumas coisas, só não me identifico com a Instituição em si. A Igreja tem uma atitude perversa e arrogante em relação à realidade.

- Dê-me um exemplo…

- Através do Papado de João Paulo II, a Igreja pediu desculpas pelos crimes que cometeu na II Guerra e durante a Inquisição. Daqui a uns anos vão pedir desculpa por dizerem às pessoas do continente africano – o mais afectado pelo vírus da sida – para não usarem preservativo. É uma maneira de assassinar pessoas e uma hipocrisia total. É sabido que padres católicos praticam actos sexuais tanto com homens como com mulheres, e com certeza que usam preservativos.

- Disse que acreditava em algumas coisas…

- Acredito no Bem e no Mal e sou devoto de Santo António a quem acendo, diariamente, uma vela.

- Costuma entrar em igrejas vazias?

- Com frequência, e choro imenso. É o único sítio onde me sinto seguro a chorar porque ninguém me incomoda. A ‘minha’ igreja está em obras neste momento: a dos Mártires.

- Mas viveu duas décadas em Cascais…

- Penso que tive uma visão que o Judas ia para lá estragar aquilo tudo e mudei-me para Lisboa!

- Voltando a Inglaterra. Conheceu o Mário Viegas e…?

- Ele foi para Macau na manhã seguinte à noite em que falámos mas uns tempos depois apareceu em Londres, à porta do teatro e passámos uma semana fantástica. Em 1990, quando vim de férias a Portugal, o Mário não tinha companhia, mas convidou-me para ler uns poemas por 30 contos mensais e eu aceitei imediatamente.

- Em Londres viveu no bairro mais perigoso da cidade…

- Vivi um ano com a comunidade africana, da qual todos tinham receio mas sempre me dei bem. Nunca tive, nem tenho, medo de nada.

- Estou preparado para ela há 12 anos. Foi nessa altura que comecei a pensar a sério na morte e que percebi que um dia vou morrer. Não tenho medo.

- Sente que já viveu tudo?

- Não!!!! Quero fazer mais teatro.

- Em Inglaterra o Simão fez publicidade, teatro e uma série da BBC…

- Tinha uma agente que me encaminhava para castings. Foi uma experiência excelente pois a técnica de representação britânica é genial, apesar deles não explorarem o sentimento. Não se vê um actor inglês a chorar em palco.

- E o curso de teatro que queria tirar?

- Consegui entrar para a melhor escola de teatro inglesa mas não consegui a bolsa porque a Margaret Tatcher cortou com todas as bolsas de estudo nas artes. O director guardou a minha entrada para ver se eu conseguia arranjar dinheiro. Tentei a Fundação Gulbenkian e muitas outras cá em Portugal mas ninguém me concedeu.

- Como é que nasceu o seu fascínio pelos palcos?

- Tinha 11 anos quando a empregada que fazia a limpeza no prédio onde eu vivia, em Cascais, fez um alvoroço a dizer que estava alguém a ocupar a sede do CDS. Fui a correr ver o que se passava; estavam uns senhores a pintar umas coisas na parede – um deles era o António Feio – e a escreverem “Luar” que era um partido que existia, de esquerda. Perguntei o que era aquilo e eles disseram que era uma companhia de teatro. Fui ver todos os ensaios, era a ‘Ópera dos Três Vinténs’ e assisti a todas as representações.

- Na sua família existe mais alguém ligado às artes?

- Tinha um primo – Rogério Paulo – que foi um actor muito famoso do teatro nacional. Ele esteve exilado muitos anos em Cuba e na antiga União Soviética antes do 25 de Abril.

- Além de actor, o Simão integra a direcção da Companhia Teatral do Chiado.

- Faço parte da produção mas é um trabalho que sempre fiz. Para mim, o teatro começa na bilheteira e na forma como recebemos o público.

- Vocês recebem com uns deliciosos chocolates…

- Foi uma empresa que gentilmente nos deu esse apoio. Nós aceitamos todos os apoios já que o subsídio que recebemos é muito pouco.

