Na semana passada, os 27 países da União Europeia alcançaram uma maioria qualificada para validar o acordo.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que as críticas provenientes de alguns setores agrícolas na Europa assentam em perceções erradas do acordo comercial com o Mercosul que será hoje assinado.
"Eu acho que esse debate na Europa assenta muito uma perceção totalmente errada daquilo que está previsto no acordo", defendeu na sexta-feira António Costa, em declarações à imprensa na cidade brasileira do Rio de Janeiro.
O presidente do Conselho Europeu, que parte para Assunção este sábado para a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, frisou ainda que "todos os estudos indicam, e a Comissão tem no site da Comissão, país por país, qual é o impacto na economia de cada um dos países europeus deste acordo".
"E mesmo no setor agrícola, há, digamos, três ou quatro setores onde a concorrência será a mais forte para os países da América Latina e do Mercosul. É a carne de boi, é o açúcar, a galinha e alguns produtos lácteos", recordou, afirmando, contudo, que mesmo nestas áreas "as cotas que estão estabelecidas são cotas muito baixas", variando entre 1,4% e 1,6% da produção europeia.
"Portanto, essa concorrência, sim, vai ser concorrência, mas isso faz parte da vida económica. Não há vida económica sem concorrência. Mas é uma concorrência que está muito limitada", defendeu.
O ex-primeiro-ministro recordou ainda que a Europa conseguiu no acordo "o reconhecimento de centenas de dominações de origem de queijos, de vinhos, de azeite, que são produtos de grande valor em muitos países, por exemplo, em França", um dos países que se opôs ao acordo.
"Portanto, essa ideia de que os agricultores em geral estão contra não é correta", afirmou, acrescentando que, num acordo comercial deste tamanho, "é evidente que, nuns casos, é melhor para uns, noutros casos, é melhor para outros".
"Vai ser um dia histórico porque vamos finalmente assinar um acordo que é o maior acordo comercial do mundo e que começou a ser negociado há 25 anos", disse, utilizando uma tónica semelhante à presidente da Comissão Europeia.
"O Acordo UE-Mercosul envia uma mensagem poderosa. Diz: bem-vindos ao maior mercado do mundo e à maior zona de comércio livre do planeta", enfatizou Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro, ao lado do chefe de Estado do Brasil, Lula da Silva, um dos principais impulsionadores para que o acordo fosse finalmente concretizado.
Num encontro no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, que não contou com a presença de António Costa, devido ao cancelamento de um voo, a líder europeia sublinhou que o acordo representa "a força da amizade e da compreensão entre povos e regiões separados por oceanos" e que é desta forma que se cria "prosperidade real, uma prosperidade partilhada".
A assinatura do acordo entre a União Europeia (UE) e os quatro países do Mercosul (Argentina, Brasil Paraguai e Uruguai) só foi possível depois de, na semana passada, os 27 países da União Europeia terem alcançado uma maioria qualificada para validar o acordo, apesar dos votos contra de França (principal opositor), da Polónia, da Áustria, da Irlanda e da Hungria, e da abstenção da Bélgica.
Para alcançar a maioria qualificada foi necessário negociar salvaguardas adicionais para os agricultores europeus, que têm continuado a manifestar-se nos últimos dias contra o acordo, e que serviram para convencer Itália, mas não foram suficientes para que Paris também se juntasse.
O acordo permitirá eliminar tarifas para 91% das exportações da UE para o Mercosul e para 92% das vendas sul-americanas para a Europa, abrindo um mercado conjunto de mais de 700 milhões de consumidores e que, juntos, representam um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente 22 biliões de dólares (19 biliões de euros), segundo dados da Comissão Europeia.
A assinatura do acordo comercial contará com, além da presidente da Comissão Europeia e do presidente do Conselho Europeu, dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos países que compõem o Mercosul e ainda do atual líder do bloco sul-americano, o Presidente do Paraguai, Santiago Peña.
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