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“O Assassino do Zodíaco”: Um ilustre desconhecido que gostava de brincar com a polícia

O pseudónimo utilizado por um 'serial killer' que constituiu um claro desafio à imprensa e à polícia serviu igualmente como base para crónicas jornalísticas, romances, documentários e filmes de ficção que marcaram a história do cinema

23 de agosto de 2026 às 17:00

Comportamento do criminoso e os seus crimes

O primeiro dos seus crimes ocorreu em 20.12.1968. Um casal de adolescentes, David Arthur Faraday e Betty Lou Jensen, de 17 e 16 anos, namoravam à noite em Lake Herman Road, na área da Baía de São Francisco (EUA), local de encontros amorosos, quando foram surpreendidos por um homem que estacionou o carro atrás do deles. O homem desceu do veículo e o casal, assustado, tentou fugir a pé. David foi morto ainda dentro do seu carro, enquanto Betty foi baleada quando tentava fugir, indo cair a mais de 20 metros do carro. Morreram ambos de ferimentos de bala.

Na noite de 4.7.1969, Michael Renault Mageau e Darlene Elizabeth Ferrin, de 19 e 22 anos, passeavam de carro em direção ao Blue Rock Springs Park, também na área de São Francisco, tendo sido seguidos por um homem que parou atrás do carro deles. O homem saiu da viatura com uma lanterna e aproximou-se do banco do pendura, disparando várias vezes na direção dos dois. Darlene morreu de imediato, enquanto Mageau foi levado para o hospital de Vallejo com ferimentos graves, conseguindo sobreviver.

Exatamente às 00:40h, de um telefone público, um homem ligou para a esquadra daquela comunidade e, com voz monocórdica e inflexível, expôs a ocorrência de um duplo assassinato, descrevendo o local exato onde encontrar os corpos. Acrescentou terem sido mortos com uma pistola Luger, de 9mm e que também tinha matado os “garotos” do ano anterior. O homicídio de Darlene ocorreu apenas a três quilómetros do local onde os adolescentes David e Betty foram assassinados.

No dia 27.7.1969, Bryan Hartnell e Cecilia Shepard, estudantes no Pacific Union College [em Napa Valley, na Califórnia], fizeram um piquenique junto ao Lago Berryessa. Cerca das 16H00 encontraram uma clareira com sombra, estenderam um cobertor e sentaram-se a namorar durante cerca de uma hora. Foram surpreendidos por um homem alto e corpulento, que vestia roupa preta com capuz a cobrir a cabeça e, na frente da indumentária, um círculo desenhado a branco cortado por uma cruz ao centro (o símbolo do zodíaco), como se fosse a mira de uma arma. Depois de os amarrar e deitar no chão, desferiu vários golpes de faca em cada um deles. Como no ataque anterior, o rapaz, embora muito ferido, sobreviveu, enquanto a jovem Cecilia não resistiu às 24 facadas sofridas. Antes de ir embora ainda deixou escrito na porta do carro do jovem a seguinte inscrição: “Vallejo / 0-12-68 / 4-7-69 / Sept 27-69 – 6h30 / À faca”.

A 11.10.1969, semanas após o assassinato de Cecilia, Paul Stine, taxista em São Francisco, transportou um passageiro que entrou em Forte Heights, solicitando como destino a Rua Washington. Ao chegar ao cruzamento desta com a Rua Cherry, pediu para parar a viatura, disparando à queima-roupa contra o crânio do taxista, cuja morte foi instantânea.

Na noite de 22.3.1970, Kathleen Johns fazia uma viagem com o seu filho pequeno, entre San Bernardino e Petaluma, na área da Baía. Um homem fez-lhe sinal para que parasse a viatura, alertando-a de que teria uma roda solta. Kathleen parou e, de imediato, o homem se ofereceu para apertar as porcas de suporte da roda. A jovem aceitou, não se apercebendo que o desconhecido em vez de as apertar, as afrouxou. Quando a jovem retornou à estrada, andou escassos metros até a roda se soltar. O homem seguiu-a e voltou a oferecer ajuda, dando boleia à jovem e ao seu filho de colo. Seguiu pela estrada principal e, pouco tempo passado, começou a ameaçar a jovem, dizendo que a mataria, depois de atirar o bebé pela janela do automóvel. Desesperada, a mulher atirou-se literalmente para fora do carro com o filho, escondendo-se no meio da vegetação. O assassino ainda a tentou encontrar, mas, devido à escuridão, acabou por desistir. Dias depois, na polícia, Kathleen reconheceu os traços do sequestrador num cartaz de “procura-se” com o retrato robô do assassino do Zodíaco.

