Politólogo António Costa Pinto prevê que líder do Chega vai procurar acentuar a divisão direita-esquerda para tentar chegar a Belém.
O politólogo António Costa Pinto acredita que André Ventura polarizará a dimensão direita-esquerda na segunda volta das presidenciais para tentar a "mobilização integral da direita", em mais um teste sobre quem é o partido dominante neste campo político.
Em declarações à Lusa sobre os resultados das eleições presidenciais de domingo, que colocam António José Seguro (31,11%) e André Ventura (23,52%) na segunda volta, António Costa Pinto afirma que "o desafio fundamental" na votação de 8 de fevereiro "volta a estar à direita", perspetivando-se "mais um episódio na estratégia de tensão e de compromisso sobre quem vai ser o partido dominante da direita em Portugal".
Para o investigador e professor de ciência política, o objetivo do líder do Chega será "colocar eleitorado do PSD e da IL que nunca votou Chega" a fazê-lo pela primeira vez, enquanto António José Seguro, apoiado pelo PS, sendo o "candidato que representa no fundamental o centro democrático", terá de crescer eleitoralmente "perante a mobilização da direita radical".
"Independentemente das tensões à direita continuarem, o candidato André Ventura vai modelar a sua campanha para a conquista do eleitorado do PSD e da Iniciativa Liberal, ou de segmentos do eleitorado do PSD", sublinha.
O politólogo nota que estas presidenciais têm uma especificidade -- a circunstância de haver "um presidente de partido [Ventura] que se candidata à Presidência da República", o que não ocorreu com Luís Marques Mendes ou não acontece com António José Seguro, "que representam, no fundamental, o modo habitual de candidaturas" a Belém.
Relativamente ao posicionamento que André Ventura assumirá nesta segunda volta para captar eleitorado, Costa Pinto pensa que o candidato "vai repetir exatamente a fórmula da primeira volta, ora com uma mensagem de extrema-direita, ora com uma mensagem mais moderada".
Por um lado, "vai radicalizar os temas, tentar, quando possível, colocar António José Seguro como um candidato socialista", polarizando "a dimensão direita-esquerda", diz.
Por outro, tentará colocar sobretudo o PSD "em xeque a favor da mobilização integral da direita", antevê.
Questionado sobre as consequências políticas para o xadrez parlamentar à direita caso Ventura não vença na segunda volta, António Costa Pinto afirma que o candidato "vai-se sentar novamente no parlamento como o líder de um partido que cresceu muito eleitoralmente em eleições presidenciais", criando "condições mais difíceis sobretudo para o PSD e para o Governo de Montenegro".
Na sua leitura, o país que saiu das eleições de domingo "é exatamente o mesmo" daquele que resultou das legislativas de 18 de maio de 2025.
"É um país cujo eleitorado virou à direita e que vai ter, agora, nas presidenciais, que optar entre um candidato que se tentará colocar o mais possível ao centro do espetro político e um candidato de direita radical", descreve.
"As linhas vermelhas já desapareceram há muito tempo, ou seja, na realidade, nunca existiram. O primeiro-ministro dirige um governo minoritário. A maior parte da legislação que implementou, nomeadamente sobre imigração, nacionalidade, etc., baseia-se em negociações e acordos com a direita radical", lembra.
Relativamente ao resultado de Henrique Gouveia e Melo, que obteve 12,32%, abaixo do que apontavam as sondagens do início de 2025, Costa Pinto vinca que os partidos "reagiram a essa ameaça inicial e provaram que são bem mais poderosos e resistentes do que inicialmente se poderia pensar", tendo em consideração que "reforçaram a sua dimensão partidária, nomeadamente à direita Ventura e Cotrim de Figueiredo".
Quanto à expressão do voto em branco, que foi de 1,06 %, superior às votações individuais de Jorge Pinto (0,68%), André Pestana da Silva (0,19%) e Humberto Correia (0,08%), o politólogo afirma que "é um voto de protesto democrático", congregando "eleitores ativos que não demonstram simpatia por nenhuma das [11] candidaturas".
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