Aos 37 anos, Robert Kirkman ganha milhões com o fenómeno ‘Walking Dead’ e tem orgulho nisso.
Habituado a criar vários cenários de apocalipse, mortos-vivos a perder de vista, que são uma ameaça apenas comparável à maldade humana, o norte-americano Robert Kirkman, criador do fenómeno global de ‘Walking Dead’, gagueja quando lhe perguntam o que faria perante o fim do Mundo: "Estaria tramado. Ponho a minha cabeça entre os joelhos e digo adeus? Acho que esses seriam os passos um e dois. Depois, creio que ia dormir e esperava que o fim chegasse." A resposta parece pouco elaborada para quem fez fortuna com o terror na ficção e continua a faturar todos os dias.
Aos 37 anos, mantém a pose descontraída, com a barba por fazer e o fato discreto, num estilo um pouco mais aprumado do que o do outro mago da ficção de terror e fantástico, o neozelandês Peter Jackson. Foi assim que se apresentou à imprensa, no final do mês passado, para a apresentação na qual a ‘Domingo’ participou, em Los Angeles, do lançamento da segunda série da prequela ‘Fear the Walking Dead’, em exibição no canal AMC.
Hoje homem de negócios milionário, Robert Kirkman está muito distante do rapaz tímido e introvertido, natural de Richmond (no Kentucky), que era impedido pelos pais de ver filmes de terror a não ser na noite de Halloween.
O sucesso começou na criação de banda desenhada que ganhou peso e o levou até à escrita de argumento e produção das duas séries de televisão, que batem recordes de audiência e tornaram as figuras dos zombies em fenómenos de popularidade, nesta segunda década do século XXI. Kirkman está ciente da bola de neve que lançou e que continua a crescer: "Por vezes é assustador, agora que tenho duas séries no ar e ainda os comics e os videojogos. Ponho-me a pensar que não acredito nisto ter-se tornado em algo de tão grande", refere.
Impressionado pelas "centenas de milhares de pessoas que leem os livros e os milhões que veem as séries", Robert Kirkman assume que, por vezes, se sente "preso" e "preocupado". A forma de responder ao medo? "Tento não focar-me nisso ou acabaria por não fazer nada. Sim, pode ser enervante mas os meus filhos estão alimentados e por isso não me posso queixar", remata.
Acrescente-se que o fascínio pelo fantástico vai tão longe ao ponto do artista ter dado o nome de Peter Parker a um dos filhos, numa homenagem a ‘Homem-Aranha’.
Sangue e suor
Nem o amor pelas histórias aos quadradinhos, nem a paixão pelo terror chegaram cedo: só na escola secundária, Robert Kirkman descobriu os comics para lá das figuras da Marvel. Percebeu que era por aí que queria ir e virou costas à universidade.
Empregou-se numa fábrica de lâmpadas no Kentucky e numa loja de revistas de BD. Conheceu o parceiro criativo Tony Moore, com quem se dedicava a elaborar comics, enquanto mentia aos pais sobre a forma como ocupava os tempos livres. Foi-se endividando cada vez mais para poder desenhar e as contas de dezenas de milhares de euros começaram a acumular-se.
A sorte mudou no ano 2000 quando editou ‘Battle Pope’, sátira aos super-heróis, e pouco tempo depois estava a assinar pela Image Comics. Escreveu a bem-sucedida história de ‘Invincible’, que foi adaptada depois para televisão, até que o cenário se tornou ainda mais sério ao criar, de novo com o amigo Moore, o primeiro livro de ‘Walking Dead’, em 2003.
Os zombies já eram velhos conhecidos da ficção e Robert Kirkman não nega as suas influências: "O melhor filme de terror alguma vez feito é ‘O Dia dos Mortos’, do George A. Romero", realça sobre o clássico de 1985. No entanto, deu nova vida a corpos sem alma, que deambulam em cenários de apocalipse sangrentos: "Tenho presente, quando escrevo uma história, que a morte nem sempre chega nas alturas mais convenientes e gosto de jogar com isso enquanto argumentista", acrescenta.
Zombies de milhões
A transposição do fenómeno dos mortos-vivos para televisão, ocorrida em 2010, catapultou ainda mais Robert Kirkman, que quis ser ele próprio a escrever os episódios e a adaptar o universo gráfico da banda desenhada. ‘Walking Dead’, que é exibida pela Fox em Portugal, quebrou recordes de audiência, elevou os níveis de produção e caracterização, e voltará em outubro para a sétima temporada. Ao mesmo tempo, lançou uma outra série do género, ‘Fear the Walking Dead’, que se passa cronologicamente antes, no princípio do fim do Mundo. Os seis primeiros episódios da AMC foram vistos no verão passado por uma média de dez milhões de pessoas, só nos Estados Unidos, valores nunca observados numa série de televisão por cabo.
A fórmula das histórias é velha conhecida e Kirkman explica o motivo de atração: "Vemos estas personagens a lutar para protegerem a família e isso seria algo que todos faríamos, cada um à sua maneira. As séries ajudam a tornar o apocalíptico em algo verosímil." Consciente de que o género dos zombies "vai perdurar durante as próximas décadas", o norte-americano não pensa abrandar o ritmo: "Gosto de olhar para as coisas como um círculo completo mas, à medida que são lançadas as séries, continuo a escrever cada vez mais comics. Acho que nunca o vou deixar de fazer."
Império inesperado
Ter o controlo do império que criou também tem o seu preço e Kirkman tem-se desdobrado também em ações judiciais. Chegou a processar o parceiro Tony Moore, depois de este o ter acusado legalmente por apropriação do legado de ‘Walking Dead’, sem reconhecimento da sua autoria. Kirkman respondeu na mesma moeda por entender que Moore foi pago acima da contribuição para a criação do universo de zombies.
Desde que ‘Walking Dead’ foi lançado, o fenómeno gerou receitas de mais de dez milhões de euros, aos quais acrescem cinco milhões em produtos de merchandising. A marca ganhou fama e o último esforço legal foi para impedir que um restaurante de Nova Jérsia abrisse com o nome da série televisiva de mortos-vivos.
Robert Kirkman não esconde que é um controlador e a patente de ‘Walking Dead’ pertence-lhe não só no meio audiovisual, como também na comercialização de roupa interior, jogos de tabuleiro, armas e até falsas reproduções de cicatrizes e correntes de plástico, alusivas à série.
Além dos zombies, Robert Kirkman tem mais um negócio em vista: vai lançar uma nova trama televisiva sobre o polémico tema das possessões demoníacas. ‘Outcast’, protagonizada por Patrick Fugit e produzida de novo para a Fox, ainda nem estreou (só acontece em julho), mas já tem prometida renovação para a segunda temporada. É que, na soma de todos os medos, não há duas sem três.
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