Investigação: virtudes e vicissitudes

No dia 1.8.1969, os jornais 'Vallejo Times-Herald', 'San Francisco Chronicle' e 'San Francisco Examiner' recebiam três cartas escritas pelo assassino confesso. A do 'San Francisco Chronicle' dizia: 

"Caro Editor, aqui é o assassino dos 2 jovens no último Natal no Lago Herman e da rapariga no dia 4 de julho perto do campo de golfe em Vallejo. Para provar que os matei, eu vou contar alguns factos que só eu e a polícia conhecemos. Natal 1. Marca da munição Super X /2. 10 tiros foram disparados / 3. O jovem estava de costas com os pés apontados para o carro / 4. A jovem estava deitada sobre o lado direito pés voltados para Oeste. 4 de julho. 1. A jovem estava usando calças estampadas / 2. O jovem foi baleado também no joelho / 3. Marca da munição foi western. Aqui está uma parte de um código. As outras duas partes desse código foram enviadas aos editores do 'Vallejo Times' e do 'SF Examiner'. Quero que o senhor publique esse código na primeira página do seu jornal. Nesse código está a minha identidade. Se o senhor não publicar esse código até à tarde da sexta-feira, 1 de agosto de 69, vou iniciar uma matança louca sexta-feira à noite. Vou deambular todo o fim de semana matando pessoas solitárias à noite e continuar a matar de novo, até que cheguem a uma dúzia de pessoas no fim de semana."

O 'San Francisco Examiner' e o 'Vallejo Times-Herald' também receberam a sinistra carta e uma terceira parte da mensagem completa, em cifra. Os jornais publicaram parte do texto, mas, a pedido da polícia, não reproduziram a carta na íntegra. Foram preservados factos que só o assassino saberia.

Em 4.8.1969 o casal Donald Gene Harden, 41 anos, professor de História e de Economia na Escola North Salinas, e sua esposa Bettye June Harden, conseguiram decifrar uma parte do código enviado pelo assassino aos jornais. Esta cifra (Z408) dizia o seguinte:

"GOSTO DE MATAR PESSOAS PORQUE É MUITO DIVERTIDO É MAIS DIVERTIDO DO QUE MATAR ANIMAIS SELVAGENS NA FLORESTA PORQUE O HOMEM É O ANIMAL MAIS PERIGOSO DE TODOS PARA MATAR ALGUMA COISA ME DÁ A MAIS EMOCIONANTE EXPERIÊNCIA É MELHOR ATÉ DO QUE FAZER SEXO COM UMA GAROTA A MELHOR PARTE DISSO É QUE QUANDO EU MORRER RENASCEREI NO PARAÍSO E OS QUE EU MATEI SE TORNARÃO MEUS ESCRAVOS NÃO VOU DIZER MEU NOME SENÃO VOCÊS VÃO TENTAR RETARDAR OU PARAR MINHA COLEÇÃO DE ESCRAVOS PARA DEPOIS DA MORTE EBEORIETEMETHHPITI."

Em 7.8.1969, o assassino escreve uma carta à polícia, onde assume pela primeira vez o nome Zodíaco e dá mais detalhes dos assassinatos em Vallejo. O Zodíaco escreveu que quando a polícia decifrasse o código da sua última carta conseguiria detê-lo. O que não sabia é que os Harden já tinham concluído a descodificação e não continha a sua identidade.

Em 27.10.1970, o jornalista do 'San Francisco Chronicle', Paul Avery, recebe uma carta do Zodíaco endereçada especialmente a ele, dizendo: “Sinto nos meus ossos / Você pena para saber meu nome / Então vou dar uma pista... /Mas então por que estragar nosso jogo! / BU Feliz Halloween”, escrito num cartão barato de Halloween. O jornalista teria insultado e provocado o assassino, referindo-se a ele como um homossexual não assumido, por serem quase sempre mulheres a morrer durante os seus ataques. A carta foi considerada uma confrontação direta com o jornalista.

