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O HERÓI DA TAÇA

Esteve para ser dispensado do Sporting, hoje é uma estrela no Benfica – e autor do golo que deu a 24ª taça ao clube. Não deixa por isso de continuar apegado à família: “Quando vem a Vila Real, pede-me logo que lhe faça um arrozinho solto com feijão e pataniscas”, garante a mãe.

23 de maio de 2004 às 00:00

Simão Fonseca Sabrosa, nasceu em Constatim, Vila Real, na casa que ainda hoje é a residência da família, paredes-meias com o estádio de futebol da freguesia, onde a estrela do Benfica deu os primeiros pontapés na bola. No passado domingo, o dia foi de festa de arromba. Após uma festinha de anos em família, o Benfica-Porto da final da Taça de Portugal reuniu à volta de uma mesa o clã Sabrosa, para 'torcer' pelo emblema das águias e em particular por Simão.

Ilda Fonseca, a mãe do jogador, com um brilho intenso nos olhos afirmou à Domingo Magazine que foi dos momentos mais felizes que viveu na carreira do seu filho. “Gritei, abracei toda a gente, bati na mesa e, acho que, só não parti a televisão porque aquilo não é para partir, mas a minha alegria era tanta que extravasei daquela forma toda a minha felicidade.”

Mais calma, a matriarca, relembra os tempos difíceis aquando da saída de casa do seu menino com destino ao Sporting. “O Simão era muito pequenino e deixá-lo partir sozinho para tão longe fazia-me doer o coração. Sofri muito, foi uma separação chocante. Só aceitei porque todos me diziam que era para o bem dele.”

Pela memória da mãe passam todos os momentos em que a família foi abordada para que o Simãozinho fosse para Alvalade. “Quando o senhor Mário Lino veio a minha casa, o Simão tinha chegado há pouco tempo das aulas e estava a dormir. Foi o Serafim, irmão mais velho, que o foi esperar. Quando chegaram a minha casa, o Simão, com os nervos e o sono (ele era muito chatinho com o sono), não quis falar com ninguém. No dia seguinte, quando o irmão lhe contou o que se tinha passado ficou contente porque ia poder concretizar um sonho, jogar à bola num grande do futebol português.”

Para Ilda Fonseca, a família está agradecida ao Sporting pela forma como “formou o filho” e “fez dele um homem”. “Fomos sempre muito bem recebidos quando o visitávamos em Alvalade. Chegou rápido a sénior e a transferência para Barcelona aconteceu muito cedo. O Simão tinha dezoito anos, era uma criança. Um ano ou dois depois, se calhar, teria sido melhor para ele mudar.”

TODOS NO BENFICA

Na família Sabrosa todos são benfiquistas desde pequenos. Dona Ilda diz que sempre teve alguma dificuldade em refrear os sentimentos quando de um lado estava a jogar o filho (e queria sempre que este ganhasse antes de tudo) e do outro lado o seu clube de coração. “Quando ele estava no Sporting o nosso coração era verde, quando se transferiu para o Barcelona passámos a torcer pelo clube catalão. Quando regressou a Portugal, não foi para o Sporting porque eles não quiseram, ou não tiveram dinheiro, e fiquei feliz porque finalmente tinha o meu filho a jogar no meu clube do coração. Espero que o Simão termine a carreira no Benfica, onde é tratado como grande estrela que é.”

DORMIR NO COLO DA MÃE

Simão Sabrosa iniciou os estudos na escola primária de Constatim e com dez anos passou a frequentar a Secundária Diogo Cão, onde o Sporting o veio descobrir, tendo como primeiros treinadores o professor José Maria (presidente do conselho directivo) e Abel Ferreira.

“O Simão era um bom estudante, tinha boas notas mas depois teve de optar. Quando chegava a casa da escola, esperava que eu viesse do trabalho, sentava-se no meu colo e ali dormia. Muito gostava ele de dormir no meu regaço. Foi das coisas que eu mais estranhei quando ele foi para Lisboa. Depois do colo deitava-se no sofá e deixava um bilhete ao irmão: ‘Mano faz-me os deveres que eu amanhã tenho teste.’ Nos dias que tinha treinos da bola nem a casa vinha. Entregava a pasta a um colega e seguia directo para o campo”, explicou a mãe.

