O ‘Diário, 2000-2015’, de João Bigotte Chorão, é uma coisa rara. Ele é um dos nossos últimos cavalheiros
Professor, crítico, editor de mérito, historiador da literatura e autor de um ‘Diário’ cujo mais recente volume acaba de chegar às livrarias, João Bigotte Chorão não merece o silêncio a que foi votada uma carreira de estudioso e amante das letras. De Camilo, de que é um dos grandes comentadores, a João de Araújo Correia e Malheiro Dias, de Eça a Trindade Coelho ou Tomás de Figueiredo, da literatura brasileira à italiana e aos mestres do cânone europeu, de Eliade a Bernanos, o autor de ‘O Escritor na Cidade’ (um dos seus grandes livros, de 1986), de ‘Aventura Interior’ (1969) ou de ‘Além da Literatura’ (2014), criou um modo próprio para nos aproximar do conhecimento da literatura: uma timidez exemplar que revela confidências familiares que nunca fazem perder uma grande elegância no trato com os autores. Devo-lhe o contacto com essa forma rara de homenagear a literatura, certamente conservadora e, por isso impopular, feita de perda e de contrição.
Do outro mundo
João Bigotte Chorão pertence a um mundo em que havia autores – ou seja, intérpretes de outra realidade, superior, valorizada esteticamente, premiada pela sua dimensão ontológica. Não é o nosso mundo pop. Não é por acaso que, a meio deste volume do seu ‘Diário’, menciona ‘O Diário da Felicidade’, de Nicolae Steinhardt: "Este livro é o que foram para o seu as ‘Confissões’ de Santo Agostinho." Há, justamente, uma proximidade (insuspeita) entre o confessionalismo de Bigotte Chorão e a obra de Agostinho; a única diferença é que no português não existe uma descida ao lado negro da vida – cujo conhecimento é literário (mas não apenas intelectual), interior, conhecido pela palavra dos outros. E esse é o domínio da literatura: o dos outros.
Os cinco anos a que correspondem as páginas do diário estão cheios de coisas contraditórias: resignação e contentamento, melancolia e recusa – mas o fio da cordialidade transporta-nos para um mundo em que tudo é misericórdia e busca do conforto da literatura. Porque era este o modo de ser nobre e educado num mundo que tinha raízes no céu e na terra. Ele é um dos nossos últimos cavalheiros.
Uma ópera feminina e antes do tempo
Imagino a ebulição a 3 de Fevereiro de 1625, em Florença, quando se estreou esta ópera que encontrei entre os CD, a ‘La Liberazione di Ruggiero dall’isola d’Alcina’, de Francesca Cacini (1587- -1645). Trata-se da primeira ópera escrita por uma mulher. Esta versão tem momentos preciosos, cómicos e belíssimos. Tudo junto.Exposições
Uma fotografia de alucinações
Em relação ao projeto anterior de João Miguel Barros (‘Between Gaze and Hallucination’), esta exposição é uma peregrinação por lugares de fantasmagoria, animais em fuga, corpos escurecidos – perde-se em lirismo o que se ganha em precisão e certo desencanto. Uma fotografia que relembra a perdição dos pequenos gestos.
Livro
As coisas que ficam distraídas
O que se escreve nas badanas e nas contracapas dos livros? João Pedro George analisa um grande número delas em ‘Da Badana à Contracapa: as Grandes Linhas da Literatura Portuguesa’. De seguida, passa em revista a obsessão mamária dos romancistas num ensaio publicado antes na ‘Ler’. FUGIR DE:
Vão longe os tempos em que perdíamos ou ganhávamos tempo em congressos ou colóquios. E em que não perdíamos um conferencista que nos agradava – um cientista, um escritor, um pensador. Agora não. Agora temos ‘talks’ de jovens que nos querem ensinar um pouco de tudo. Basicamente trata-se de ginastas e funâmbulos que vão de um lado para o outro de um palco dizendo inanidades que daí a pouco estão no YouTube; agitam os membros (braços e pernas), incitam-nos a sermos mais empreendedores. Daqui lhes envio um grande manguito, aos ‘talks’.
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