Jorge Moreira da Silva alertou para que as limitações logísticas decorrentes do fecho de uma das maiores vias de navegação do planeta poderão desencadear uma tragédia humanitária sem precedentes.
A ONU tem um "plano de sete dias" pronto para ajudar a impedir um desastre humanitário global devido ao encerramento pelo Irão do estreito de Ormuz, afirmou esta quarta-feira Jorge Moreira da Silva, diretor do UNOPS.
Em entrevista ao portal ONU News, o responsável do Gabinete da ONU de Serviços para Projetos (UNOPS) alertou para que as limitações logísticas decorrentes do fecho de uma das maiores vias de navegação do planeta poderão desencadear uma tragédia humanitária sem precedentes.
Segundo um estudo do Programa Alimentar Mundial (PAM) citado por Moreira da Silva, 45 milhões de pessoas poderão ser afetadas por uma crise alimentar histórica devido ao colapso iminente do mercado global de fertilizantes, causado pelo conflito no Médio Oriente.
O resultado direto da guerra -- e da instabilidade na passagem marítima entre o golfo Pérsico e o golfo de Omã - foi um aumento acentuado do preço dos fertilizantes, um dos quais, a ureia, é um dos mais utilizados na agricultura, sendo essencial para o crescimento de culturas como milho, trigo e citrinos.
"O preço da ureia aumentou 65%. O preço do amónio aumentou 40% e, hoje mesmo, produtores de fertilizantes em países de África, como Marrocos e África do Sul, ou na China, ou na Turquia, ou na Índia, já estão a ser fortemente afetados por esta disrupção do mercado de fertilizantes", explicou o português, que foi nomeado diretor-executivo do UNOPS em março de 2023.
"Portanto, o problema já não é o mercado de fertilizantes do golfo da Pérsia, é o mercado global que está em fortíssima instabilidade e isto pode dar origem, se não atalharmos rapidamente, a uma crise alimentar de enormes proporções: o PAM apresentou recentemente um estudo que diz que, a curto prazo, podemos ter 45 milhões de pessoas a entrar em insegurança alimentar severa, com fome e subnutrição", sublinhou.
Jorge Moreira da Silva considera que a questão deixou de ser estritamente política para se tornar "um drama matemático e logístico": com as ameaças à circulação no estreito de Ormuz, os elementos da cadeia de produção que garantem alimentos a milhões tornaram-se reféns do conflito.
O líder do UNOPS aponta como possível solução um novo mecanismo concebido para contornar o bloqueio logístico, que, em apenas uma semana, poderá salvar a cadeia de produção global de alimentos.
E, perante o obstáculo da burocracia da guerra, pede aos dirigentes mundiais um mandato político urgente para agir, sustentando que a estrutura "está pronta para ser ativada em sete dias", faltando apenas "luz verde" internacional antes que a crise atinja o ponto de não-retorno.
O responsável indicou que o golfo Pérsico foi apenas o gatilho de uma crise que já está a asfixiar o mercado de África à Ásia e que, para evitar o pior, o UNOPS tem "o botão de emergência" pronto para ser acionado, garantindo colocar em campo, em apenas uma semana, o mecanismo de resgate da ONU, cujo modo de funcionamento está ajustado, com logística montada, monitores a postos e a estrutura em alerta máximo.
"No dia em que exista um acordo político dos Estados para que possamos acionar o mecanismo, precisaremos de sete dias. Em sete dias, teremos os nossos monitores no terreno, nos portos da região do Golfo, e o sistema de aprovação do transporte de fertilizantes também operacional", assegurou.
"Isso dá uma ideia muito clara, do ponto de vista logístico, do nível de preparação e de celeridade que estamos a colocar nisto - mas não podemos avançar enquanto não houver um mandato, os países têm que nos dar um mandato para podermos pôr em prática este mecanismo, e ainda não estamos nessa fase", acrescentou.
A premissa de Moreira da Silva é que não se pode esperar pelo fim da guerra para resolver a crise dos fertilizantes.
"A paz é o ideal, mas produzir alimentos é urgente", afirmou, razão pela qual está a "intensificar a ação diplomática" em Nova Iorque.
"Há um número cada vez maior de delegações de países a contactar-me para saberem mais sobre o mecanismo e para apoiarem a ideia", referiu.
Nos corredores da ONU, as conversas com representantes do Irão, dos Estados Unidos, de Israel e dos países do golfo Pérsico centram-se em isolar a logística humanitária da questão militar, para impedir que o gargalo logístico do estreito de Ormuz se transforme no epicentro de uma fome global.
Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar ao Irão, que justificaram com a inflexibilidade da República Islâmica nas negociações para pôr fim ao enriquecimento de urânio no âmbito do seu programa nuclear, que afirma destinar-se apenas a fins civis.
Em retaliação à ofensiva, o Irão encerrou o estreito de Ormuz, abalando a economia mundial, e lançou ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e infraestruturas civis em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Jordânia, Omã e Iraque.
A 02 de março, Israel iniciou uma guerra com o Líbano, em resposta a um ataque do movimento xiita libanês Hezbollah, aliado do Irão, o que fez aumentar os receios de alastramento da guerra a todo o Médio Oriente.
Washington e Teerão acordaram a 07 de abril um cessar-fogo de duas semanas, para negociações assentes num plano de dez pontos de Teerão para pôr fim a 40 dias de guerra.
O cessar-fogo foi na terça-feira prorrogado pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, horas antes de expirar, para que o Irão apresente o seu plano, que prevê o levantamento das sanções internacionais e a retirada das tropas norte-americanas da região em troca de um compromisso iraniano de não produzir armas nucleares e garantir a passagem segura pelo estreito de Ormuz.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, saudou o prorrogamento do cessar-fogo, afirmando tratar-se de "um passo importante rumo ao apaziguamento e à criação de um espaço fundamental para a diplomacia e a construção de confiança entre o Irão e os Estados Unidos".
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