page view

Fazer rir os outros aos 80

Os utentes de um lar da Gafanha do Carmo já são um famoso coletivo de humoristas na internet

02 de outubro de 2016 às 12:07

"Depois de deixar destroçado o coração da cantora Adele, o Sr. Alfredo infligiu agora um duro golpe a Brad Pitt, ao roubar-lhe Angelina Jolie As fotos íntimas do novo casal tornaram-se virais, explicando assim as longas ausências noturnas de Alfredo"

Podia ser mais ou menos este o tom da notícia nas páginas de uma revista cor de rosa. Mas na verdade é só mais uma paródia armada pelos idosos do Centro Comunitário da Gafanha do Carmo, que provavelmente já são os avós portugueses mais famosos da internet.

Lá para os lados da Gafanha do Carmo, entendeu-se que nunca é tarde para alcançar a fama. Ou experimentar coisas novas. No princípio, esta última era mesmo a única intenção de Sofia Nunes (gerontóloga) e Ângelo Valente (animador social), que, há cerca de cinco anos, deram vida ao projeto ‘Antes de Morrer Quero…’ no lar da freguesia aveirense.

No âmbito da terapia ocupacional que todos os dias desenvolvem, levaram computadores, máquinas fotográficas e câmaras para pôr os utentes do centro (30 internos e 20 em regime de centro de dia) em contacto com o YouTube. A vontade deles em fazer qualquer coisa de semelhante e partilhar na rede não se fez esperar. Só que rapidamente os vídeos, quase sempre paródias com celebridades ou acontecimentos da atualidade, se tornaram virais.

Um dos primeiros a ter eco nacional foi uma versão de ‘Wrecking Ball’, onde os avós imitavam o estilo rebelde e atrevido da cantora Miley Cyrus e nem se importavam de aparecer em ceroulas. Seguiu-se ‘Hello’ onde Adele levava um ‘fora’ pelo telefone do mesmo senhor Alfredo que agora é visto em fotografias partilhadas no Facebook a passear-se com Angelina Jolie. Cada um destes vídeos tem mais de 200 mil visualizações no YouTube.

A sua fama já vai longe, pois a página do centro comunitário na rede social tem qualquer coisa como 20 mil seguidores e recebe 300 mil visitas mensais em média. Viúvo há mais de 30 anos, aos 86 de vida, o senhor Alfredo já pouco se importa com o que os outros pensam, além de ter uma inaudita disponibilidade para os fazer rir. Por isso lá vai alimentando a paródia na entrevista, garantindo que neste momento "o mais importante é apoiar a atriz nesta fase difícil". Por ele, a brincadeira tem pernas para andar: "Do Brad Pitt não tenho medo. Estou preparado para o que vier. Afinal, ela é que lhe pôs os patins, portanto também não tenho nada a temer. Ela é a mulher dos meus sonhos", acrescenta.

Os outros utentes do lar riem à gargalhada com o ousadia do octogenário, que em tempos trabalhou a carregar mercadorias que chegavam ao porto de Aveiro por via marítima. Está no lar há dois anos e garante que nunca antes a sua vida foi tão divertida. Além disso, até parece ter por lá uma namorada sem ser de papelão... pelo menos a avaliar pela doçura com que ampara Vitória, de 83 anos, outra utente que com ele partilha as partidas mediáticas. A pergunta indiscreta intimida-os: "Ah lá no lar todos nos ajudamos uns aos outros!".

Para que a boa disposição reine todos os dias, foi preciso que os responsáveis do centro também aceitassem a aventura. Os benefícios justificaram todos os meios.

"Com estes vídeos e com o facto de serem agora conhecidos na internet, muitos destes idosos assumiram um estatuto que antes não tinham dentro das próprias famílias. Hoje, os netos mostram as fotos e os vídeos deles na escola aos amigos, têm orgulho porque os avós são ‘fixes’. Eles são reconhecidos na rua, têm fãs, pessoas que os elogiam. Antes, quando estavam em casa, eram simplesmente os velhotes que já não serviam para nada", afirma Ângelo Valente. As palavras do animador do Centro Comunitário da Gafanha do Carmo são duras, mas espelham o triste contexto familiar em que muitos vivem.

"É uma estratégia de integração que funciona com qualquer pessoa, mesmo com aquelas que não têm qualquer entrave à comunicação. Quando os outros nos elogiam, a autoestima e a motivação sobem consideravelmente. Com estes idosos, acontece exatamente a mesma coisa", justifica.

Dona Vitória Neves, de 83 anos, confirma. Avó de nove netos e já com uma bisneta também nos braços, garante que os mais novos da família começaram a olhar para ela de outra forma desde que passou a ser estrela no Youtube. "Eles vão para a escola, mostram aos amigos e ficam todos orgulhosos dos avós. Para nós, é bom sentir isso", conta. Antes, nunca se tinha visto em tais andanças. Doméstica toda a vida, não sabia sequer ligar um computador até entrar para o lar do Centro Comunitário da Gafanha do Carmo. Foi ali que aprendeu a dominar o teclado e, através dele, a comunicar com os seus na linguagem deles.

Nestes projetos há poucos constrangimentos. Até mesmo quando é preciso aparecer com ceroulas para emprestar mais realidade à encenação.

"Eles fazem tudo de uma forma muito consciente. Vemos televisão, ouvimos música na nossa sala de convívio e depois há coisas que lhe cativam a atenção e são eles próprios que sugerem fazer isto ou aquilo. São muito espontâneos e mais abertos do que a maioria das pessoas julga. A ideia do ‘Wrecking Ball’, por exemplo, foi do próprio senhor Coelho, o protagonista. Os projetos partem sempre deles", diz Ângelo Valente. E nem sequer precisaria de explicar porque a alegria do grupo é contagiante.

Mas no Centro da Gafanha do Carmo não se trabalha só o riso. Prova disso são os dois cães de assistência que foram admitidos no lar e que hoje fazem parte das rotinas como qualquer outro funcionário. Um chama-se ‘Viana’, a labrador preta que foi cão-guia até ao dia em que perdeu algumas das suas capacidades. Agora é ela, também a gozar a reforma, que zela pelas emoções positivas. E até tem uma amiga especial. Uma utente com Alzheimer, que todos os dias a conhece e todos os dias se apaixona por ela.

O outro assistente de quatro patas é o ‘Vadio’. Como o nome deixa adivinhar, foi resgatado da rua. Quando chegou ao lar, habituou-se automaticamente ao novo estatuto de animal doméstico. Escolheu a sua utente preferida, tendo passado a dormir todas as noites aos seus pés. Também eles fazem parte das comédias produzidas pelo lar. A sua função, porém, vai muito para além disso. "Os animais fazem aquilo que as pessoas geralmente não são capazes: amar incondicionalmente. Eles não sabem se já estamos velhos, coxos, com falta de memória e, mesmo assim, gostam de nós simplesmente porque lhes damos carinho e companhia", frisa Ângelo. O mesmo é dizer que a graça está nos olhos de quem vê e sente...

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8