A Volta a Portugal em Bicicleta já viveu os seus ‘anos de ouro’, mas ainda hoje arrasta multidões, fascinadas pelo esforço sobre-humano dos corredores. Nos 65 anos da prova, recordamos as glórias e choramos as tristezas
Na primeira edição da Volta a Portugal, em 1927, o país estava entretido com as sucessivas quedas de governos mas acompanhou de perto o destino dos 37 ciclistas, que se reuniram no Marquês de Pombal ao volante das suas bicicletas. Os atletas estavam divididos entre os ‘fortes’, ‘fracos’ e ‘militares’ e vestiam a camisola de alguns clubes – já desaparecidos – como a Companhia de Telegrafistas, os Águias de Alpiarça ou o Lusitano Eborense. Todos eles tinham pela frente 18 etapas, divididas por 1.900 quilómetros – um périplo dificultado pelas más condições das estradas, apelidadas pelos jornais de ‘Infernos de Dante’.
Depois de um hiato de quatro anos, a Volta regressa, em 1931, com José Maria Nicolau, do Benfica, e Alfredo Trindade, do Sporting, a serem elevados ao escalão de deuses. “Até fisicamente eram opostos. O Trindade era muito magro, enquanto o Nicolau era bastante forte”, declara Artur Lopes, Presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo.
De 1931 a 1934, os dois atletas repartem os títulos e o país pára para vê-los passar. “Foi o ciclismo, e não o futebol, que espalhou a mística dos três grandes clubes (Sporting, Benfica e FC Porto) por todo o país”, recorda o jornalista desportivo Guita Júnior.
ÉPOCA DE OURO
No fim da década nasce outra lenda do asfalto. Chama-se José Albuquerque, veste a camisola dos leões e tem um apelido sonante: ‘O Faísca’. Mas outros nomes fazem as primeiras páginas dos matutinos: são eles Joaquim Fernandes, da CUF, e Joaquim Aguiar Martins, do Benfica. “Vivia-se a época de ouro do ciclismo”, declara com nostalgia Guita Júnior.
Com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, a prova é interrompida e volta a realizar-se em 1946. Numa fotografia da época, os atletas apresentam-se às autoridades oficiais fazendo a saudação nazi (já Hitler tinha morrido há um ano). Na única vez em que o Estádio Nacional foi palco de uma Volta, o benfiquista José Martins arrecadou o troféu. Mas os anos 40 seriam dominados pelos atletas do FC Porto. Fernando Moreira é o primeiro rei do norte e António Dias dos Santos sucede-lhe no trono.
Na década de 50, a televisão inicia as suas coberturas do evento, manchado entretanto pelo primeiros casos de ‘doping’. “Cada um tomava os comprimidos que queria”, recorda Alves Barbosa, então verdadeiro ídolo de multidões. Nesse período, o ciclista do Sangalhos tinha apenas como rival Ribeiro da Silva. O desportista do Académico teve no entanto, uma morte trágica aos 25 anos. “A mota onde viajava chocou contra um camião. Foi uma tragédia”, lembra Guita Júnior. “Hoje, seria como se Figo tivesse morrido”.
A década de 60 é de João Roque, Mário Silva e Peixoto Alves. E do Sporting, do Benfica e do FC Porto, respectivamente. Os três grandes ainda dominam as lides velocipédicas e só um belga chamado Antoine Houbrechts – o primeiro estrangeiro a ganhar a Volta, em 1967 – quebra a hegemonia tricolor.
AGOSTINHO E OS OUTROS
Nos anos 70, a modalidade vive alguns dos seus maiores momentos de glória. A culpa é de um rapaz nascido em Torres Vedras: Joaquim Agostinho. O atleta do Sporting não tem rivais à altura. “A Volta dividia-se em dois: ele e os outros”, recorda Guita Júnior. Agostinho subiu ao lugar cimeiro por três anos consecutivos. E só não arrecadou mais primeiros lugares porque seria desclassificado duas vezes, depois de controlos anti-‘doping’ positivos.
Desmotivado com a pequenez do país, o ciclista ruma para França e, por duas vezes, sobe ao pódio nos Campos Elíseos.
Sem Agostinho à perna, o seu rival e amigo, o benfiquista Fernando Mendes, vence a Volta de 1974. A prova não se realiza no Verão Quente de 1975 e só regressa no ano seguinte, entrando para a História como uma das voltas mais curtas de sempre (1588 km).
Depois do 25 de Abril, apesar das mudanças sociais, o ciclismo continua a reunir milhares de pessoas à beira das estradas a bater palmas. “A modalidade nunca perdeu o seu cariz popular”, defende Artur Lopes.
O ADEUS DOS TRÊS GRANDES
Depois da Revolução, o ciclismo ficou marcado pelo declínio, e posterior desaparecimento, dos três grandes. “A modalidade baseia-se cada vez mais na trilogia: desporto-publicidade-negócio. As marcas criam um projecto de quatro anos e depois, quando atingem os seus objectivos comerciais desaparecem”, refere Artur Lopes.
Manuel Zeferino entra nesta nova era com o pé direito mas é Marco Chagas quem acaba por dominar, ganhando por quatro vezes ao serviço do FC Porto, Mako Jeans e Sporting.
Em 1989 - quatro anos depois da morte de Joaquim Agostinho - o trepador Joaquim Gomes sobe aos pódios e, colectivamente, o Boavista e a Sicasal tornam-se nas novas potências. No entanto, na última década, são mais os estrangeiros a cantar vitória do que os portugueses - o que não retira a importância à mítica prova desportiva. “Alguém conhece outro desporto em que o público fica em pé, durante horas a fio, para ver passar durante vinte segundos os seus atletas preferidos?”, questiona Artur Lopes.
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