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Assédio faz cair a fama e o poder

Nunca houve tantas denúncias de abusos sexuais em Hollywood. Centenas de nomes famosos puseram a descoberto prática comum.
Vanessa Fidalgo 5 de Novembro de 2017 às 17:15
Asia Argento
Asia Argento
É caso para dizer que um escândalo nunca vem só. Depois das denúncias contra Harvey Weinstein, sobre o qual chovem acusações de abuso e assédio sexual por parte de modelos, funcionárias e atrizes, o efeito dominó abateu-se sobre Hollywood e está a fazer cair do pedestal muitos poderosos e famosos.

Para surpresa e horror de muitos, no início do mês passado, as atrizes Asia Argento, Lucia Evans, Rose McGowan, bem como uma funcionária da antiga produtora de Weinstein, a Miramax, acusaram-no formalmente de violação. A público veio não só a revelação de que o produtor, agora com 65 anos, já tinha sido investigado por alegadas acusações de assédio pela autoridades britânicas (em 1992, 2010, 2011 e 2015) como as vozes de uma série de mulheres. Muitas delas são atrizes famosas, que corajosamente denunciaram situações de abuso e coação sexual perpetradas pelo produtor. Entre elas, contam-se Ashley Judd, Angelina Jolie, Cara Delevingne, Jessica Barth, Katherine Kendall, Florence Darel, Judith Godreche, Emma de Caunes, Alice Evans, Lysette Anthony, Mira Sorvino, Lea Seydoux, entre outras.

A mais recente acusação partiu da atriz Natassia Malthe que afirma que o produtor a violou num quarto de hotel depois da cerimónia dos prémios britânicos BAFTA, em 2008.

Em três semanas, e de acordo com informações avançadas pelo jornal ‘Global News’, as autoridades terão recebido 93 queixas, 13 das quais por violação, contra Harvey Weinstein.

Castelo de cartas
A atriz Emma Thompson foi, entretanto, certeira no vaticínio, ao afirmar que o caso Harvey Weinstein era apenas uma "pálida sombra da realidade sobre o abuso sexual" na meca do cinema mundial, e sobre a forma "triste" como as mulheres são encaradas e tratadas no meio.

E realmente não tardaram a chover muitas outras acusações, tanto de mulheres como de homens, a denunciar práticas e deitando abaixo atores, realizadores, fotógrafos, jornalistas, músicos e empresários.

Se as vítimas são às centenas, a lista de acusados também já vai em mais de 30 e inclui nomes tão sonantes como Kevin Spacey, Terry Richardson, Oliver Stone, Steven Seagal, Ben Affleck ou o músico Jeordie White.
A onda Weinstein apanhou também de calças na mão o realizador James Toback, acusado por 38 mulheres que abordava nas ruas de Nova Iorque com a promessa de uma carreira de sucesso em Hollywood; e o presidente da Amazon, Roy Price, outros dois executivos (entretanto todos despedidos) e Andy Sigmore, vice-presidente da Defy Media, acusados de agressão sexual por várias mulheres.

Ainda no capítulo das estrelas, Dustin Hoffman é o mais recente acusado. Tudo terá acontecido em 1985, quando Anna Graham Hunter, então com 17 anos, trabalhava como assistente de produção durante as gravações do filme ‘A Morte do Caixeiro Viajante’. O ator, agora com 80 anos, é acusado de falar explicitamente sobre sexo e de a ter "apalpado", apesar de, alegadamente, a então adolescente lhe bater na mão e lhe chamar "um velho porco".

Num artigo publicado no ‘Hollywood Reporter’, Anna Graham Hunter, agora com 49 anos, diz ter percebido tarde "que o comportamento de Dustin Hoffman se encaixa num padrão mais alargado do que as mulheres vivem em Hollywood e em todo o lado". A alegada vítima sublinhou ainda: "Ele era um predador, eu era uma criança e isto foi assédio sexual." Contactado pela publicação, o ator diz ter "o maior respeito pelas mulheres" e afirmou sentir-se "muito mal" por ter colocado a ex-assistente numa "situação desconfortável".