A penúltima carta do Zodíaco ocorre em 30.1.1974. O 'serial killer' envia uma curiosa carta ao 'Chronicle' onde refere que o 'O Exorcista' foi o melhor filme de comédia satírica que já havia visto. Acrescenta a seguinte nota: Eu = 37, SFPD = 0, dando a entender que já havia feito 37 vítimas enquanto a polícia de São Francisco não conseguia fazer nada para detê-lo. Finalmente, em 24.4.1978, foi enviada ao mesmo jornal a suposta última carta do Zodíaco, considerada inicialmente verídica. Foi, entretanto, levantada a suspeita de poder ter sido fabricada. Até hoje não há confirmação de que tenha sido mesmo escrita pelo Zodíaco. No entanto, Sherwood Morrill, chefe do departamento de testes de caligrafia da polícia no período em que o criminoso enviou as primeiras cartas, afirmou que o envelope teria partido das mãos do assassino. De acordo com ele, a caligrafia era a mesma.

Em dezembro de 2020, a imprensa reportou que outra cifra (Z340) das cartas enviadas ao 'San Francisco Chronicle' em 1969 teria por fim sido decifrada e que dizia: "ESPERO QUE SE ESTEJAM A DIVERTIR MUITO TENTANDO APANHAR-ME… NÃO TENHO MEDO DA CÂMARA DE GÁS PORQUE ELA VAI ME MANDAR PARA O PARAÍSO MUITO MAIS CEDO PORQUE AGORA TENHO ESCRAVOS SUFICIENTES TRABALHANDO PARA MIM." O trabalho de descodificação desta carta ter-se-ia iniciado em 2006 e foi feito pelo 'web designer' David Oranchak, o matemático australiano Sam Blake e o especialista em logística da Bélgica Jarl Van Eykcke. Segundo o grupo, o trabalho demorou mais tempo porque o assassino tinha utilizado um sistema de criptografia militar.

Embora a polícia se tenha empenhado fortemente ao longo dos anos na investigação destes crimes, apontando vários suspeitos, não foi possível, sem sombra de dúvida científica, apurar a identidade do Zodíaco.

Nos últimos anos também foram aparecendo indivíduos a confessar aos seus familiares serem o famoso homicida, mas sem provas forenses robustas não foi possível confirmar oficialmente a identidade do Assassino do Zodíaco.

Perfil Psicológico e Criminal

O criminoso reivindicou a autoria de 37 mortes em cartas repletas de criptogramas enviadas à imprensa. O seu perfil criminal continha um 'modus operandi' que pode ser resumido do seguinte modo: tinha alvos específicos (jovens casais namorando em áreas isoladas); usava, sobretudo, armas de fogo de curto alcance, tendo também usado uma faca; a sua abordagem era rápida e súbita (a sua aproximação silenciosa de carro, emboscando as vítimas sem diálogo prévio significativo ou intenção de roubo/agressão sexual, era o método mais frequente, com exceção do taxista) e criou uma assinatura gráfica 'sui generis' (marcava os locais ou enviava as cartas com um círculo atravessado por uma cruz, semelhante à mira de uma arma).

O seu perfil psicológico e eventuais traços de personalidade levantam algumas pistas interessantes. Apresentava um narcisismo exibicionista, marcado por uma necessidade patológica de atenção pública e validação. Ao mesmo tempo, desafiava as autoridades exigindo a publicação dos seus criptogramas nas primeiras páginas dos jornais, sob ameaça de novos assassinatos. A necessidade de controlo e de poder era também uma das suas caraterísticas, pois o ato de matar operava como um mecanismo de superioridade. Aliás, em relação a este tema, numa das suas cartas alegadamente decifradas por especialistas independentes, afirmou explicitamente que matar "era divertido" porque o ser humano era "o animal mais perigoso de todos". Mas também tentava mostrar uma intelectualidade pretensiosa e superior, no sentido em que o uso de mensagens cifradas complexas parecia evidenciar o desejo de ser visto como uma mente brilhante e incompreendida pela polícia (mesmo quando análises forenses posteriores revelaram erros gramaticais frequentes, sugerindo que poderiam ser intencionais para despistar ou fruto de uma educação formal de nível baixo). Finalmente, parecia também ser manifesto um sadismo psicológico secundário, pois sentia prazer não só com a violência física em si, mas, fundamentalmente, com o pânico coletivo provocado nas comunidades e o terror psicológico infligido às famílias através de telefonemas anónimos.

Enfim, muito pouco sabemos e saberemos deste “ilustre desconhecido que gostava de brincar com a polícia”, ter a atenção da imprensa e matar seres humanos por puro divertimento!

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