- Quanto é que recebem? Toda a gente se queixa da falta de verbas…

- Recebemos 35 mil euros (7500 contos) por ano e é muito pouco se nos recordarmos que temos 15 anos de trabalho ou se compararmos o nosso subsídio com companhias que nasceram ontem. Já pusemos o Ministério da Cultura duas vezes em tribunal.

- Isso foi há uns anos…

- Foi quando o Carrilho tinha a pasta da Cultura. O Instituto das Artes mudou de nome várias vezes, os Governos sucedem-se, só não muda é aquela mulherzinha que lá está a atribuir os subsídios. Essa senhora não sai de lá por nada deste mundo! Provámos duas vezes em tribunal que havia corrupção pura e descarada na atribuição dos subsídios. E o sistema continua o mesmo. A mesma senhora ali a mandar.

- O que é que fazem com os 35 mil euros?

- Devolvemos ao Estado! Anualmente pagamos mais do que isso ao fisco e à Segurança Social. O Mário Viegas só recebeu um subsídio do Manuel Fréches, que era subsecretário de Estado da Cultura na época do Santana Lopes. Por uma questão de princípios e porque não gostava dele, o Mário nunca pediu nada ao Santana Lopes e assim que este se demitiu, marcámos uma audiência com o Fréches que na mesma semana nos entregou um cheque.

- E o Simão gosta do Santana Lopes?

- (…) Que pergunta maldosa! Gostar não é o termo adequado, não somos amigos e nunca seremos. Em relação à nossa Companhia, como presidente da Câmara, não existiu.

- Nos últimos 15 anos, quem é que vos apoiou na Câmara Municipal de Lisboa?

- O João Soares e Jorge Sampaio. Foi graças ao João Soares que a nossa Companhia nasceu. O Mário Viegas deu uma entrevista ao jornal ‘A Capital’, disse que queria fazer uma peça do Miguel Rovisco mas que não tinha condições. Pouco depois, o João Soares ligou-lhe e ofereceu-lhe o espaço onde actualmente funciona o Café dos Teatros, no Chiado.

A seguir entrou o PS para o Governo e o presente que esse grande filósofo, o Carrilho, deu ao Mário – um homem com 28 anos de carreira e digressões pelo mundo inteiro a divulgar a poesia portuguesa – foram 8 mil contos.

- Continuam a lutar pelos subsídios?

- Não! Desistimos de batalhar. Eles dão o dinheiro a quem quiserem.

- Mas o Simão já fez campanha e neste momento apoia um candidato à CML…

- Apoiei a última candidatura do João Soares porque o respeito e neste momento, por Lisboa, apoio o José Sá Fernandes, candidato do Bloco de Esquerda.

- Não, sou amigo do irmão – Ricardo Sá Fernandes – que aliás foi nosso advogado e pôs o Ministério da Cultura em Tribunal. Mas acredito no projecto do José Sá Fernandes.

- Acredita em Deus mas entrou em colisão com a Igreja; descobriu e fugiu do PCP; apoia o BE mas diz que não existe grande diferença entre a Esquerda e a Direita. Afinal, onde é que se situa?

- Na Esquerda. Existem muitos católicos de Esquerda. Tenho princípios de Esquerda, existem coisas na Direita com as quais concordo e outras com as quais discordo profundamente. Como diz o professor Freitas do Amaral, “estou no Centro”. Às vezes balanço para um lado, outras vezes para outro.

- Sobrevive-se como actor?

- Que remédio. Ser actor de teatro é difícil mas tenta-se. Não temos dinheiro para fazer publicidade e a televisão não nos entrevista porque não fazemos telenovelas. Há uns tempos estivemos com ‘As Obras Completas’ no Coliseu do Porto. Estava esgotado. A jornalista da RTP foi ver a peça e disse-me: “Não trouxe equipa porque a minha produtora diz que como vocês não são conhecidos da televisão, não valia a pena”. Estamos a falar da RTP, a televisão do Estado…

- Procuro sê-lo e acho que posso ser ainda mais feliz. A minha paixão é o teatro. É a única que – infelizmente – foi retribuída nestes últimos 15 anos.

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