Outra polémica escaldante rebentou nas mãos do conhecido Kevin Spacey e terminou com o ator a assumir a sua própria homossexualidade. As acusações de assédio sexual remontam há 30 anos, e foram movidas pelo ator de ‘Star Trek’ Anthony Rapp, que tinha 14 anos à época dos factos relatados. Alegadamente, o jovem Rapp terá sido convidado para uma festa que decorreu no apartamento de Kevin Spacey. O ator de ‘House of Cards’, então com 26 anos, estaria visivelmente alcoolizado quando entrou num quarto onde o adolescente descansava sentado na beira de uma cama. "Spacey carregou-me ao colo como um homem leva a noiva. Não me afastei inicialmente, porque questionava-me apenas ‘o que estaria a acontecer?’ Foi então que ele se deitou em cima de mim. Claramente a intenção dele era abordar-me sexualmente. Mas consegui escapar", disse Rapp.

Mas enquanto Weinstein tem negado através dos seus assessores as acusações de sexo não consentido, Kevin Spacey reagiu de forma surpreendentemente diferente, vindo a público pedir desculpas numa comunicação em que, pela primeira vez, acabou por admitir a sua homossexualidade. Até porque nem só as mulheres têm vindo a queixar-se.

O veterano ator retratou-se e garantiu estar profundamente "horrorizado" com o relato. No entanto, afirmou que não se lembra do encontro. "Mas, se eu realmente me tiver comportado da forma que ele descreve, devo-lhe as mais sinceras desculpas pelo ato horrível, certamente fruto de um comportamento etílico inapropriado", disse Spacey.

O ator afirmou que "lamenta muito" os sentimentos negativos que Anthony Rapp terá carregado calado todos estes anos. Aproveitando a deixa, admitiu que o caso o levou a encarar de frente alguns factos sobre a sua sexualidade. Ciente de que sempre houve rumores nesse capítulo, Kevin Spacey afirmou ter tido relacionamentos com homens e mulheres ao longo da vida e, por fim, ter escolhido "viver como um homem gay". "Quero lidar com isso de forma honesta e aberta, e isso começa comigo a examinar o meu próprio comportamento", disse.
Mas nem todos os envolvidos têm encarado com a mesma suavidade os acontecimentos que estão a abalar Hollywood e a pôr a descoberto a sua arreigada tradição de assédio.

O ator Corey Feldman está a angariar dinheiro para um documentário que promete expor uma rede pedófila que, garante a estrela adolescente de ‘Conta Comigo’ (1986), há muito existe em Hollywood de forma impune, à vista de todos, e da qual ele próprio foi vítima. Feldman, recorde-se, começou a sua carreira ainda criança, e juntamente com Corey Haim, era um dos jovens ídolos dos anos 80. Os dois Coreys foram, afirma Feldman, vítimas de abusos sexuais ainda antes de chegarem à adolescência. Feldman superou, Haim morreu em 2010, após problemas de toxicodependência, de pneumonia.

O dinheiro para o documentário, que quer quebrar a "barreira de silêncio" e ser "a representação mais honesta, verdadeira, sem edição e sem censura sobre os abusos de crianças em Hollywood", está a ser angariado via Indiegogo. A sua causa já conseguiu mais de 100 mil dólares mas Feldman quer chegar aos 10 milhões, pois além das despesas de produção e distribuição, o ator salienta que é preciso pagar a segurança, garantindo que está a ser alvo de ameaças de morte. Elijah Wood (o Frodo de ‘O Senhor dos Anéis’) ou James Van der Beek, apesar de serem de uma geração diferente, são alguns dos atores que já fizeram coro com Feldman, falando da existência de autênticos "predadores" de jovens.

E protagonistas são coisa que certamente não lhe vão faltar. Nem solidariedade. Nas redes sociais, a hashtag #metoo (criada pela atriz Alyssa Milano e já usada por nomes como Evan Rachel Wood ou Lady Gaga) tem sido utilizada por milhares de pessoas em todo o Mundo que passaram por situações idênticas, para revelar a gigantesca dimensão e naturalidade do assédio em quase todos os meios e países.
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