Brasileiros escolhem o novo presidente com as sondagens a prever a vitória de um extremista de direita.
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O maior país da América Latina está profundamente dividido e mergulhado num discurso de ódio que não deverá dissipar-se depois da segunda volta das eleições presidenciais deste domingo.
De um lado está o medo de um candidato de extrema-direita acusado de ser racista, machista, homofóbico e xenófobo. Do outro o desespero por uma mudança e pelo fim da corrupção, insegurança e violência que fica depois de 16 anos de poder do Partido dos Trabalhadores (PT).
A vitória de Jair Bolsonaro, prevista pelas sondagens, mergulhará o Brasil numa era de incerteza e os opositores do candidato acreditam que a democracia e a liberdade de imprensa estão em causa. O candidato do Partido Social Liberal (PSL) defende penas mais severas para criminosos violentos, o direito ao porte de arma e elogia a ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985.
É visto como um candidato fora do sistema e passou ileso pela Operação Lava Jato, que prendeu alguns dos principais políticos do Brasil, entre eles o ex-presidente Lula da Silva. Tudo isso deu-lhe a vitória na primeira volta com 46% dos votos, contra 29% de Fernando Haddad, do PT.
Portuguesa que vive no Brasil diz que se pudesse votar escolhia Bolsonaro
Haddad, antigo ministro de Lula e ex-governador de São Paulo, tem contra si os 16 anos de PT no governo e também o facto de ser uma segunda escolha, depois da figura tutelar do partido, o ex-presidente Lula, ter sido impedido de se candidatar por estar a cumprir uma pena de 12 anos de prisão por corrupção.
O PT também adotou um discurso radical, com ataques à imprensa e à Justiça, mas Haddad fez um ‘mea culpa’ ao dizer: "Aprendemos com os erros e vamos corrigi-los", o que apenas lhe valeu uma ligeira subida nas sondagens.
Nas últimas horas os dois candidatos tentaram moderar o discurso para recolherem os votos do centro. Bolsonaro disse que "qualquer forma de diferenciação entre os brasileiros não pode ser admitida", enquanto Haddad prometeu "verdade e democracia".
Uma coisa é certa: ninguém sabe como será o Brasil a partir de segunda-feira, mas quem quer que seja eleito trigésimo oitavo presidente, nada ficará igual.
Jair Bolsonaro: O militar rebelde que se tornou político extremista
O mais polémico político brasileiro e inesperado fenómeno de popularidade, o capitão na reserva e deputado de extrema- -direita Jair Messias Bolsonaro nasceu em Glicério, estado de São Paulo, em 21 de março de 1955, numa família de italianos e alemães, que terá ainda remota ascendência portuguesa. Casou com Michele nove dias depois de ela ser contratada como secretária da Câmara de Deputados e tem cinco filhos de vários relacionamentos.
Militarista ferrenho, defensor da ditadura e da tortura, Bolsonaro teve o primeiro contacto com o mundo militar aos 15 anos, ao fornecer ao Exército pistas sobre o paradeiro de Carlos Lamarca, famoso por comandar uma organização armada que lutava contra a ditadura. Aos 18 anos entrou para a Academia Militar e, em 1977, formado paraquedista, iniciou a carreira militar, onde o seu temperamento explosivo lhe acarretou alguns percalços.
Documentos dos Exército mostram que era considerado demasiado agressivo. Foi descrito pelo coronel Carlos Pellegrino como tendo "falta de lógica e de equilíbrio" na argumentação. Em 1986, após escrever um artigo para a revista ‘Veja’ criticando os salários dos oficiais, foi preso por 15 dias e, em 1987, suspeito de participação num plano de rebelião, perdeu a patente e foi expulso. Ilibado por um tribunal militar e recuperando a patente de capitão, passou à reserva para aproveitar a popularidade obtida com os protestos e entrou na política, sendo eleito vereador no Rio de Janeiro.
Em 1990 foi eleito deputado e desde aí foi reeleito outras seis vezes. Em 2016, ainda no Partido Social Cristão, um dos nove a que já pertenceu, anunciou a candidatura à presidência, que lançou oficialmente este ano pelo Partido Social Liberal.
Fernando Haddad: Da universidade para a corrida à presidênciaFilho de um imigrante libanês, Fernando Haddad nasceu em São Paulo a 25 de janeiro de 1963. É casado e pai de dois filhos. Licenciado em Direito, mestre em Economia e doutor em Filosofia, tem-se dividido entre a docência e a política.
Ainda estudante ajudava o pai na loja de tecidos da família. Entrou na política em movimentos estudantis contra o regime militar. Em 1986, após o fim da ditadura, abriu uma empresa de construção que não vingou e tornou-se analista de investimentos. Em 1997 começou a lecionar Ciência Política na Universidade de São Paulo, onde se mantém ainda.
Em 2001 foi nomeado subsecretário de Finanças e Desenvolvimento em São Paulo e em 2003, quando Lula da Silva chegou à presidência, foi para o Min. do Planeamento, onde se destacou ao elaborar o projeto de Parcerias Público Privadas.
Em 2005 Lula nomeou-o ministro da Educação, cargo que ocupou até 2012, já no governo de Dilma Rousseff. Criou 14 novas universidades e também o programa Universidade Para Todos, que dá bolsas de estudo em universidades particulares a alunos pobres de escolas públicas. Sistematizou ainda uma nova visão da Educação, com apoio público desde a creche à universidade.
Em 2012 concorreu ao município de São Paulo e superou figuras de peso, como o ex-governador José Serra. Em 2016, o seu último ano na presidência da maior cidade do Brasil, foi eleito o melhor autarca da América Latina pela ‘Bloomberg’.
Este ano, quando Lula foi preso, o ex-presidente escolheu-o para sucessor na disputa presidencial, contra a vontade do PT. De início as sondagens davam-lhe 4% dos votos, mas passou para a segunda volta com 29% e poderá hoje superar os 44% dos votos válidos.
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