ARROZ DE FEIJÃO COM PATANISCAS

Mesmo estando há muitos anos fora de casa o futebolista nunca se esqueceu das comidas caseiras da mãe. “Quando vem a Vila Real, mal chega a casa, pede-me logo que lhe faça um arrozinho solto com feijão e pataniscas. Muito gosta ele daquilo. O Simão telefona-me todos os dias e é rara a altura em que ele não pergunta: ‘Então, o que temos hoje para o almoço?’ Na semana passada, quando lhe disse que estava a fazer arroz de salpicão, ele disse: ‘Ai mãe, não digas mais nada que me fazes ainda mais fome.’

É um amor de filho. “Mesmo estando longe, está sempre preocupado em saber como está o pai, a mãe e os dois irmãos. Foi obrigado a ser homem muito cedo, dado estar sozinho e ter de se desenrascar para fazer face às dificuldades que a vida lhe colocou no caminho.”

Recorda a matriarca que, quando Mário Lino os foi visitar, ela não queria que o filho fosse para Lisboa. “O irmão, Serafim, é que fez força para que não lhe cortássemos as pernas. Hoje estamos muito felizes por ele, mas é difícil explicar o que os pais sofrem quando lhes é arrancado um filho dos braços daquela idade.”

Serafim Sabrosa, o irmão Serafim Sabrosa foi o familiar de Simão que mais de perto esteve nas decisões para que este chegasse ao lugar que hoje ocupa no futebol português. “A carreira do meu irmão deu muito trabalho, para a qual contribuiu o seu esforço e dedicação. E se ele chegou onde está merece-o, porque nunca se poupou, entregando-se de alma e coração aos projectos.”

O irmão mais velho da estrela benfiquista explicou à Domingo Magazine que o mais difícil na carreira do irmão foi separar-se da família. “O meu irmão era muito afeiçoado, em especial a mim, já que andávamos sempre juntos e eu protegia-o e ajudava-o em tudo aquilo que ele precisava. A ausência dele em casa provocou um vazio que foi difícil para todos nós. Sempre que o visitávamos dizia que se queria vir embora e, mesmo através do telefone, era complicado desligar porque ele ficava sempre desfeito em lágrimas.”

Serafim Sabrosa recorda os momentos que pesaram para que o Sporting contratasse o Simão, já que o jogador tinha sido indicado ao clube por olheiros de Alvalade. “Num jogo de iniciados disputado em Coimbra, entre a União e a Escola Diogo Cão, em que a equipa do meu irmão venceu após uma grande exibição do Simão.”

Tudo se precipitou. “O senhor Mário Lino contactou-me, veio a minha casa falar com os meus pais, mas apenas eu defendia que ele deveria ir para Lisboa porque era a oportunidade da vida dele. Após a anuência dos meus pais, fomos falar com a Escola Diogo Cão, que estava renitente em deixá-lo sair dado ser a mais-valia da equipa. Chegaram a acordo e o Simão seguiu para Lisboa. ”

De dispensado a vedeta Segundo Serafim Sabrosa a vida do irmão em Alvalade não foi um mar de rosas. “Alguns dos episódios nem sempre apareceram na comunicação social. Houve uma altura em que o Simão esteve para ser dispensado, valendo na altura a opinião de pessoas com peso dentro do Sporting para que isso não acontecesse.

E também ele reconhece que a transferência para Barcelona foi um pouco prematura, dado que Simão era ainda muito novo. “O meu irmão esteve durante um ano e meio em grande ascensão no Sporting e de um momento para o outro foi vendido. Não se adaptou, porque não estava a ser utilizado como ele esperava e decidiu regressar, sendo que, na altura, o clube para onde ele queria vir era para o clube da sua formação e do coração. O Sporting não quis, por alegados problemas financeiros, e então aparece o Benfica (clube de coração de toda a família) onde ele hoje se sente muito bem e onde está a mostrar todas as suas potencialidades.”

Nome: Simão Pedro Fonseca Sabrosa

Posição: Extremo direito

Data de nascimento: 30/10/1979

Altura: 1.70 metros

Peso: 64 Kg

Clube actual: Benfica

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